Filosofia DeLorean!

janeiro 7, 2012

Você conhece as interessantes discussões filosóficas envolvendo a trilogia De Volta Para o Futuro? Por exemplo a (entre os fãs) disputadíssima tese de que, durante o segundo filme, há um momento em que 4 DeLoreans coexistem no ano de 1955 – e toda uma ala de fãs argumenta que, na verdade, só chegamos a ter 3 DeLoreans.

Ou então, também no segundo filme, aquilo que talvez seja uma contradição fatal na trilogia: o fato de o velho vilão Biff Tannen, em 2015, retornar a 1955 para entregar ao jovem Biff Tannen um almanaque com os corretos resultados esportivos até o ano 2000, que o permitirá enriquecer através de apostas, alterando assim o passado – e então chegamos a um 1985 alternativo e sombrio em que a cidade de Hill Valley está aos pedaços, exceto pelo império de Tannen, “o homem mais sortudo da Terra”. O problema é que, aparentemente, segundo as regras da própria trilogia, isto deveria implicar o deseparecimento dos heróis Doc Brown e Marty McFly (então presos em 2015), dado que tiveram seus passados igualmente alterados: Doc Brown não inventou a máquina do tempo, e sim foi internado num manicômio; e Marty estava na Europa. É pior: se a máquina do tempo não foi inventada, o velho Biff Tannen não poderia tê-la usado para encontrar sua versão jovem. Paradoxo! Pelas palavras do próprio doutor Emmett Brown ao longo da trilogia, isto acarretaria o colapso do universo.

A principal comunidade do orkut declara, num tom de orgulho nacionalista, o fato de a saga ser totalmente imune a furos de enredo. E obviamente as defesas dos fãs (que vou chamar de) “perfeitistas” da trilogia, contra a contradição apontada acima, envolvem desde a postulação de universos paralelos (bem como a crucial diferença deste conceito para o de “realidade alternativa”, mencionado no filme) até especulações interessantíssimas sobre qual a verdadeira natureza do Tempo em De Volta Para o Futuro – só que essas visões têm seus próprios problemas e tudo é igualmente bem objetado, é claro, pelos fãs “defeitistas”, hehe. Para apimentar, Robert Zemeckis e Bog Gale (responsáveis pela trilogia), deram uma entrevista sobre o “funcionamento” da saga que, nas sutilezas que deixa em aberto, parece quase calculada para fomentar a especulação! O resultado final parece uma discussão teológica nos moldes da Idade Média, cheia de argumentos fortes misturados com apelações bizarras, com direito a uma Bíblia (a entrevista) sujeita a interpretações diversas.

Toda essa intriga, claro, é um prato cheio na interface entre filosofia do tempo (de dar mil vertigens por si só) e filosofia da ficção (o que vale na hora de saber a verdade sobre uma obra de ficção? Acréscimos do autor contam, ou só a obra em si é o “material empírico” de investigação?). E uma análise aprofundada, aqui, não precisaria ser só um sequestro da filosofia pelo entretenimento (se bem que isso bastaria, hehe). Quem sabe quais boas e mesmo cruciais ideias a análise lógica do tempo fictício da trilogia – seja ele inconsistente ou não – pode fornecer? Eu, pelo menos, sou bem entusiasta desse tipo de abordagem. Na verdade, considerando o quanto é potencialmente limitadora a tradição filosófica, isto é, o enquadramento mais ou menos consensual (e talvez aprisionador) em que cada geração debate as ideias, é provavelmente preciosa qualquer elaboração intelectual esmerada que tenha partido de não-filósofos – sejam o que forem, eles são livres de preconceitos. E o tempo de De Volta Para o Futuro, especialmente, foi cuidadosamente pensado pelos seus criadores. Creio ser uma matéria-prima excelente.

Quanto aos 4 DeLoreans, quem tem a trilogia fresca na memória pode me acompanhar… Estamos em 1955. É o final do segundo filme, quando o DeLorean voador do Doc Brown é acidentalmente atingido por um raio e vai parar no Velho-Oeste, em 1885, deixando Marty preso em 1955 sem máquina do tempo. Neste ponto, vemos Marty receber uma carta redigida há 70 anos pelo mesmo Doc Brown que acabara de desaparecer no céu. O que a carta informa? Que o DeLorean (o mesmo que acabara de ser atingido pelo raio e foi pra 1885) ficou essas sete décadas escondido em uma mina. É com ele que Marty poderá, enfim, retornar para sua verdadeira época, 1985. Mas para consertar esse carro, abandonado há 70 anos, Marty precisará da ajuda do Doc Brown jovem (digo, menos velho, rs) de 1955. E onde ele está? Despachando o outro DeLorean que, no final do primeiro filme, vemos retornar para 1985 pela primeira vez. Por fim, no contexto da história, é o mesmo dia em que o velho Biff Tannen entregou o almanaque para o jovem Biff Tannen – então também este DeLorean está por aí (antes de retornar a 2015 e ser recuperado pelos heróis, daí ir pra 1985 e ver Hill Valley dominada por Biff e, por fim, retornar a 1955 para consertar a merda e, acidentalmente, ir parar em 1885 e ficar enterrado por 70 anos até 1955 outra vez… fuck yea.)

Em resumo, os quatro DeLoreans coexistindo neste dia de 1955 seriam esses:

1) Aquele que vemos no primeiro filme, que vai para 1955 quando Marty foge dos Líbios e retorna para 1985 através do raio da Torre do Relógio.

2) O utilizado pelo velho Biff Tannen, saído de 2015, para fazer com que o jovem Tannen enriqueça.

3) O que retorna a 1955 exatamente para evitar a ação do velho Biff Tannen, acima – e que acidentalmente vai para 1885, após ser atingido por um raio.

4) O que, chegado acidentalmente a 1885, ficou 70 anos enterrado numa caverna até ser desenterrado por Marty.

Antes de dizer o que há possivelmente de errado com a tese, comento que a questão da identidade do DeLorean, supostamente o mesmo e quatro carros diferentes (Santíssima Quadrindade, hehe) em 1955, é um ponto interessante por si só.

O problema é o seguinte: num certo sentido, o DeLorean 4 só surge “após” o DeLorean 3 ser atingido pelo raio e desaparecer.

Reflita sobre isso. Perceba que intrigante!

Enquanto o DeLorean 3 paira no céu, antes de ser atingido pelo raio e ir parar em 1885, não há nenhum DeLorean 4 enterrado há 70 anos numa caverna de Hill Valley. Este passa a “ter estado enterrado nos últimos 70 anos” apenas depois que o DeLorean 3 desaparece. Daí que só chegam a coexistir três DeLoreans, de fato. Quer dizer, pelo menos a princípio. O caso é que, uma vez tendo ocorrido de o DeLorean 3 ser atingido pelo raio, isto outra vez muda o passado e, consequentemente, muda o presente (1955). Então a história “oficial” e “atemporal” do Universo passa a ser que, naquele dia de 1955, havia sim um DeLorean enterrado na caverna há 70 anos, precisamente porque sua contraparte (3) estava prestes a ser atingida por um raio!

Isto, claro, nos joga para uma noção de “meta-tempo”, um tempo de ordem superior a partir do qual podemos analisar aquele dia de 1955: “antes” só 3 DeLoreans coexistiam e “depois” – por causa do terceiro DeLorean alterar o passado e, logo, o próprio presente em que estava – 4 DeLoreans passaram a coexistir.

O mais próximo de um consenso a que os fãs chegam é assumir a seguinte tese (bastante plausível, aliás): de fato 4 DeLoreans coexistiram do ponto de vista “panorâmico” e “concluído” de toda a trilogia De Volta Para o Futuro, no entanto essa linha “final” do tempo não é exibida nos filmes – o que vemos, em lugar dela, é a linha de tempo anterior ao DeLorean 3 ir a 1885 alterar o passado. O que vemos no segundo filme, portanto, é a versão em que apenas 3 DeLoreans coexistiram. E essa versão é alterada assim que vemos, no final do segundo filme, o DeLorean 3 desaparecer no céu – veja que louco: passa a ser verdade que, segundos antes, 4 DeLoreans coexistiam; mas isto ainda não era verdade na versão de “poucos segundos antes” em que estávamos.

Isso, claro, não satisfaz a todos. Quem disse que o passado já não estava “alterado” mesmo na linha de tempo que o filme mostra? Por que já não havia um DeLoren 4 enterrado, se o DeLorean 3 de fato estava prestes a retornar a 1885? Aí, claro, há toda outra linha de argumentação sobre a lógica interna da trilogia – se fosse assim, por exemplo, teríamos um segundo Marty no baile desde o primeiro filme! Mas aí há quem ouse dizer que, sim, já havia – apenas a câmera nunca o mostrava (ou até o mostrava “subliminarmente” segundo certos paranoicos!). Era mesmo essa a intenção dos criadores? E isso faz diferença? Será que deveríamos analisar os ângulos do baile, entre o primeiro e o segundo filme, para talvez provar que o segundo Marty deveria aparecer em certo local vazio do primeiro filme? E isso contaria ou seria descartado como mero “erro de continuidade das filmagens”? Obviamente, a controvérsia é estritamente infinita, hehe…

Podemos, contudo, tentar formar alguma imagem coerente e plausível. Talvez seja possível. E, se não for, o exercício filosófico é magnífico por si.

*****

Haveria, é claro, muito mais a dizer de interessante sobre as complexidades da trilogia, em interface com a filosofia do tempo e da ficção. Por exemplo, a ideia estranha (e que parece implicar um meta-tempo) de que as mudanças no passado alteram o presente e o futuro não de forma “instantânea”, mas gradual, como numa onda de propagação – isto tanto está implícito com as fotos onde as pessoas vão desaparecendo gradualmente, quando explícito na mencionada entrevista. Outro ponto é se a mudança do passado gera universos paralelos, ou simplesmente muda o bloco único de espaço-tempo: a preferência é do segundo caso, por outros tantos motivos. Talvez eu me convença, em algum momento, de que vale a pena fazer um modesto “tratado” sobre tudo isso. Pelo menos eu e os demais fãs da trilogia nos divertiríamos. :)

Cotidiano Paralelo

setembro 1, 2011

Esse texto singelo é uma justa homenagem a uma pessoa que eu nunca amei tanto quanto agora: Lauro Edison, hehe. Algumas poucas pessoas, em especial uma, sabem o quanto é oportuno que eu me sinta assim justo… agora! =D

“Nunca tenha medo de arriscar, de arriscar! Eu já falei a você sobre o Equus, não falei? Aquele doutor, Dr. Dysart, com quem eu muito me identifiquei… Viu que era melhor se arriscar na loucura e cegar cavalos com espetos de metal, do que ser seguro e convencional e monótono.”

[rpg] Mago ● A Ascensão
Christopher Durang

Era pra eu ter dormido umas 2 da madrugada. Um lapso, bem mais que um lapso aliás (ela sabe), e fui dormir às 6! Devia ter acordado 11 da manhã, acordei 4 da tarde. Falha! O cotidiano esmerado, estudado, planejado, outra vez saiu completamente dos trilhos. Como corrigir a rota? Antigamente, e não muito, isso levava até um mês pra corrigir. Agora precisa levar um dia no máximo. Pra dormir mais cedo, só uma solução forçada: duas latas de cerveja na hora certa. Funcionou bem, e dormi às 4 da manhã – pela natureza, teria ido dormir às 8.

Mas álcool tem consequências óbvias na manhã seguinte: depressão irracional, apatia, cérebro derretido, tédio de pré-adolescente. Ainda bem: sou um robô previsível e tenho o manual de instruções. Solução, desta feita, é outra: modafinil e muita cafeína, mais um energético qualquer. 45 minutos. Parece que tenho 18 anos. O fígado ou os rins vão cobrar caro demais isso um dia? Não necessariamente. Também estou ligado e me prevenindo. Fato: estou pronto para o dia. Cores de aurora grega pra onde olho. E estarei melhor ainda a seguir: 25 minutos de esteira, pesos aumentados na academia. Nem dói, é desafiador e estimulante – modafinil faz mágica. Uma gostosa de rabo impossível entra na academia e, num lapso instintivo, supera a mulher que amo. Dura uns 10 segundos. Impossível controlar, os homens e as mulheres espertas o sabem. Os afetos são sagrados, a natureza é vulgar, hehe. Eu amo essa sensação. Note como o detalhe marcou meu dia. “Homens!”, se conforma a outra espécie. Obviamente o instinto não nubla minha razão, nem mesmo durante os 10 segundos magníficos. Talvez é disso que eu goste: de estar à frente de minha biologia. Salve Dawkins. Talvez não seja suficiente pra ela. Então que se foda ela, hehe. Aparentemente ninguém está a salvo de burrices pontuais, nem os melhores. E, como sempre, burrice = tragédia. Salve Tyler Durden.

Está frio. Sair da academia acabaria em choque térmico. E gripo fácil. Quase esgotado, tenho uma decisão simples a tomar: voltar correndo. Assim a temperatura corporal se mantém apesar do frio. E os 9 minutos se tornam 1 minuto e meio, o que é um lindo bônus pelo esforço. Cansa? Sim, mas como posso sentir o cansaço, tão dopado pela felicidade artificial do modafinil e da esteira? Impossível. A resistência à dor vai ao máximo. Chego em casa ofegante. Proteínas, ferro, mielina e vitaminas já me aguardam estrategicamente. Tomo um bom banho. Esse texto vinha se escrevendo na minha cabeça desde que as drogas fizeram efeito. Aqui estou eu.

Eu obrigo esse organismo degenerado de 29 anos a ter 18 outra vez.
O cérebro acompanha. Fuck yea.

Agora, não pleno, mas de certo modo melhor que isso: sem precisar estar pleno, voltarei a estudar Cálculo.
Imune a tudo o que eu não controlo (i. e., a estupidez alheia; alheias).

Pra manter esse estado vigoroso, é preciso matar um leão por dia.
Mas cada dia é mais fácil matá-lo.

“Que nosso fogo interno esteja ao máximo, para esquentar a regra ao rubro e modificá-la! Que nossa realidade interior seja tão forte que corrija a realidade exterior! E que nossas paixões sejam devorantes, mas que tenhamos um apetite de viver ainda maior, para devorá-las!”

- As paixões segundo Dali,
Louis Pauwels e Salvador Dali

Eu sou forte. Você é?
Seja quem for, seja. Aprenda a ser.
Eu sei que parece impossível. Eu digo, você está iludido.
“Evolua, e deixe os pedaços caírem onde tiverem que cair.”

Bata forte, porque a vida é surda.
- Chumbawamba

Loucura Infinita

junho 18, 2011

Fiquei devendo esse post sobre o “Argumento Diagonal de (Georg) Cantor”, algo aparentemente sisudo mas na verdade chocante, quando falei do infinito dois posts atrás. Para simplificar, excluirei números negativos da explicação. E escreverei as decimais usando ponto, em vez de vírgula, para não confundir com as vírgulas do texto.

O que você verá a seguir é a explicação de por que existem mais números entre 0 e 1 (números “complicados” como 0.5, 0.222, 0.36146, 0.62626262…, 0.172837846…) do que todos os números “simples” como 1, 2, 6 , 10, 42, 339, 1777326, etc. E por que eu tenho a desconfiança herética de que tal explicação está errada (“herética” é eufemismo… minha desconfiança é considerada ridícula por qualquer especialista).

Claro que escrevi de um modo que tentasse impressionar até o mais leigo em matemática. O que chamei de números “simples”, na verdade, é o conjunto dos números naturais, simbolizado por lN e formado pela série 1, 2, 3, 4, 5… ao infinito. E o que chamei de números “complicados” é o conjunto dos números reais, simbolizado por lR e incluindo, além de todos os números naturais, também números “quebrados” como 2.5 ou pi, que é “3.14159… e nunca acaba”. Só observe que, aqui, “2.5″ e “3.14159…” não servem, pois são maiores que 1, e só vou falar dos números reais entre 0 e 1, como eu disse. Não que haja algo especial entre 0 e 1 – serviria entre zero e meio, entre 1 e 2, entre 4 e 7, entre 344 e 900; serviriam inclusive todos os números reais. Simplesmente, precisamos de algum foco, e minha explicação será mais fácil com o exemplo do intervalo entre 0 e 1.

A ideia inicial de Georg Cantor, matemático que revolucionou a concepção do infinito em fins do século XIX, é que dois conjuntos possuem o mesmo tamanho se seus elementos puderem ser dispostos em duplas, sem que sobre nenhum elemento sem par. É o que se chama de “correspondência um-a-um”. Em qualquer exemplo finito, isto é óbvio: se tenho uma caixa de maçãs e um grupo de pessoas, e cada pessoa fica exatamente com uma maçã, sem sobrar nenhuma maçã sem dono, e nenhuma pessoa sem maçã, isto prova que a quantidade de pessoas e de maçãs é a mesma – mesmo que não saibamos que quantidade é essa.

Cantor aplicou a mesma ideia a conjuntos infinitos. Note as duplas a seguir: de um lado, todos os números naturais (lN); de outro, apenas números naturais pares (P):

lN <—–> P

1 <—–> 2
2
<—–> 4
3
<—–> 6

4 <—–> 8
5 <—–> 10
ao infinito.

Como para cada número natural há um e somente um número par correspondente, a tal correspondência um-a-um, então os dois conjuntos – por incrível que pareça – possuem o mesmo tamanho. Exatamente como oito fatias de pizza para oito pessoas.

Mas isto não ocorre entre números números naturais e números reais – nem mesmo considerando apenas os números reais que há entre 0 e 1.

Cantor mostra isto do seguinte modo: imagine o contrário, isto é, imagine que você pudesse fazer correspondência um-a-um entre números naturais e números reais entre 0 e 1 (doravante, “números reais entre 0 e 1” será abreviado para “números reais”). Isto significaria que, para cada número natural, poderíamos associar um número real, sem que sobrasse número algum sem correspondente, em qualquer grupo. Por exemplo, o número “1” seria associado com “0.75629…“; o número “2” com “0.00321…“; “3” com “0.91526…“, e assim por diante, ao infinito, sem sobrar número nenhum (já vou explicar por que coloquei os reais fora de ordem). Mas isto é chocantemente impossível – ou assim parece concluir o argumento de Cantor (essa é minha ressalva ridícula, ignore).

Detalhe: você certamente notou que coloquei os números reais fora de ordem acima. Sim, eu os embaralhei. É mais fácil explicar assim. E, na verdade, não dá pra colocá-los em ordem! Depois de um número real qualquer existem infinitos outros, mas nenhum é “o próximo número”. Mesmo que eu forçasse a barra pra fazer isso, teria no máximo uma lista assim: “1” com “0.00000“; o número “2” com “0.00000“;3” com “0.00000…” – não se trata do mesmo número repetido, mas a diferença entre eles só poderia aparecer infinitas casas decimais após as reticências… Impossível mostrar. Então, é preciso embaralhá-los para explicar o argumento; mas isso não é problema: a quantidade de cartas não muda se você embaralhá-las.

Hora da ação: dada qualquer lista possível de duplas entre, de um lado, números naturais e, de outro, números reais, dá pra descobrir um número real que está entre 0 e 1 e, mesmo assim, não está na lista!

Digamos, por exemplo, que a lista supostamente completa, com todos os números naturais de um lado, e todos os números reais de outro, seja esta (é uma lista infinita, então claro que só cabe parte dela aqui – mas não faz diferença):

lN <—–> lR (entre 0 e 1)

1 <—–> 0.75629…
2
<—–> 0.00321
3
<—–> 0.91526…
4 <—–> 0.43728…
5 <—–> 0.17265…
ao infinito.

Parece perfeito: todos os naturais à esquerda; todos os reais (entre 0 e 1, lembre) à direita. Todos mesmo?

Cantor consegue descobrir um número (na verdade, infinitos números, mas um já basta) que está entre 0 e 1, mas que não pode estar nesta lista. E ele consegue fazer isso com qualquer lista possível, em qualquer ordem, diga-se. O que, claro, prova que nenhuma lista pareada lado-a-lado com os números naturais pode conter todos os números reais. De fato, sobram obrigatoriamente infinitos números reais fora da lista!

Como Cantor descobre esses números “não listados”?

Antes de mais nada, tome o seguinte cuidado para não se perder: 0.75629… é um número. Já o primeiro 7 após o ponto (bem como o 5 ou o 9) é um algarismo, ou uma casa decimal. Então o que temos, em nosso exemplo principal, é uma lista infinita de números (entre 0 e 1), e cada número tendo infinitos algarismos. Assim, não confunda as duas coisas.

Cantor usa a seguinte estratégia: se um número for diferente de todos os que estão na lista, então é claro que ele não está na lista. Para isso, Cantor começa humilde: quer achar um número que seja diferente apenas do primeiro da lista. Fácil, não? O primeiro número de nossa lista, por acaso, é 0.75629… (não sublinhei o “7″ à toa… observe) Não sabemos, é claro, quais outros algarismos compõem este número após as reticências. São infinitos, afinal. Com dez casas decimais, este número poderia bem ser 0.7562988765…, por exemplo, mas tanto faz. Não importa aqui. Basta olhar para a primeira casa decimal, que no caso é 7, e entender o seguinte: qualquer número cuja primeira casa decimal seja diferente de 7 é, obviamente, diferente do primeiro número de nossa lista – mesmo que todas as outras casas decimais sejam iguais. Assim, o número 0.85629, não importa como continue, é sem dúvida diferente do primeiro número de nossa lista. De fato, e é isto o que importa aqui, todos os números começados com 8 (ou qualquer outro valor que não 7) são diferentes de nosso primeiro número.

Agora, claro, Cantor dá o próximo passo: que este número, que já vimos ser diferente do primeiro da lista, também seja diferente do segundo da lista. Oras, o nosso segundo número é 0.00321 E seu segundo algarismo é 0. Obviamente, todos os números cujo segundo algarismo não seja 0 são diferentes de nosso segundo número – e o importante é que podemos ter certeza disso mesmo que não conheçamos mais nada do número, além de que seu segundo algarismo não é zero! Com certeza, nosso candidato 0.85629, que é diferente do primeiro número da lista, também é diferente do segundo. Será diferente do terceiro?

A estratégia é a mesma, claro. Nosso terceiro número é 0.91526…, cujo terceiro algarismo é 5. Outra vez, qualquer número cujo terceiro algarismo não seja 5 não tem chance de ser o terceiro número de nossa lista. Por acaso, nosso candidato continua invicto: 0.85629.

Não preciso dizer que basta fazer o mesmo para o quarto número em sua quarta casa decimal, para o quinto em sua quinta casa, para o centésimo em sua centésima casa, e assim por diante, ao infinito. O resultado será um número que está entre 0 e 1, pois começa com zero antes das casas decimais, mas que é diferente do primeiro, do segundo, do centésimo, do milésimo e, enfim, de todos os números da lista. Não está na lista, portanto!

Chama-se isto de “Argumento Diagonal”, é claro, porque se trata de descobrir um número composto por algarismos respectivamente diferentes de cada algarismo desta diagonal:

lN <—–> lR (entre 0 e 1)

1 <—–> 0.75629…
2
<—–> 0.00321
3
<—–> 0.91526…
4 <—–> 0.43728…
5 <—–> 0.17265
ao infinito.

Como a diagonal nos dá o número 0.70525, basta escolher um número cuja primeira casa decimal não seja 7, a segunda não seja 0… a quinta não seja 5a vigésima (após nossas reticências) não seja o-vigésimo-algarismo-do-vigésimo-número-da-lista, seja lá qual for… e assim por diante, sempre seguindo essa regra. O resultado será um número como, por exemplo, o nosso 0.85629 - um número diferente de todos os números da lista e que, portanto, não está na lista.

Resumo da ópera: os números existentes entre 0 e 1 não cabem numa lista ao lado dos números naturais “1, 2, 3, 4, 5,…” Qualquer lista deste tipo, embora inclua todos os números naturais de um lado, obrigatoriamente deixará de fora infinitos números reais de outro! Ergo, lN, embora infinito, é menor que lR; menor até que uma ínfima parte de lR, aquela contida entre 0 e 1.

*****

Por que o Argumento Diagonal não me convence?

Basicamente, por dois motivos.

O primeiro deles é sem dúvida o menos importante, mas ei-lo.

Existe um contra-argumento básico ao Argumento Diagonal, hoje automaticamente descartado como ineficaz. Mas esse julgamento me parece questão de alergia, e não de consequência lógica. O contra-argumento é o seguinte: se minha lista A não inclui todos os números reais, pois Cantor sempre descobre números que estão fora dela, então basta pegar todos esses números novos, descobertos por ele, e incluir na lista. Obviamente, surgirá uma nova lista B, formada pelos antigos números e pelos novos, recém-descobertos por Cantor. Claro, Cantor poderá fazer o mesmo na lista B: mostrar que ela ainda não inclui todos os números reais, pois fatalmente há muitos outros fora dela. Bem, inclua estes também! Isto nos dará uma lista C. Continuando isso, teremos uma lista D, uma E, uma F, ao infinito.

Agora, dado este processo infinito, por que concluir: “isto mostra que nunca haverá lista completa” em vez de concluir: “todo e qualquer número real pode ser listado, afinal… Então todos podem ser listados”? [Update 19.06.11 - pois pela mesma razão se poderia negar a correspondência entre naturais e pares (vide dois posts atrás), já que "nunca haverá lista completa". Cada lista A de Cantor define uma quantidade de números que está fora dela, nos dando uma lista B; o processo se repete; seja lá qual for o número real em questão, ele é listável em algum ponto. Então todos são listáveis. Só porque temos uma etapa a mais em jogo - em vez se apenas passar ao próximo número, ad infinitum, passar à próxima lista infinita, também ad infinitum - o duplo critério, sobre a impossibilidade de o processo se completar em ambos os casos, aparentemente não se justifica.] Nem mesmo é claro se, após infinitas etapas (em vez de meramente finitas), não vamos obter a lista completa, afinal. Dada a extremamente difícil apreensão do conceito de “infinito” (que é o conceito que está em jogo aqui), não vejo como ter tanta segurança sobre o argumento de Cantor.

O especialista, claro, vai me perguntar como essa suposta “lista completa”, obtida após infinitas etapas, poderia escapar do Argumento Diagonal. Como ela poderia ser diferente das listas parciais anteriores?

Penso que ela poderia parecer com a lista que vou propor a seguir.

E que é o meu segundo, e mais importante, motivo de ceticismo.

Note que, para Cantor, todos os infinitos ‘enumeráveis’ são iguais (as aspas são porque, se eu estiver certo, não há tal coisa como infinito ‘não-enumerável’), e a prova trabalha sob esse pressuposto.

A meu ver, ao contrário, cada infinito tem um tamanho específico, determinado pela sua quantidade específica de elementos. Não há “o infinito” como não há “o finito”.

Vejamos a lista embaralhada dos lR entre 0 e 1:

0.67892…
0.82374…
0.11795…
0.64188…
0.17348
.
.
.

Segundo Cantor, não importa como façamos tal lista, sempre podemos construir um número (na verdade, vários) que esteja fora dela. No caso da disposição acima, basta que nosso número tenha dígitos respectivamente diferentes de 6, 2, 7, 8, 8, etc. Por exemplo, o número 0.74655… (se continuamos o procedimento substitutivo após as reticências) não faz parte da lista em hipótese alguma.

Assim, prova-se (?) que há números reais não listáveis entre 0 e 1.

Mas isso apenas sob o pressuposto de que todos os infinitos naturais são iguais.

Pois veja o que ocorre se usarmos a tática de Cantor para casos finitos. Tal analogia mostrará o que quero dizer:

a) Para duplas de 1 e 2:

0,11
0,12
0,21
0,22

A receita de Cantor nos permite forjar o número 0.21. De fato, ele não está na parte da lista que a diagonal alcança. Mas está na parte debaixo (não estou usando os dígitos 0, e de 3 a 9, claro, para simplificar o exemplo).

b) Para triplas de 1 e 2:

0,111
0,112
0,121
0,122
0,211
0,212
0,221
0,222

Outra vez, a receita nos permite 0.222. Outra vez, isso (só) prova que 0.222 não pode estar na parte atingida pela diagonal. Então, está abaixo dela. Tem que estar.

Quando aplicamos a estratégia ao infinito, Cantor presume que a quantidade de dígitos horizontalmente, por ser infinita, tem que ser igual à quantidade de números verticalmente, que também é infinita. Tal pressuposição implica que o infinito é “quadrado” e, portanto, que a diagonal sempre esgota a lista:

0,yxxxx…
0,xyxxx…
0,xxyxx…
0,xxxyx…
0,xxxxy
.
.
.

Mas, retire-se a pressuposição de que os infinitos são iguais, e em certo sentido ocorre o seguinte:

0,yxxxx…
0,xyxxx…
0,xxyxx…
0,xxxyx…
0,xxxxy
0,xxxxx…
0,xxxxx…
0,xxxxx…
0,xxxxx…
.
.
.

A argumento de Cantor só prova que, até onde a diagonal alcança, o número não pode estar incluído. Oras, ele está sempre abaixo da diagonal. E isto porque o infinito horizontal é logicamente menor que o infinito vertical. Como os exemplos finitos claramente mostram, pra cada “casa de dígito” adicionada horizontalmente, multiplicam-se as possibilidades de combinação na parte vertical da lista – de modo que sua quantidade é exponencialmente maior.

Penso que tal fato, decisivo, não é mudado pelo mero fato de as quantidades envolvidas serem infinitas.

Pelo menos, o argumento em contrário, até onde sei, é o de Cantor. Mas, se estou certo acima, tal argumento é circular, pois presume aquilo que supostamente prova: que todos os infinitos (enumeráveis) são iguais.

Imbecil e hereticamente, I rest my case.

The Amazing Spiderman

fevereiro 19, 2011

Tudo sobre o novo filme do Homem-Aranha está me soando mal.

Mas como não ficar entusiasmado depois de ver isto?


Todos os Infinitos são Iguais?

janeiro 17, 2011

Um teaser de minha apresentação para o V-EI, em abril.

Todos sabem que o infinito matemático é enlouquecedor. A simples ideia de uma quantidade “sem fim” parece incompreensível, senão mesmo um disparate. E, no entanto, nossas intuições sobre o infinito são pesadas como âncoras, dificílimas de remover; o que é especialmente problemático (e empolgante), já que várias destas intuições são contraditórias entre si!

Todos os infinitos são iguais?

A maioria das pessoas tem certeza absoluta de que a resposta é “sim”… e, também, de que a resposta é “não”!

Vejamos [pra facilitar me limitarei aos números positivos]:

SIM – É claro que a resposta é sim, pensam elas, porque infinito “mais um” continua sendo infinito. E, aliás, o mesmo vale para infinito menos um; ou vezes quatro; ou dividido por 500; ou raiz quadrada de infinito. Dá sempre infinito, nada se altera.

NÃO – Mas é claro que a resposta é não, pensam elas, porque embora a quantidade de números naturais (1, 2, 3, 4, 5,…) seja infinita, podemos pegar só a metade deles – por exemplo, os números pares (2, 4, 6, 8, 10,…) – e teremos ainda outra quantidade infinita. Como esta segunda quantidade, embora infinita, é apenas metade da primeira, vemos imediatamente que certos infinitos são maiores que outros.

Desnecessário dizer que as duas argumentações, SIM e NÃO, são difíceis de engolir.

CONTRA SIM – Na ilha caribenha ‘El Infinito’ a população atual é de infinitas pessoas. E você está de mudança para lá. Desta perspectiva parece evidente que a quantidade de pessoas da ilha será alterada com sua presença. Ao que parece, qualquer quantidade infinita + 1 dará outra quantidade infinita, diferente da primeira – e a diferença, claro, será justamente de 1. Veja: se você retirar de ‘El Infinito’ todas as pessoas que estavam lá antes da sua chegada, sobrará exatamente você na ilha, sozinho. Neste caso, infinito (população original + você) menos infinito (população original) dá 1 (você). Claro: se você tivesse ido com a namorada, então infinito (população original + casal) menos infinito (população original) daria 2 (você e sua namorada). Se é assim, todos os infinitos são iguais coisa nenhuma. Cada infinito é de um tamanho específico diferente!

CONTRA NÃO – Basta pensar melhor pra ver que a quantidade de números naturais é, afinal de contas, idêntica à quantidade de números pares, em vez de ser “o dobro” dela. Afinal, para cada número natural existe exatamente um número par – nem mais, nem menos! Basta listar os números naturais (1, 2, 3, 4,…) ao lado dos números pares (2, 4, 6, 8,…) pra ver isto:

1 <—> 2
2 <—> 4
3 <—> 6
4 <—> 8
5 <—> 10
6 <—> 12
.
.
.
317 <—> 634
318 <—> 636
.
.
.

…e assim por diante, “ao infinito e além”, rs: os números naturais (esquerda) nunca deixam de ser acompanhados, um-a-um, pelos números pares (direita). Por incrível que pareça, as duas quantidades infinitas são idênticas.

Os contra-argumentos acima são bons avanços, mas tampouco são satisfatórios. Em CONTRA SIM há uma ideia maravilhosa e racional do infinito, a meu ver, mas que até hoje não conseguiu se tornar matemática formalizada e utilizável; em CONTRA NÃO, a despeito da argumentação superficialmente plausível (mas que é adotada pela matemática moderna), é patente que a quantidade de números naturais não pode ser idêntica à quantidade de números pares, pela razão óbvia de que os números naturais incluem todos os números pares e ainda alguns outros. De fato, incluem infinitos elementos a mais que os pares: claro, os ímpares. A quantidade de pares + ímpares não pode ser igual à quantidade de pares, é claro.

Aos especialistas: esse último argumento não poderia ser mais óbvio e devastador. Infelizmente, é depreciado como “grave falha intuitiva” no meio matemático, porque ele contesta os atuais fundamentos estabelecidos. Bem, pior para tais “fundamentos”. Na verdade, os matemáticos varreram pra debaixo do tapete a questão real sobre a “quantidade de elementos” de conjuntos infinitos. No lugar disso, criaram um termo nebuloso, uma espécie de paródia operacional obscura do conceito de “quantidade”, isto é, a tal cardinalidade. De modo bem esotérico, se diz tecnicamente que a “cardinalidade” (e não a quantidade de elementos) dos números pares é idêntica à dos números naturais. Oras, o que é cardinalidade? A resposta honesta seria: um substituto artificial, sem significado porém útil, do conceito de “quantidade”.

Se algo tão bizarro foi eleito como fundamento da matemática moderna, é obviamente porque os matemáticos, a curto e médio prazo, estão mais interessados em algo que funcione na prática do que em algo que faça sentido. E, na prática, foi o esquema (pseudo) conceitual acima, devido a Cantor e Dedekind, que triunfou, porque implicava em uma matemática que, apesar de bizarra, se prestou bem à formalização lógica e, assim, ao uso efetivo.

Isso é bom, claro. Os matemáticos apenas não deviam se esquecer de que, enquanto usam muletas que funcionam, as verdadeiras questões filosóficas continuam ali, esperando seu momento. Ninguém deveria confundir utilidade com verdade. Infelizmente, a matemática moderna está infestada deste espírito.

Dito isso, flagrei pelo menos Richard Courant, em O que é matemática?, sendo devidamente explícito sobre o fato de que “cardinalidade” (ou “equivalência”) não é o mesmo que “quantidade de elementos”. À página 96: “o conjunto de todos os inteiros contém mais elementos do que o conjunto de inteiros pares (…) mas vimos que estes conjuntos são equivalentes [= possuem a mesma cardinalidade]“. Alguém pode pensar que isto fosse óbvio e que estou fazendo tempestade em copo d´água… Mas se os matemáticos estão cientes de que “cardinalidade” e “quantidade de elementos” são coisas diferentes, por que fazem sempre alarde sobre o aspecto supostamente paradoxal de, por exemplo, os números naturais terem “a mesma cardinalidade” dos números pares? A menos que cardinalidade significasse “quantidade de elementos”, não há paradoxo algum.

Sejamos francos: “cardinalidade” é um termo anfíbio, semanticamente impreciso, “meio que” significando “quantidade de elementos”. É por isso que se diz confusamente que o conjunto dos naturais e o dos pares “têm o mesmo tamanho” – isto não deveria ser dito, afinal. É apenas sintaticamente, no formalismo puro, que o termo “cardinalidade” adquire precisão, como um conjunto de definições operacionais. Para um realista matemático, claro, isto não basta.

As argumentações expostas em SIM e NÃO, CONTRA SIM e CONTRA NÃO, tranquilamente se prestam a outras réplicas e tréplicas, fazendo a razão oscilar entre considerar todos os infinitos iguais ou não. É uma discussão fascinante.

Mas afinal, todos os infinitos são iguais?

No contexto desde post, ao menos, a resposta tem de ser definitivamente “não”. Isto pelo seguinte: é verdade que, para a matemática “oficial”, conjuntos infinitos como o dos números naturais, o dos pares, o dos primos e até o das potências de 1 trilhão têm todos exatamente a mesma quantidade de elementos “cardinalidade”. Ainda assim, há outros conjuntos que são infinitamente maiores (!) do que todos os já citados. Um exemplo? O conjunto dos números reais. Você se lembra: naturais são os famosos 1, 2, 3, 4, 5… Já os reais incluem todo tipo de número “quebrado”: meio (0,5), um terço (0,3333…), um quarto (0,25), um oitavo (0,125), raiz quadrada de dois (1,41421…), pi (3,14159…), etc.

Pois bem: segundo a matemática hoje estabelecida, existem mais números reais (mesmo só considerando os que há, por exemplo, entre 0 e 1) do que números inteiros (mesmo em sua totalidade)! Curioso? Há um argumento espetacular pra isso, a famosa “Diagonal de Cantor” (contra o qual, aliás, também nutro reservas), mas eu não quero me alongar aqui. Falarei disso em meu próximo post. O importante, agora, é apenas reconhecer que nem todos os infinitos são iguais, mesmo para a matemática estabelecida.

Eu discordo da matemática estabelecida, mas também acho que nem todos os infinitos são iguais. A diferença é que, pra mim, nenhum infinito (∞) é igual ao outro. Um x + 1 será igual a um y; e este y + 1,  por sua vez, resultará num z; o que, claro, significa que ∞x + 2 = ∞z; e que ∞z – ∞x = 2 (não é difícil entender, só olhar com atenção ;) ).

A ideia acima é bonita, mas difícil (senão impossível) de tornar praticável – sobretudo porque não temos um meio de expressar uma quantidade infinita específica, do mesmo modo que fazemos com quantidades finitas. Sabemos que finitoA + 1 = finitoB, mas também podemos “abrir a caixa” e ver que finitoA vale talvez exatamente 97, portanto finitoB valerá 98. E isso é matemática de verdade, aplicável. Não podemos, contudo, “abrir a caixa” de valores infinitos e dizer que ∞x vale exatamente 34871263[infinitos-n-dígitos]812, portanto ∞y vale 34871263[infinitos-n-dígitos]813. Ficamos limitados a falar vagamente. Até que surja uma ideia genial, ao menos.

Mas quer eu esteja certo, quer esteja certa a matemática moderna, nem todos os infinitos são iguais.

Isso foi pra aquecer. V Encontro Intelectual (V EI) me aguarde.

Consolo: House é como Rambo

janeiro 8, 2011

Não deixa de ser frustrante, e fonte de inveja, ver a enorme capacidade intelectual de nosso amigo amoral e ateu Gregory House. Suas tiradas geniais são ininterruptas. Jamais se constrange. Está sempre um passo à frente dos outros. Mesmo quando recebe um argumento ou provocação a altura, vira a mesa em segundos – na pior das hipóteses, perde com incrível estilo. Um ícone ambulante da razão encarnada, no seu melhor!

Fato: qualquer pensador adoraria ser como House, em intensidade, profundidade e velocidade. Na prática, nos sentimos muito aquém do potencial de uma situação – afinal, lá está House nos mostrando tudo o que é possível fazer!

Ah, os heróis da TV! Já me servia de consolo que mesmo House, no contexto da série, vivia constantemente dopado intelectualmente. Vicodin. Dava vontade de pensar: “assim até eu!”. Ainda tomo isso um dia, hehehe. Mas o buraco é (obvia e felizmente, para nós invejosos) mais embaixo…

Sabe aquela cena em que Rambo se joga de um helicóptero, sai resvalando em vários galhos das árvores, cai no chão e sai correndo, em fuga espetacular? Dá vontade de malhar 7 horas por dia vendo aquilo! O engraçado, descobri há uns meses ouvindo um nerdcast (recomendo todos eles), é que Sylvester Stallone fazia questão de dispensar dublês nas tomadas! O resultado hilário é que, pulando de míseros três metros de altura em cima de um colchão (!), ao gravar uma pequena parte do longo salto do helicóptero (feita em vários cortes, é claro), ele quebrou duas ou três costelas!

Esse é o exemplo mais forte de discrepância entre ficção e realidade que conheço. Mas House é outro! Simplesmente há quatro médicos que dedicam longo tempo de suas vidas a ajudar os roteiristas do seriado – de modo que o Dr. House pensa com quatro cérebros médicos (fora os dos argumentistas!) e em velocidade hiper-acelerada!

Feitas as contas, acho que já posso dormir tranquilo. :)

(Vai um vicodin?)

2011 & Suástica Azul

janeiro 6, 2011

A última atualização do Suástica Azul foi em abril. Há quase um ano. Ainda por cima, era um texto de 2005 “recauchutado”, sobre o livro bobinho O Mundo de Sofia. De lá pra cá, estudei muita matemática, pra descobrir que o topo dessa montanha é muito, muito alto (mas é fato: vou continuar escalando!), enquanto continuei dando umas olhadelas em filosofia da mente.

Até tive textos, esboços e ideias para atualizar o site. Mas esperei, os guardei. Por quê? Porque quero mudar o site, começar do zero. Outro nome, pois isso de “suástica” já cumpriu sua função – na época em que eu queria menos ser muito lido, e mais afastar os moralistas. Outro endereço. Outro visual. Mais facilidade de uso e de atualização – talvez eu pague alguém pra isso. Sem dúvida, um site onde seja possível a todos comentar logo abaixo das matérias. Percebi isso quando do final de Lost – quase resolvi publicar o texto lá, mas acabei o publicando aqui no blog. Resultado? Quase 300 comentários. Então percebi que eu estava perdendo muita coisa, num site onde é impossível comentar os textos.

Pagarei um preço: novo nome, novo endereço, o hype já conquistado vai todo embora.

Quando farei? Não sei. Gostaria em breve, já em fevereiro. Mas sinto estar muito ocupado. Não me surpreenderia se só rolasse de verdade em 2012! Veremos…

Os Últimos Filmes

dezembro 30, 2010

Um amigo meu tinha muitos filmes estocados sobrando. Peguei um monte emprestado e os saí assistindo. Ainda faltam alguns. Comentarei os que vi, brevemente:

Persépolis - A princípio, não dá coragem. Um desenho preto-e-branco sobre uma menina vivendo sob a ditadura do Irã nos anos 70. Eu sabia que, para muitos, se tratava de um “mini-clássico moderno”. Não é pra tanto, mas é surpreendentemente uma obra linda. A força do visual é incrível. A narrativa, cativante. Acima de tudo, a criatividade impressiona demais, numa obra que tinha tudo pra ser sisuda e burocrática. Consegue funcionar muito bem como comédia suave, inclusive. Além disso, é historicamente correta – de fato, baseada em obra auto-biográfica. Mas gostei principalmente do conteúdo: uma menina idealista em meio ao extremismo religioso só podia me fascinar. A cena de “alta subversão” do mercado negro é genial, e um exemplo de como é óbvio que a cultura ocidental não precisa impor nada – quem está de fora também acha óbvio que liberdade e diversão é melhor do que dogmatismo e razinzice devotada. (“Eurocentrismo”? Aff, não enche.) Nota 8.

Apocalypto - De grudar na poltrona! Apesar de não ser historicamente correto “à risca”, fazendo uma espécie de medley implausível dos aspectos mais empolgantes da cultura maia, a primeira metade do filme é deliciosamente realista. Veja: eu quase sempre odeio filmes de época, porque de algum modo as “pessoas de culturas passadas” são retratadas como alienígenas afetados, cheios de uma pompa estranha; aqui, ao contrário, os personagens são plenamente humanos. Acreditei em cada reação e situação. E é tudo fortíssimo e angustiante, até a segunda metade do filme. Aí vira Rambo, total. Mas isso não é ruim, porque o filme realmente decola, fica incrivelmente emocionante. O único problema é que, quanto mais empolgante, mais implausível. Isso pode irritar. Mas antes isso do que tédio. Quer se divertir sem riscos? Esse é tiro certo. Nota 7,5.

Encontros e Desencontros - Há tempos escuto falar desse tocante filme onde Bill Murray e uma linda jovem vivem um “quase-romance” extremamente cativante. Mas algo me dizia que eu não ia gostar muito. E de fato: o filme é bobinho. Uma espécie de “Antes do Amanhecer sem assunto”. A moça do filme é filósofa e, no entanto, não vemos qualquer profundidade nos (poucos) diálogos – vemos, isso sim, ela ouvindo auto-ajuda de quinta. Qualquer afeto bonito e espontâneo que pudesse haver entre os dois (afinal, a razão de ser do filme é essa), pra mim, entrou em extremas dificuldades já quando os dois se conhecem: ele comenta de cara que está recebendo 2 milhões pra fazer um propaganda! Simplesmente o cara não é o “simples homem profundo” nem ela tem alguma “sensibilidade especial” de notar quem ele é. Não comprei a ideia. No fim, o último encontro é irritantemente absurdo – já tendo se despedido no hotel, ela sobe e ele pega o táxi; mas lá na frente, do nada, encontra ela andando numa calçada! Apesar disso, algum humor eficaz, algumas cenas bonitinhas, experiência agradável. Nota 6.

O Escafandro e a Borboleta - Esse é o tipo de filme adorado por pseudointelectuais: tecnicamente pedante, chatíssimo, atuado com seriedade mórbida, editado para ser totalmente “artístico” e nada “palatável”. Uma dose, isso sim. Conta a história real de um editor de revista, na França, que sofreu um derrame e passou o resto da vida só podendo piscar um olho. Espere encarar várias cenas em que alguém recita o alfabeto e o sujeito pisca sempre que chega a letra que ele quer… Zzzzz… Ele escreve um livro inteiro assim, aliás. Eu entendo quem gosta: num belo dia de muita paciência e no estado de espírito certo, o filme pode funcionar lindamente. Mas a verdade simples é que o filme poderia ser muito mais agradável, interessante, marcante, se não fosse tão pretensioso em seus excessos técnicos, em seu se arrastar em “arcos artísticos”. E, claro, se tivesse mais conteúdo real, em vez de tanto blá, blá, blá óbvio e empolado na voz interior do protagonista. Mas uma vez passado o sufoco de ver o filme, então o já tê-lo visto se torna uma coisa boa. Não deixa de ser marcante ter estado, por algumas horas, na situação de horror de um homem preso em seus próprios pensamentos. Mas prepare-se para muito tédio. Nota 5.

Speed Racer - Esse é pra ver depois do filme acima (infelizmente, não o fiz), pois é meramente um filme leve, animado, empolgante, divertido. E despretensioso. Funciona, e isso basta. A única coisa que me incomodou um pouco foi o excesso no visual psicodélico. De resto, um filme sobre corridas (todas muito boas e empolgantes) e sobre idealismo individual versus ganância das grandes corporações, com um desfecho bobinho e bonitinho, bem a cara hipócrita da Disney – quem te viu, quem te vê, irmãos Wachowski! Nota 7.

Toy Story 3 - Revi. Magnífico, profundo, eletrizante, criativo, engraçado, tocante. Perfeito. O melhor da Pixar até hoje. Nota 10.

Oldboy - Não foi dessa vez que algo oriental me agradou. Um sujeito é preso num quarto por 15 anos, sem motivo aparente. Ao finalmente sair, busca vingança. De repente, se vê no centro de uma espécie de jogo, criado pela pessoa que o prendeu aquele tempo todo. Talvez o filme melhorasse bastante se as últimas três frases viessem escritas na primeira cena, pois é uma tortura (que dura uma chatíssima hora e meia) entender o que está acontecendo. Pois toda a edição do filme é irritantemente confusa, de tal modo que não ficamos curiosos, e sim mareados com tanto (aparente) nonsense e pistas vagas. No final, tudo faz sentido e é um alívio. E a reviravolta é realmente chocante, de cair o queixo. Mas eu já estava excessivamente cansado pela enrolação torturante que precedeu o desfecho. Não compensou. Nota 5,5.

Zodíaco - Esse é o nome do assassino serial que move a trama do filme. História real. Caso até hoje em aberto, diga-se. O que eu não sabia era que David Fincher (Seven, Clube da Luta, O Quarto do Pânico, Alien 3) era capaz de fazer um filme chato! Ele meramente conta, em detalhe, a longa história de investigação que rondou esse assassino. Mas é sem tensão ou empolgação. Uma mera história, sem graça. Com O Escafandro e a Borboleta e Oldboy, este é o terceiro filme que Pablo Villaça, o melhor crítico de cinema no meu conceito, adorou e deu nota máxima, enquanto eu achei um gerador de bocejos. Nota 6.

As Férias de Mr. Bean - Começa até bem. Mr. Bean funciona fácil, não? Infelizmente, é muito cedo que o “estilo Mr. Bean” de comédia abandona o filme, trocado por uma tentativa de humor pastelão. Terrível. O final, então, é constrangedor. Só ponto para a piada geral do cinema, que brinca justamente com filmes pedantes e chatos (acabei de falar de três deles). Nota 3.

Simpsons – O Filme - Bem bom, mas pouco melhor que os bons episódios. Esperava mais. O tema do ambientalismo foi muito bem tratado – eu não achava ser possível fazer humor eficaz com algo tão tedioso. Eles souberam ser tão politicamente incorretos quanto possível, em tiradas magníficas. Fato é que morri de rir algumas vezes. Só o arco final, que é mais ação, decepciona um pouco. Nota 7,5.

A Grande Família - Bla. Repetem a mesma história três vezes! Só quando Agostinho aparecia, dava um alívio. Mas foram cenas fracas. Como humor, quase constrangedor. Sempre gostei de Os Normais e não tive paciência para A Grande Família. Se era um mau preconceito, esse filme só o piorou. Nota 3,5.

Indecifrável Política

setembro 30, 2010

Sempre interessado pelas grandes questões do Universo e da existência, o que envolve filosofia e ciência acima de tudo, nunca dediquei muito tempo à política. Até aqui, estou mais pra apolítico mesmo. No entanto, adoro debates – como donas de casa gostam de novelas. E embora eu nem mesmo vote, época de eleição sempre me gera interesse. De fato, estou com o link pronto para ver ao vivo o último debate presidencial, na Globo, que começa logo mais (e vai ser um atrativo à parte ver a mediação do sobrenaturalmente elegante William Bonner).

Fato: como homem de ideias, eu acabo me envolvendo com os argumentos e contra-argumentos dos candidatos (e de seus defensores, em fóruns da net) e querendo saber quem tem razão. E o que me parece é que tecer uma opinião racional e honesta é completamente impossível – o que me faz ficar absolutamente chocado com de onde vem tanta convicção de todas as partes discordantes!

Só para exemplificar, vou falar aqui de duas coisinhas, entre as tantas que me chamaram a atenção.

A primeira é a velha controvérsia: a privatização é ótima ou é terrível?

Ao privatizarmos indústrias estatais, estamos perdendo dinheiro e colocando o controle do país nas mãos de lobos capitalistas? Esse é o discurso, grosso modo, de esquerda… de Lula & cia; ou estamos incentivando a concorrência produtiva, desonerando o Estado, melhorando os serviços (a iniciativa privada trabalha de verdade, pois visa o lucro) e permitindo ao Governo se concentrar nas questões que importam? Eis o discurso de direita… PSDB e cia.

Bem, eu não sei a resposta. E isso é de se esperar, claro. Mas o chocante é que os mais preparados economistas parecem também não fazer ideia da resposta… afinal, discordam totalmente entre si!

De todo modo, eis um argumento devastador que li por aí, de um certo Ricardo, discordando do suposto fato de que a privatização devasta a economia do país:

É necessário levar em consideração que a empresa privatizada continua dando receita ao país através dos impostos. Em alguns casos, esses impostos tornam-se muito superiores ao lucro total obtido quando a empresa ainda era estatal, como é o caso da Vale. Em 97, ano que a Vale foi privatizada, seu lucro anual foi de US$ 677 milhões. Em 2008, lucrou US$ 21,75 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 6 bilhões foram pagos de impostos ao governo. Isso é quase 10 vezes mais do que o Brasil ganhava naquela época!

Eu adoraria ver um esquerdista bem informado discordando disto. Um problema é que pode nem ser verdade – e, de fato, é incrível que toda facção política tenha seu próprio conjunto de estatísticas e números pra apresentar! Mas, sendo o acima verdadeiro, é realmente algo que me choca… pois é típico da esquerda afirmar (como se fosse óbvio) que o país perde rios de dinheiro com a privatização.

A segunda coisa é: o país melhorou no governo Lula?

A essa altura, até José Serra parece concordar com isso, embora reivindique que tudo não passou de consequência do governo FHC, este sim excelente, e cuja política econômica Lula prometeu mudar inteira, em campanha, mas que seguiu à risca após eleito – e essa é outra questão onde eu adoraria saber a verdade.

Mas, seja como for, Dilma e Lula repetiram à exaustão, nos últimos anos, a vigorosa queda nos níveis de pobreza do país. E mesmo em debate ninguém questiona os dados.

No entanto, fuçando por aí, dou de cara com isto:

http://www.indexmundi.com/g/g.aspx?v=69&c=br&l=en

É simplesmente uma fonte aparentemente isenta, e que exibe pesquisa sobre vários países, indicando que a porcentagem de pessoas abaixo da linha da pobreza, no Brasil, dobrou entre 2000 e 2009! Saiu de 16% para quase 32%!

De modo que fica completamente impossível saber onde está a verdade.

E algo me diz que eu, em minha curiosidade vaga, já me informei e me interessei bem mais pelos candidatos e pelas questões políticas do que 95% do eleitorado. O que implica que a eleição será decidida de forma pior do que aleatória, isto é, com base meramente em sedução de propaganda (que está na mão dos poderosos… lá em Belém, de onde sou, vi a governadora ser acusada, em debate, de investir 60 milhões em saúde e 70 milhões em propaganda!).

E, aliás, não vamos longe… o Tiririca, com aquela campanha que chega a ser um insulto à mediocridade, está liderando as intenções de votos em geral! Diabos, pessoas morreram por suas crenças políticas, certas ou erradas em defesa do bem estar de todos, e a patuleia assina esse atestado de imbecilidade infinita! É difícil não passar pela cabeça, por um segundo, que o povão bem merece sofrer, putz…

E, pra encerrar minha rara manifestação política, não posso deixar de dizer que é um barato ver o Plínio nos debates, tocando um foda-se pra popularidade, e argumentando de verdade, com vigor e razão… Resultado? Nem 1% dos votos… Ou seja, não dá nem pra reclamar da evidente hipocrisia e demagogia dos demais candidatos, pois é o que funciona (embora Dilma esteja até arriscando perder a eleição, a meu ver, de tão óbvia que é sua forçação pra ser politicamente correta).

Mas ainda sobre o Plínio, suas propostas são bem bizarras. Eu adoraria vê-lo por isso em prática – minha curiosidade é (muito) maior que meus escrúpulos, rs. Aliás, que escrúpulos? Às vezes acho que adoraria ver um meteoro cair no Japão (não em Sorocaba, por favor), só pra ver o mundo mudar… é, vem de infância… eu achava os acidentes de carro emocionantes! Mas divago, rs… Adoraria saber o que aconteceria, de verdade, se Plínio desse o calote na dívida externa e elevasse o salário pra 2 mil!

Segundo o físico David Deutsch, isto vai ocorrer… em alguns universos paralelos… Quem sabe um dia a ciência possa nos mostrar as outras versões… Mas ok, isso sou eu voltando à minha vocação intelectual, que não é a política.

Não ainda, pelo menos. Mas bem que é cativante também. :)

É necessário levar em consideração que a empresa privatizada continua dando receita ao país através dos impostos. Em alguns casos, esses impostos tornam-se muito superiores ao lucro total obtido quando a empresa ainda era estatal, como é o caso da Vale. Em 97, ano que a Vale foi privatizada, seu lucro anual foi de US$ 677 milhões. Em 2008, lucrou US$ 21,75 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 6 bilhões foram pagos de impostos ao governo. Isso é quase 10 vezes mais do que o Brasil ganhava naquela época!

Nietzsche no seu melhor

setembro 18, 2010

Os sentimentos e sua derivação dos preconceitos. “Confie no seu sentimento!” Mas sentimentos não são nada de último, nada de original; por trás deles estão juízos e valorações, que nos são legados na forma de sentimentos (inclinações, aversões). A inspiração nascida de um sentimento é neta de um juízo frequentemente errado! e, de todo modo, não do teu próprio juízo! Confiar no sentimento isto significa obedecer mais ao avô e à avó, e aos avós deles do que aos deuses que se acham em nós: nossa razão e nossa experiência.

Aurora, § 35

Uma Verdade Grandiosa

agosto 20, 2010

Será que a filosofia é estagnante? A ciência parece estar sempre avançando, enquanto a filosofia parece estar sempre perdendo terreno (…). A filosofia parece estar parada, perplexa; mas isto é só porque ela deixa os frutos da vitória para suas filhas, as ciências, enquanto ela própria segue adiante, divinamente descontente, em direção ao incerto e ao inexplorado.

- Will Durant, A História da Filosofia

Suástica Azul – Por que este nome?

julho 21, 2010

Como ando sem tempo para atualizar o site e mesmo postar no blog (aliás, sem tempo para internet em geral), este é um ótimo post para pendurar por um tempo aqui. Repostado de uma pergunta que me fizeram no formspring.me.

O nome “Suástica Azul” é, basicamente, fruto de duas influências marcantes em minha adolescência, e até hoje: Louis Pauwels, no livro O Despertar dos Mágicos, e Carl Sagan, no livro Pálido Ponto Azul.

O “azul” é fácil de explicar: a cor do céu. A cor do planeta. A cor pela qual, segundo Carl Sagan, sentimos afeição natural, graças aos milhões de anos em que nossa espécie evolui sob este céu. A cor que inspira horizontes infinitos. Sobretudo, a cor que desafia nacionalismos. Diz Carl Sagan:

A cor do céu caracteriza o mundo. Joguem-me sobre qualquer planeta do Sistema Solar; sem sentir a gravidade, sem olhar para o solo, somente com uma rápida olhada para o Sol e o céu, acho que posso lhes dizer com bastante acerto onde estou. Esse tom familiar de azul, interrompido aqui e ali por nuvens brancas felpudas, é uma assinatura do nosso mundo. Os franceses têm uma expressão, ‘sacré-bleu!’, que numa tradução aproximada seria “Céus!”. Literalmente, significa “azul sagrado!”. Sem dúvida. Se houver algum dia uma verdadeira bandeira da Terra, essa deverá ser a sua cor.

Quanto à “suástica”, O Despertar dos Mágicos dela diz uma série de coisas que me cativaram:

Na Europa, como na Ásia, a suástica foi sempre considerada um signo mágico. Viram nele o símbolo do Sol, fonte de vida e de fecundidade, ou do trovão, manifestação da cólera divina, que é necessário esconjurar. Ao contrário da cruz, do triângulo, do círculo ou do crescente, a suástica não é um símbolo elementar que possa ter sido inventado e reinventado em qualquer época da humanidade e em todos os pontos do globo com uma simbólica sucessivamente diferente. É o primeiro signo traçado com uma intenção precisa.

Atente sobretudo para a última frase. Ela tira-me o fôlego! Pauwels salienta que o formato da suástica possui design. Ela já é uma versão, em pequena escala, do que ocorre com uma equação matemática, ou com um relógio: é algo que sabemos ser criação deliberada de uma inteligência, e não algo simples e casual. Isto fez com que a suástica simbolizasse, para mim, precisamente a inteligência – e o “ao contrário da cruz” da citação me cativou ainda mais, naquela adolescência ateísta (ainda mais) rebelde.

Ainda há uma segunda passagem no livro, que trata de possíveis significados embutidos na estrutura dos símbolos. “Os símbolos talvez sejam os modelos abstratos, estabelecidos desde as origens da humanidade pensante, a partir dos quais as estruturas profundas do Universo nos poderiam ser sensíveis”. Sim, isto soa insano. É um livro sobre realismo fantástico. Hoje, totalmente cético, eu já me distanciei bastante de tais especulações desvairadas. No entanto, a poesia e o encanto da coisa continuam. Vejamos: após falar sobre Einstein ter desenhado o símbolo γ (triedo) para referir as relações do espaço-tempo, Pauwels especula que então a suástica talvez seja o “modelo” da lei que preside a toda destruição. E, tudo bem… Isto de “destruição” não é um bom cartão de visita para o site. Mas, outra vez, o que me impactou foi mais geral: não importa se a suástica é o modelo da destruição ou se a espiral é o modelo da evolução (como ele também diz); o que importa é a própria ideia cativante de um símbolo, em sua simples estrutura, poder portar significados tão vastos, vinculados à estrutura do Universo, da Realidade. E como era sobretudo da suástica que o autor estava falando, foi ela que me impressionou, dessa vez, como um símbolo da ideia geral de Pauwels, isto é, um símbolo de alguma “das estruturas profundas do Universo” – e também por isso, há coisa de um ano, eu fiz a suástica do site se assemelhar mais a uma galáxia (além do que, espiralada). Fato: a suástica me marcou na leitura desse livro.

Ainda hoje acho tudo isto cativante. Na adolescência, sendo O Despertar dos Mágicos o meu terceiro livro, tudo soava ainda mais romanesco e grandioso.

No fim das contas, “Suástica Azul” era um nome original, com um significado belo e obscuro (pra não dizer oculto), com uma sonoridade bonita e, não menos importante, com o casual ‘extra’ de ter um impacto polêmico e marcante (por conta da óbvia associação sempre feita, da qual estou prestes a falar).

Obviamente acabei de explicar as razões “etimológicas” do nome.

Mas o fato de a suástica ser irracionalmente perseguida pela associação arbitrária com o nazismo, apesar de seus milênios de independência contra meio século de uso político; e apesar de, seja como for, não passar de um símbolo; é, em si mesmo, uma razão extra para eu adotá-la. Sou essencialmente contra o moralismo, mais ou menos como Bertrand Russell e George Orwell também o eram - “ortodoxia é não pensar”. E, portanto, gosto de desafiar aquelas pessoas (moralistas) que são incapazes de olhar para a suástica e dissociá-la do nazismo. Esta incompetência, afinal, é reveladora do tipo de intolerância moralista que eu desprezo – como se fizesse sentido proibir cruzes, por causa da Santa Inquisição; ou proibir pentagramas, por causa da bruxaria. É tudo idiotice, a meu ver. Se uma pessoa tem um mal-estar irracional ao ouvir “Suástica Azul”, mesmo sabendo que isto nada tem a ver com nazismo, então o problema deve ser dela, e não meu.

O enigmático título “Suástica Azul”, portanto, carrega nos horizontes infinitos do azul celeste a ideia de humanismo, de aventura, de liberdade, de busca pelo desconhecido; e carrega na precisão, na estrutura e na casual polêmica da suástica os sinais de inteligência, de vastidão cósmica e de aversão ao dogmatismo. Dogmatismo, aliás, do qual o nazismo foi um dos exemplos mais enojantes – outra das tantas óbvias razões pelas quais, se é que resta dúvida, (é claro que) eu desprezo o nazismo.

Momento Anti-Hitler

julho 4, 2010

“No espaço de poucas semanas, Hitler destruiu a grande tradição matemática de Göttingen construída por Gauss, Riemann, Dirichlet e Hilbert. Alguém comentou que essa havia sido ‘uma das maiores tragédias presenciadas pela cultura humana desde a Renascença’

- Marcus du Sautoy, em A Música dos Números Primos, pg. 169

Taí mais um motivo para pensar em Hitler e só vir à mente a estupidez em seu mais alto grau. Precisamente o espírito religioso, de acreditar nas coisas por mero ‘feeling’, sem evidência nenhuma – e até de desprezar deliberadamente o pensamento racional – e também de se sujeitar a autoridades, é que são característicos por excelência do nazismo.

Preciso mesmo publicar no site, de maneira bem clara, a justificativa do nome, que não tem a ver com nazismo, evidentemente. Mas a lerdeza sempre me impede.

*****

Por falar em site, foi hackeado um dia desses. Por uns minutos (ou talvez horas), exibiu uma bandeira da Arábia Saudita, uma mensagem de Alá e, na cara dura, a frase “Hacked by…” não lembro o fulano. Por sorte (ou distração de Alá, rs), eu loguei quase na mesma hora, percebi, e pude trocar a senha, antes que o hacker o fizesse. Acho mesmo que corri o risco de perder o site!

De Tudo um Pouco…

junho 20, 2010


Depois do enorme sucesso do texto O Fim de Lost, abaixo, meu recorde absoluto na internet, dei mais uma parada com o blog e o site. Sim, eles andam beeeeem mais devagar do que eu gostaria. Pelo menos, agora isto tem sido inevitável e por bons motivos. Houve tempo em que era por pura e vagabunda preguiça mesmo, rs.

1) Estou acompanhando a Copa do Mundo de perto. Isso eu faço. De 4 em 4 anos. Por quê? Dá um prazer enorme, eu sou hedonista, então fecha. Hoje, por exemplo, fiquei frustrado com a Costa do Marfim, que jogou também seus 4 jogos em Copa do Mundo e, hoje, se limitou a ficar com medo do Brasil e partir pra violência. Não queria que o Brasil perdesse, mas um empate ou uma vitória por um gol (saldo) ia bem. Quero a Côte d’Ivoire nas oitavas!

2) Estou lendo A Solução de Poincaré, livro de Donald O’Shea, basicamente sobre a matemática das dimensões. De palpitar! O livro se diz pra leigos, mas está no limite da minha atual competência matemática, que não é tão pouca assim. Estou feliz porque ele aprofunda questões que A Janela de Euclides, de Leonard Mlodinow, só aludiu, me deixando com água na boca. E só aumenta minha sensação de que a interpretação padrão dos grandes resultados matemáticos é errada. Pra ficar num exemplo: retas (euclidianas) e geodésicas simplesmente não são a mesma coisa, e não deixa de ser filosoficamente confuso misturar os nomes delas nas geometrias não-euclidianas, chamando tudo de “reta” e parecendo dizer algo espetacular: que há triângulos (três lados retos) com mais de 180º internos. Desconfio que há uma faxina conceitual a se fazer na matemática.

3) Também andei meio professor Ludovico, andando pra lá e pra cá, com especulações insanas sobre a natureza do Infinito matemático. Tive uns debates no orkut e descobri que minha ideia geral não era, afinal, confusão de um leigo. Há realmente matemáticos respeitados que a defendem. Além disso, achei até um caminho – quão irrelevante eu não sei, rs – para se evitar a bizarra prova diagonal de Cantor. Na pior das hipóteses, tudo isso me deixou com uma vontade triplicada de estudar a coisa. Fabuloso, pois. E o que nos leva ao ponto 4.

4) Espero conseguir turbinar meu intelecto seguindo a dica da Superinteressante (uma certa capa do ano passado). A coisa é meio cara, mas vale à pena. Tomara que dê certo. Desejo ser um rolo compressor sobre os livros de Cálculo.

5) Assisti a uns filmes recentemente (depois de Lost, um tempo em seriados, please).

a) Jogos Mortais VI: depois de um primeiro filme genial, uma continuação já meio fraca e mais três capítulos (III, IV e V) decididamente rasteiros (mas ainda legaizinhos pra quem gosta da coisa), este sexto filme é até um pequeno avanço. Três qualidades: o mais violento; o mais mitológico; o mais “Jigsaw é o cara” desde o capítulo II. Gostei.

b) Toy Story 3: meu primeiro filme em 3D. Uma estreia arrebatadora! Nota 10! Já amava os filmes anteriores, mas este superou até Monstros S. A. que, até então, era meu preferido da Pixar. E isto porque a consciência emocional da história aqui é cativante até não poder mais. Uma ode, belíssima!, à amizade e ao amor incondicional. E ainda temos ação e humor (inteligente e pastelão) de primeiríssima categoria.

c) [REC]²: o primeiro filme é fabuloso, dos que mais me assustou (e isso é incrivelmente difícil). Este segundo é puro lixo, e foi frustrante apesar de eu já saber que seria fraco e não pretender mais do que me distrair com ele. Poucos filmes merecem essa recomendação: não veja, em qualquer hipótese. Ele nem é daquele filme que, de tão ruim, se torna interessante pelas falhas absurdas. É só um tédio neutro mesmo.

d) A Fantástica Fábrica de Chocolates (1971): Certos filmes talvez não devam ser revistos. Vi este uma dúzia de vezes em minha infância e adolescência e, até ontem, o tinha como uma obra-prima. Foi dolorido ver que, com meus olhos adultos e críticos de hoje, o filme se esfacelou. Mal interpretado (exceto por Gene Wilder, que ainda é algo que vale a pena ver). Constrangedor em suas bobices visuais, musicais, morais, criativas, etc. Um dia ainda vou revê-lo, outra vez, pra ver se não estava só num mau dia. Já ocorreu com Indiana Jones e a Última Cruzada, que é sim fabuloso.

6) Filmes que me esperam em breve: Cidadão Kane (estou receoso do tédio, rs); Mississipi em Chamas (deve ser ótimo, eu sei… mas também tô enrolando); Creation (o filme de Darwin não chega a me empolgar, mas soa atrativo – o trailler foi dos melhores que vi); O Golpista do Ano (Jim Carrey nunca mais foi genial, mas é sempre imperdível).

7) Livros que me esperam: Gödel, Escher, Bach, Douglas Hofstadter (antes de julho, juro!); A Música dos Números Primos (nem lembro o autor, mas completa meu ciclo preparativo para imergir em matemática de vez).

8 ) Quero concluir, antes da Copa terminar, um blog com os retalhos de tudo que anoto. Muito difícil, mas vou tentar.

9) Acabei de ouvir o novo disco do Capital Inicial, Das Kapital. Medíocre é elogio. Só não é pior do que o Sacos Plásticos dos Titãs, que chega a ser ofensivo de tão ruim. E eu adoro muita coisa de Capital Inicial (sobretudo o Atrás dos Olhos, de 1999). Bem: a tal “música de trabalho”, Depois da Meia Noite, é apenas Capital Genérico, sem qualquer inspiração nova, e faz ter saudades de músicas já nem tão boas como Tudo Que Vai… A única música que me agradou foi Como Se Sente, e olhe lá. Quase esquecível. Por que, oh céus, as bandas de música só despencam em qualidade?

Deixa eu voltar pro A Solução de Poincaré agora.

O Fim de Lost

maio 26, 2010

Lost S06E17 e S06E18 – The End
A voz dos descontentes…

Alerta vermelho: este texto é somente para aqueles que assistiram todo o seriado de Lost, até o último episódio.

[ Extra: o blog Desvendando Lost, da Fernanda Gomes, quer começar o trabalho de amarrar as pontas soltas, se isso for possível. Começa com uma lista de perguntas sem resposta. Quem quiser contribuir, com soluções ou mais furos da série, vá lá. ]

Eu, como Nemesis da série que amo… Criticar negativamente o Series Finale de Lost, um episódio feito sob medida para agradar, emocionar e encantar, não é uma tarefa fácil. Mas a legião de descontentes tem muita razão, e eu queria – dentro de minhas possibilidades – dar-lhes voz com essa crítica (fato é que os principais veículos, como Dude We Are Lost!, Teorias Lost, Lost in Lost, foram completamente elogiosos, e até o Defenda a Ilha da sempre científica KA, foi bem mais elogioso do que seria de se supor.  Isto não reflete a ferrenha divisão entre os fãs. Está faltando um ponderado contraponto. Deixem-me tentar).

Uma vez que decidiram pelo (direi por que foi) péssimo caminho de mostrar o pós-morte dos Oceanic 815 & cia., não se pode negar que capricharam na ideia. Quem já simpatiza com isso e não está muito preocupado com a complexidade da trama deve mesmo ter se deleitado de cara com o episódio. Pessoalmente, só na segunda vez que vi, já conformado e preparado, pude apreciar o capricho da revelação do Limbo – o quão foi gradual, cheia de pistas elegantes, minuciosamente interpretada, pontuada por ápices emocionais, seja em diversas relações de amor (confesso que desejei dizer que ficou piegas… e não ficou… eles souberam fazer), seja com Locke e Ben, Hurley e Charlie, Jack e Christian. E ainda o final clássico, emblemático, com Jack fechando os olhos – tão espetacular a ponto de chegar, às vezes, a me distrair da dolorosa decepção. São todos grandes momentos de Lost, dignos de um Series Finale. Pesam contra todo esse deleite a forçação dos encontros na pressa do episódio, o nonsense da maneira como as lembranças são despertadas e, acima de tudo, a novidade posta goela abaixo de uma realidade espiritual pós-morte, ainda por cima no formato insosso de um clichê religioso e puritano.

Lost não é isso (assim como Star Wars, Arquivo X e De Volta Para o Futuro não são isso), e concluir a série assim é alta traição, tanto quanto seria se ocorresse com as citadas obras – todas também angariaram fãs, lealdade, paixão e altas expectativas, com a diferença de que respeitaram tais expectativas (malgrado Arquivo X tenha se perdido em má qualidade, não largou sua essência nunca, e agora vejo o quanto isto foi melhor do que o ocorrido com Lost).

Além disso, não é como se, em momentos cruciais, não tivéssemos falas a bem pensar terríveis, que não enganam, como a justificativa do encontro no limbo: “estamos aqui para lembrar… e para esquecer”. Não dá. Doeu no cérebro [Juliana, nos comentários, me corrigiu aqui - o original "let go" tem a tradução bem melhor (no contexto) de "desapegar", o que faz sentido. # v. comentario #]. Mas eu disse “falas”, no plural, por ter em mente uma segunda, que não citei. Era Jack dizendo para (F)Locke, em pleno encontro histórico, basicamente isto: “não posso detê-lo (…) vou matá-lo”. Entendo quem gostou. Sem concordar, entendo até quem apenas gostou e não viu problema algum. Mas acho que estão, acima de tudo, cegos para o fato de que toda essa poderosa sedução emocional está longe de superar toda a tragédia de roteiro deste The End, tragédia herdada pela temporada e pelo seriado inteiro.

A essência da série – sim, os enigmas – foi abandonada. Agora, quando eu ver alguém que, como eu, assiste o Piloto e fica pungentemente intrigado, fascinado, tomado pelo mistério da criatura oculta que derruba árvores e tem som mecânico, só me virá a tristeza de saber que a pessoa está sendo ludibriada. Que aquilo não é um mistério (que pressupõe resposta), mas sim apenas mera bullshit, mera enrolação sem fundamento.

Queria dizimar, de uma vez por todas, o argumento auto-enganador, a falsa consciência, de que “tudo bem Lost deixar os mistérios pra lá, porque a série é sobre personagens, não sobre mistérios”.

Todos os outros seriados têm personagens, mas só Lost justificou uma Lostpedia, que é uma enciclopédia investigativa tentando juntar todas as pistas. As comunidades estão abarrotadas de tópicos e teorias sobre enigmas, e não de comentários profundos sobre a natureza do amor ou da culpa (o que você encontraria numa comunidade de Brothers & Sisters, não em Lost). O que moveu Lost e seus fãs foi a investigação, a especulação. Se trocassem todos os personagens por outros, com vidas diferentes, mas deixassem a Ilha, a Black Smoke e a Dharma lá, Lost ainda seria Lost. Mas se tirassem todos os enigmas e só deixassem Jack, Kate & cia. na Ilha, Lost seria apenas uma versão tediosa de O Náufrago, que talvez nem passasse do episódio piloto.

Muitos, aliás, caíram na conversa fiada dos produtores. Como diz Guilherme Araújo, ao comentar o excelente artigo de Alexandre Versignassi (editor da revista Superinteressante) sobre o fim de Lost:

“Ao perceber que não conseguiriam dar conta, começou uma campanha ridícula, no início da 6ª temporada, protagonizada por produtores, roteristas e atores, que passaram a dar centenas de entrevistas (muito bem ensaiadas, diga-se de passagem) com a mesma frase: ‘A série é sobre os personagens e não sobre os mistérios em si’.”

Fato. E o passado condena os responsáveis por Lost:

Revista Veja: Muitos fão reclamam que Lost ficou mirabolante. O que está ocorrendo?

J. J. Abrams: Vou lhe dizer o que ocorre: esse pessoal não é nerd o suficiente. Nunca perdemos o controle. Ao fim da trama, todas as pontas se ligarão.

Chocante, não? Espero que isto cale os maníacos por repetir: “é uma série sobre personagens” (como se alguma série não fosse). Ainda este exemplo amargo, em palavras de Michael Emerson, intérprete de Ben: “a Ilha opera por um mecanismo científico, não algo místico ou espiritual”.

Então, Lost é sim uma série sobre enigmas. Melhor: é A Série sobre enigmas. E o que fez foi jogá-los no lixo e nos dizer: “esqueçam tudo e olhem pra cá: vejam os personagens no céu, comovam-se, fiquem anestesiados”. Para aqueles, como eu, em quem a anestesia não teve efeito, tem sido muito difícil suportar a dor e, pior, os (supostos?) fãs de Lost não só aceitando essa destruição dos rumos da série como, também, gostando dela.

Tudo isto dito, vamos aos fatos. Aos terríveis fatos.

Falarei primeiro do Limbo. Depois dos eventos da Ilha. Por fim, de como ficou a Mitologia de Lost.

O LIMBO

A primeira coisa a se esclarecer é que o Limbo pós-morte, essa novidade surgida nos últimos minutos do seriado (ou na 6ª temporada inteira, em retrospectiva), não tem nada a ver nem com a história pregressa dos personagens, nem com a mitologia da série e nem com qualquer evento específico visto ao longo de seis temporadas. É uma inclusão gratuita à trama de Lost. E ela é exatamente tão inadequada quanto seria, se surgisse fosse no final de O Poderoso Chefão, Star Wars, Homem-Aranha, O Senhor dos Anéis, Prison Break ou qualquer outra obra não relacionada à vida após a morte.

Como tal, o Limbo não faz absolutamente nada pela trama do seriado. Como um desfecho para a série, portanto, é absurdo. No que importa pra trama de Lost, sabemos apenas que a Black Smoke foi destruída (de um modo tão absurdo como surgiu), sabemos quem morreu, quem ficou e quem saiu da Ilha. Não ficamos sabendo mais nada, por incrível que pareça.

Agora, claro, há uma sensação de “wow, que genial!” no ar. Numa espécie de paródia pobre do fim da 3ª temporada, agora vemos que a história que assistíamos é outra coisa. E isto explica por que Desmond podia atropelar Locke sem problemas (já estavam mortos afinal), por que Ana Lucia ‘não está pronta’ (ainda corrupta), etc. Genial? Longe disso. Afinal, Keamy e Bakunin morrem – em plena vida após a morte! De Ana Lucia e outros problemas, falarei mais adiante.

Ficou a sensação terrível de que nem mesmo a ideia do Limbo foi proposital, mas mero improviso desesperado dos responsáveis por Lost que, ainda nessa temporada, puseram na boca de Faraday praticamente uma prova de que a “realidade paralela” foi causada pela explosão da bomba – se não foi, por que diabos ele teria aquele flash-sideway (que no caso seria falso), com aquelas equações? O que as equações mostram, bem entendido, é que uma explosão criou uma realidade paralela. Oras, acho que nem o fã mais estúpido de Lost está disposto a aceitar que uma realidade espiritual surgiu graças à explosão de uma bomba.

Um detalhe interessante, sobre a bomba ter mesmo gerado a realidade paralela/Limbo, é Juliet. No início da sexta temporada temos um festival de ambiguidades. Por um lado, Juliet está tendo flashes do momento em que encontra Sawyer no Limbo (o que faz sentido porque, como Desmond, ela foi exposta ao eletromagnetismo): “precisamos tomar um café”, “vamos dividir”, “beije-me”, “funcionou” (sobre a máquina de chocolates).

Por outro, Juliet está falando sobre a bomba: “Não deu certo. A bomba não funcionou”, “Preciso te dizer algo muito, muito importante…” (Miles completa –>) “funcionou”. Não dá pra dizer que é “muito, muito importante…” que a máquina de chocolates tenha funcionado. Juliet está dizendo que a bomba funcionou, então? Nem uma coisa, nem outra. Esses roteiristas foram muito ‘espertinhos’ (no mau sentido) nessa.

Não bastasse o Limbo ser algo posto lá à-toa, e que contradiz Faraday (e talvez Juliet), ainda é um mar de incoerências internas  e nonsenses. Oras, aquele é um lugar onde estão pessoas que já morreram. Por que só eventos relacionados à Ilha e ao Oceanic 815 despertam lembranças? O Limbo só existe para os Losties? Como Aaron nasce naquele lugar? Como Bakunin e Keamy morrem naquele lugar? Eles vão pra um “meta-limbo”?! E se os mortos vão para o Limbo e demoram pra lembrar da vida real, isso complica todas as aparições de espíritos 1) de pessoas fora da ilha, como Eko e Charlie; e 2) de pessoas na ilha, que nunca estiveram lá, como a mulher de Alpert ou o amigo de Hurley – já espíritos como o de Michael são ‘explicados’ por ficarem presos ali.

Para tapar esses furos, alguns levaram Locke a sério e acham que o filho de Jack não existe, portanto Aaron não existe. Então o Limbo seria um lugar mais estranho ainda: espécie de ‘simulação espiritual’ dos losties escolhidos, vivendo uma vida fake ideal, antes de serem ‘purgados’ e irem pro paraíso. E, no caso, só os losties existem. Mas como isso é? Keamy e Bakunin não existem? Penny, que nunca esteve na Ilha, não existe? Nádia existia? Ethan existia? Cadê Walt? E se é tudo simulação-para-os-losties, por que há uma ilha afundada no oceano, incluindo tubarão com logo Dharma, que ninguém ali jamais viu ou sabe que existe? Outra vez, só os losties estão no Limbo? Por quê? O que o vôo 815 tem de especial, a não ser para o público que assiste? E se Aaron não existe, lá estão Charlie, Claire e Shannon, às portas do paraíso, numa cena patética sorrindo para um boneco.

Também sem sentido é o padrão de qualidade moral do Limbo: enquanto Michael ficou preso na ilha, sussurando (¬¬), porque matou no impulso para salvar o filho, e Ana Lucia ‘não está pronta por ser corrupta’, Sayid torturou e matou dezenas a sangue frio mas ‘tem coração bom’ e está lá na festinha celeste. E não diga que ele se redimiu ao se matar, porque Michael fez o mesmo. Pior foi ver Sayid com Shannon, quando claramente seu grande amor é Nádia. Essa foi uma escrotização no talo.

Nem tente encontrar sentido. Nada fecha. Foi tudo jogado à-toa.

Cenas bonitas à parte que nos proporcionou, o Limbo é uma patacoada imperdoável, de cabo a rabo. Se isto, por si, não faz do Series Finale algo ruim, não sei o que faria um fã desgostar. Mas tem mais.

A ILHA

Os acontecimentos da Ilha, neste Series Finale, tiveram idiotice além da conta. Por exemplo, Lapidus ter sobrevivido era impossível. Ele tinha desmaiado, e nem respirador sobrou pra ele. Além do mais, ele já havia dito que o avião não poderia decolar, na situação e posição em que estava. Tudo isso foi doendo ao longo do episódio. Como ver Ben ser reduzido a imbecil quando diz: “quando disse que destruiria a ilha, achei que fosse metaforicamente”. Como se (F)Locke não tivesse sido claríssimo e direto. E como não bastasse a desculpa ultra-esfarrapada do episódio anterior: “descobri que era a fumaça quem me convocava”, que foi de lascar (claramente um improviso, e fraco, para amarrar a incoerência). Ainda assim, dá pra dizer que são detalhes. Só que, sendo todo o resto pior, esses detalhes incomodam muito mais.

Dá pra acreditar que (F)Locke, depois de 2 mil anos tentando, não vence por pura burrice?

E que Jack morre completamente à-toa?

Pois é. (F)Locke só não venceu porque não quis! Porque, em vez de matar Jack quando teve a chance, saiu andando… abÇurdo! Ou nem matasse Jack, mas ao menos cortasse a corda… ¬¬ Ainda por cima deixou uma arma com Sawyer, estupidamente, e por isso morreu. Os losties deram apenas sorte de encarar um vilão tão burro. Tudo isso é ruim demais pra ser relevado. Não são pequenas mancadas. As questões mais importantes do seriado, como quem vence uma batalha de 2 mil anos, são decididas por pura avacalhação. O que deveria ser épico se torna patético. Você não quer ver Darth Vader perdendo a luta porque escorregou numa casca de banana. É imperdoável.

Quanto a Jack, Desmond poderia pôr a rolha de volta, sem morrer, do mesmo modo que a tirou. Jack, ao contrário, faz questão de tirar a rolha, sem razão alguma pra isso, e morre de graça. “Você morreu por nada”. (F)Locke tinha razão, afinal.

A MITOLOGIA

Superficialmente, e fazendo muita força, a trama da ilha até que fechou. Em que pé ficamos?

Uma antiga inteligência, da qual nunca saberemos a origem, colocou na Ilha uma estrutura eletromagnética e/ou vital. E é de presumir que usaram algum truque ou encanto espaço-temporal, para só permitir ao guardião acessar sua Fonte de Luz. Sabemos que é uma inteligência, e não um fenômeno natural ou espontâneo, porque o interior da Caverna de Luz possui escadas, mecanismo e uma rolha com inscrições. E creio estar claro que não foi a mãe adotiva de Jacob quem construiu aquilo. Aliás, se a estrutura é tecnológica ou mágica, ou ambos, isso fica propositalmente em aberto.

Essa estrutura, ao que tudo indica, é a causa da vida existir na Terra. Presumivelmente, há centenas de milhares de anos tal Caverna de Luz vem sendo alvo de um revezamento de guardiões, num processo sem fim. Um destes guardiões é a mãe adotiva de Jacob e seu irmão. Ao que sabemos, ela é apenas uma entre tantas, como Jacob e Hurley a seguir. Presumivelmente não foi a primeira. Ela não é especial.

Contudo, algo especial ocorre – e nossa história começa aí – quando o irmão de Jacob se torna (graças à Luz) a Black Smoke e, assim, ameaça de modo bem mais concreto a Caverna de Luz. E o clímax desta história são exatamente os eventos que a série apresenta, eventos causados pelo fato de Jacob estar reagindo à Black Smoke. Ela, afinal, está o mais próxima possível de matá-lo e de destruir a Ilha. Agora, se a fonte é destruída, toda a vida morre. Felizmente, Jack consegue deter a Black Smoke. E Hurley o sucede, numa era mais pacífica. E este é o final feliz da história.

Isto é o pouco que temos (se é que temos). Agora o muito que não temos.

Histórias centrais à série, como a da Dharma, DeGroots e Alvar Hanso, tiveram um desfecho apenas vagamente dedutível (temos que supor que a comida Dharma que chegava para os losties viajava no tempo e que toda a Dharma morreu na Ilha, não sobrando ninguém lá fora; e temos que nos conformar com não sabermos o que a Dharma fazia, a não ser que eram “experiências malucas”). Concedo, porém, que deram uma elegante ‘palha’ sobre a Dharma ao nos mostrar os antigos romanos como “homens curiosos”. Eles foram a ‘primeira Dharma’, digamos. E, do mesmo modo, foram erradicados da Ilha, pois a Fonte não deve ser ameaçada com abordagem científica.

Enigmas colossais como a natureza da Black Smoke ou a origem da Estátua foram só vagamente aludidos. Todo o movimento dos Outros, associado a Jacob, é deixado pra trás de forma totalmente confusa, incoerente, esburacada (por que eles eram hostis com os Oceanic 815, se o próprio Jacob os trouxe? – deixaram Charlie, que era candidato, claramente para morrer enforcado. Por que faziam as maluquices que faziam?). Mistérios cruciais como a bilocação de Walt, a verdade sobre os bad numbers, a importância de Aaron, as poderosas “regras” entre Jacob e seu irmão e entre Ben e Widmore, as capacidades de Miles e Hurley, a imortalidade de Jacob e de Richard, foram simplesmente esquecidos, porcamente mencionados ou, pior, contraditos. Sem contar uma série de enigmas menores, cujas respostas supostamente podem ser deduzidas, mas a bem pensar nenhuma explicação soa plausível (por exemplo, o fato de Michael não conseguir se matar – porque ele era candidato? Então por que Charlie e Sayid conseguem?).

Mesmo esquecendo tudo isso, a história que efetivamente nos contaram não ajuda. Até na mais alta das panorâmicas, a coisa é insuportavelmente mal feita. Por exemplo, nos disseram que a única maneira de a Black Smoke sair da Ilha, ou destruí-la, é manipulando outras pessoas para fazer o seu serviço indiretamente. O que Jacob faz, então? Traz centenas de pessoas à Ilha. Bastaria não trazer nenhuma! E como cada um é mais burro que o outro, a Black Smoke demora 2 mil anos para conseguir fazer alguém ir lá matar Jacob (mesmo podendo ameaçar de morte várias pessoas, e se passar por entes queridos delas – mesmo podendo transformar as pessoas em marionetes infectadas!). Pra piorar, ora Jacob reage, capotando no soco pra cima de Alpert, ora simplesmente se deixa matar por Ben, praticamente entregando o ouro. Não faz nenhum sentido.

Sobre as “regras”, que moveram a trama de Lost por três temporadas, justificaram assassinatos, riscos de vida, suspensão de vingança e, acima de tudo, justificaram o fato inexplicável de a Black Smoke não poder simplesmente ir pra cima de Jacob ou, ao menos, dos candidatos – bem como o fato anedótico de que (pelo menos) Alpert não pode causar a própria morte – na-da-foi-ex-pli-ca-do. As regras são claramente malucas. Por que Alpert não pode se suicidar, mas pode morrer pelas mãos de outra pessoa (e que imortalidade inútil era essa, portanto?)?

Por exemplo, ficou sugerido que os candidatos não podem morrer causando a própria morte (pelo menos, com Jack acendendo a dinamite, no Black Rock). Ao mesmo tempo, foi dito o oposto: que os candidatos podem morrer causando a própria morte (e por isso (F)Locke fez com que eles tentassem desarmar a bomba, no submarino – de fato, Sayid morre assim). Não fosse pela elegância que encobre falhas (o que, sim, é um mérito de Lost), todos veriam que isto ficou tão ruim quanto Heroes.

As regras entre Jacob e (F)Locke parecem mais como leis da física: impossíveis de quebrar. Mas como elas funcionam? Como surgem? Estão associadas a Jacob (como disse seu irmão, ele criaria regras no futuro), ou à Fonte de Luz (não parece, já que Hurley é livre pra fazer as regras que quiser)? Por que Alpert começa a envelhecer após a morte de Jacob e o fim de suas cinzas, mas as outras regras, como (F)Locke não poder atacar os candidatos, se mantêm de pé? Esse deveria ser o coração da trama de Lost, mas é mera arbitrariedade de roteiro.

Já as regras entre Ben e Widmore, aparentemente, são algo como “em respeito a Jacob, não cause mal ao seu camarada-Outro”. Por exemplo, Ben matar o próprio pai, que é da Dharma, é ok. E são regras “quebráveis” (Widmore as quebra com o assassinato de Alex). Isto parece dar o direito de Ben matar a filha de Widmore (olho-por-olho), mas não o próprio Widmore. Ben realmente tem um respeito sagrado por Jacob. Até que perde a fé, mata Jacob e, portanto, manda as regras pro lixo e simplesmente vai lá e atira em Widmore. Parece que fecha. Tudo muito lindo (e eu fiz muita força pra dar coerência a tudo), maaaaas… o fato é que Ben confessou mandar Goodwin para morrer nas mãos de Ana-Lucia, por ciúme de Juliet… ¬¬ Atirou em e depois até matou John Locke (que já era lider dos Outros)!! Sério que, tendo quebrado as regras nesses casos, ele ia respeitá-la justo no caso de Widmore, que matou sua filha?! Very bad… E eu espero que agora esteja mais claro como foi dolorosa essa reta final de Lost.

Outro ponto crucial da mitologia, que foi largado às traças, é a imortalidade. Céus, como Jacob sobreviveu 2 mil anos? Como Alpert passou séculos jovem? Não pode ser simplesmente a Fonte de Vida da Ilha, porque então ninguém envelheceria. Sim, eles nos deram a resposta: basta beber um líquido na presença do guardião da Ilha, e você será imortal enquanto as cinzas deste guardião não forem queimadas.

Ou seja, tudo não passa de uma simpatia de folhetim, de quinta categoria. Que droga, isso era pra ser Lost! Dá pra conceber uma resposta mais sem sentido e estúpida? Já vi pessoas dizerem que ninguém pergunta, em Harry Potter, como eles conseguem fazer mágica. Eles simplesmente fazem. E que então tudo bem Lost fazer o mesmo. Mas é uma péssima analogia, porque até a trama de Harry Potter tem regras internas claras, e até ali seria ridículo se Harry Potter ficasse imortal e invulnerável simplesmente bebendo água! Exigira um encanto fabuloso, algo que nem os maiores mestres da Escola de Magia poderiam fazer. Imortalidade é um conceito poderoso em qualquer ficção, e nem os maiores magos de Harry Potter, nem os maiores Jedi de Star Wars, podem se tornar imortais sem uma explicação muito boa, sem um esforço espetacular. E é isto o que gera drama, claro. O que Lost jogou no lixo de maneira primária, infantil.

NÃO SE FICA IMORTAL E INVULNERÁVEL POR BEBER ÁGUA OU RECITAR VERSINHOS EM LATIM.

Até em Alice no País das Maravilhas isso seria ridículo.

#Ver fãs aceitando isso de boa dá até vergonha alheia, putz.

E por falar em “Fonte da Vida”, esta ideia parece ter o mérito de tornar plausível que, por se aproximar dessa Fonte, as pessoas voltem a ficar saudáveis e sararem rapidamente. Locke andando; Rose sem câncer; etc. Mas por que mulheres grávidas morriam? Por que Ben não se curou sozinho? A luz é moralista e só salva os bons? Então por que salvou Bakunin tantas vezes e deixou de salvar Boone, ou o agente que aprisionava Kate?

Além do mais, supostamente ocorre “algo pior que a morte” com quem entra na Caverna de Luz. E é óbvio que ficar imortal e ganhar poderes fabulosos se tornando a Black Smoke é pior do que a morte… Ãh? Ok, ok, é que perder os sentimentos é que é pior que a morte (mas se a Black Smoke não tem sentimentos, não pode ser má… Ôõ… Tá, abstrai.). No entanto Jack entra lá e morre! “Ah, mas Desmond tinha desligado a Luz, então ok”. É, mas Jack volta lá dentro e religa a Luz. E morre. Game over. Nem com esse farrapo de trama, inventado na última hora, foram coerentes – ou, se você preferir, a Black Smoke nunca foi o irmão de Jacob, afinal. Mas isso só provaria que realmente nada nos contaram sobre ela. Quer pular da frigideira para o fogo?

E os caprichos insanos de Jacob? Supostamente ele trouxe “pessoas solitárias” para a Ilha. Claro que essa é outra desculpa que gera problemas. É difícil ver o que havia de errado com o piloto do avião e todas as pessoas que só foram morrer ali. Qual era o problema de Libby? E das crianças, que só fizeram ficar órfãs? Jacob não tinha um método melhor, pra trazer o avião, do que ‘fazer Desmond se atrasar na escotilha’? Sem contar coisas péssimas como Sayid estar feliz da vida, Jacob ir lá e praticamente ser o responsável pela morte de Nádia (quando poderia simplesmente riscar o nome de Sayid da lista e deixá-lo em paz, como fez com Kate) – aliás, nada explica Sun não ter viajado pro passado no voo Ajira. Se é por não ser mais candidata, como estão dizendo, Kate também não era mais.

4  8  15  16  23  42 – que frustração! Os bad numbers ora deixavam Hurley com azar, ora o deixavam com sorte mas enchiam de azar quem estivesse por perto. Por quê? Nada, foi à-toa. A Dharma transmitia tais números. O ARG Lost Experience nos deu a ótima explicação de que os números se tratavam do resultado de uma equação relacionada a eventos catastróficos, como o fim do mundo. Então, onde quer que haja desastres, a tendência é a manifestação dessas constantes. E talvez vice-versa. Isso explicaria de modo interessante o azar de Hurley, a queda do asteroide. Mas a chamada Equação de Valenzetti nem foi citada no seriado. Então conta? Acho que não. E só fizeram estragar o conceito ao mostrar que, do nada, os 6 candidatos finalistas calharam de ter os bad numbers. Não, não tem explicação.

Por fim, claro, comento os dois maiores crimes de Lost: não responderem o que é a Ilha e nem como surgiu a Black Smoke. Isso eles tinham que responder. Os conformados veem respostas: a Ilha é a Fonte de Vida do planeta, posta ali por alguma inteligência desconhecida (ETs, Deus, Duendes, Civilizações Antigas [evoluídas por seleção natural, rs], Seres do Futuro, Programadores da Matrix, etc.). E a Black Smoke é o resultado de um homem jogado dentro da Fonte.

Não são respostas, é claro.

A ‘resposta’ sobre A Ilha até passaria, se não viesse ilustrada por uma (sério!) Rolha de Vinho Gigante, que faz o “nooooo!” de Darth Vader parecer shakesperiano. Mas a verdade é que a própria ideia de uma Fonte de Vida, escondida numa caverna, que é ciclicamente protegida por guardiões solitários matusaléns é simplesmente ruim. É arbitrária, simplista, tosca. Pusessem esta Fonte no centro da Terra! Estaria a salvo! Ou, já que conseguem esconder a Fonte dentro da Ilha, escondessem a Ilha do mundo. Aquele guardião, afinal, só serve para fazer as pessoas descobrirem que a Fonte existe! Quando essas ideiazinhas chovem na cabeça, pode apostar que temos algo ridículo diante de nós. Mas isto é revelador: a trama de Lost se revela tão patética quanto a trama de qualquer religião, Bíblia, Torá, I-Ching tomadas ao pé da letra… Por que será? E pra não me acusarem de estar simplesmente tomado por um ódio idealista à religião, devo dizer que amo a sofisticação religiosa de Star Wars. A questão não é ser religioso ou científico. É fazer algo que preste!

Sobre a Black Smoke… a emblemática Black Smoke, que disparou nossas paixões ao derrubar árvores no episódio piloto, e tinir com seus insondáveis sons mecânicos. Aquilo não era sobre os personagens. Eles eram meros coadjuvantes para a experiência marcante, genial, de ser perguntar, atônito: o que É esse… monstro?! E, claro, tantas outras perguntas. A resposta foi prometida, e nunca veio. O maior mistério de Lost não passou de embromação. De engodo mesmo.

Tudo o que nos foi dito só tornou a Black Smoke patética: que ela veio de uma Caverna de Luz, sem mais, nem menos; que ela (sério) não consegue avançar no espaço vertical onde há cinzas de Jacob (ou cinzas e ponto, sei lá); que ela, às vezes, fica “presa” numa forma física sem razão alguma pra isso (e note que, mesmo depois de assumir a forma supostamente imutável de Locke, a Black Smoke ainda se passa por Alex, para Ben); e que, uma vez apagada essa Luz, ela se torna um corpo humano físico real (e de onde veio esse corpo, já que todos os reais corpos foram sepultados?). Como ela copia corpos? Por que tem sons mecânicos? Qual sua natureza? Como e por que surgiu? Por que diabos mataria o piloto Seth Norris, pra começo de conversa? Seis temporadas que se revelaram ser pura bullshit, pura bobagem nonsense.

Minha última resposta é àqueles que insistem que as respostas, se viessem, “soariam forçadas”. Este é o maior auto-engano de todos. No passado, Lost respondeu (de maneira sutil, completa e genial) essa série de questões a princípio insondáveis:

- O que havia na escotilha.
- Como e por que havia um urso polar na ilha.
- Como e por que Richard Alpert visitou o Locke criança.
- O que fazia Faraday na Iniciativa Dharma, nos anos 70?
- Por que a escotilha acende pra Locke?
- Que diabos era aquela transmissão de uma francesa pedindo ajuda, há 16 anos? (saudaaades doloridaaas!)
- Como Locke ressuscitou?
- Que voz Boone escuta no rádio do aeroplano nigeriano? (era Bernard!)

Etc, etc. As pessoas amaram, em uníssono. A série se tornou um mito moderno. Fazia sentido. Nada de ‘forçado’. Agora que as respostas não vieram, ou que são um lixo, paira esse auto-engano constrangedor de “isto é melhor do que se tivesse respostas claras”. Ah, a falsa consciência dos fãs conformistas…

Como um belo namoro que termina trágico, com traição, o passado maravilhoso também se revela amargo aqui.

Adeus, Lost.

Agradecimentos a Anderson Nunes, pela colaboração.

Saber ou não saber? House vs J. J. Abrams

maio 22, 2010

Se a magia se vai quando a verdade é descoberta, nunca houve magia.

Esta é a brilhante resposta com que o Dr. Gregory House nos brinda, em House S04E08 – You don’t want to know, ao discordar de um mágico que acabara de dizer: “As pessoas vão ao meu show porque querem um pouco de magia. Elas querem experimentar algo que não podem explicar”.

(A propósito: dizem que a série House é “formulaica”, que todos os episódios são iguais. Oras, isso é pra quem pode. House pode se dar o luxo de repetir a fórmula da embalagem, porque o programa se baseia no conteúdo – que talvez seja o melhor da TV moderna.)

Então aí está o Dr. House, em outra tirada ácida, pondo abaixo o pobre romantismo dos que preferem manter a cortina de ignorância – e que só conseguem ver beleza nisso. E pensar que Dawkins escreveu um livro inteiro, Desvendando o Arco-Íris, só pra criticar essa postura. Afinal, o arco-íris fica muito mais belo depois de explicado. Cientificamente explicado. E depois… há sim algo de mórbido em se preferir acreditar no pote-de-ouro ao preço de nunca poder ir lá verificar (pois no fundo se sabe que a investigação ‘quebrará o encanto’). É fraqueza auto-inflingida.

Diz o mágico: “a diversão está em não saber”. Diz House: “a diversão está em saber”.

E não é que, por mera coincidência, no mesmo dia que assisti ao citado episódio, também vi a palestra de J. J. Abrams – o criador de Lost – para o TEDTalk?

E justo agora, que só falta um episódio pra Lost acabar e quase todos os seus mistérios ainda estão sem solução, que decepção não foi ver J. J. Abrams falando de sua “caixa mágica” e dizendo:

O mistério é o catalisador da imaginação (…) há horas em que o mistério é mais importante que o conhecimento.

“…e comecei a pensar em Lost…” - very bad, J. J. Abrams!

E antes de continuar descendo lenha nisto, só queria salientar que foi incrivelmente oportuno ver as duas coisas no mesmo dia. É quase como se House e J. J. Abrams estivessem discutindo diante de mim!

Mas voltando à parte ruim… Acompanhei Lost por seis anos. De fato, os mistérios cativaram, hipnotizaram, se tornaram parte da vida ordinária. Sim, um feito clássico. Mas que só foi possível exatamente pela expectativa de que os mistérios seriam resolvidos. E brilhantemente resolvidos, diga-se. Toda investigação de House só é gratificante se, no final, ele descobrir qual é a doença. E melhor se a descoberta for capaz de curar. E eu estava ultraconfiante, até semana passada, de ser ‘curado’ destes seis anos de dúvidas loucas. Mas Lost chega a seu penúltimo episódio de forma tão aberta que está impossível acreditar que, amanhã (o apocalíptico 23 de maio para os fãs de Lost!), o Series Finale fará o esperado ‘milagre da explicação’. Falei sobre isso aqui. E agora que vi este TED de J. J. Abrams, desesperei de vez.

House representa a audácia racionalista de encarar a verdade. J. J. Abrams e sua “caixa mágica” representam o que eu só consigo chamar de apatia intelectual covarde.

A diversão? Está em saber! ;)

Site Fora do Ar… ¬¬ [atualizado: Online! =D]

maio 13, 2010

Pronto! Esqueçam tudo o que eu disse abaixo. Achei que ia dar um problema enorme, mas foi bem simples e está resolvido. A propósito, FlashFoward me obrigou a ver 5 episódios seguidos! É coisas das melhores mesmo!

*****

Fui pego de surpresa, hoje cedo, por um e-mail na caixa de spam. Milagre eu vê-lo. Era a HBE, o host que hospeda o Suástica Azul, cobrando a quase-grátis anuidade de 10 reais por ano. Problema nenhum, eu nunca ia lembrar disso mesmo. O absurdo foi que, sem aviso prévio, tiraram o site do ar – e, pelo que vi, apagaram tudo! Felizmente, estou muito bem prevenido com backups, se não já era.

Logo agora, que o site bateu o recorde de visitas mensais. Foram 2.400 em abril.

Bom, vou tentar resolver isso o mais rápido possível.

*****

Só pra registrar: hoje vi o antepenúltimo episódio de Lost, talvez o melhor da série! E – pra aguentar a porrada que vai ser a despedida desta série milagrosa – comecei a ver a badalada série FlashFoward. Primeiro episódio: fa-bu-lo-so! O segundo, verei exatamente agora. =D

Duas Pilhas e a Missão Impossível

abril 16, 2010

A primeira é a pilha psicológica de estar sob efeito de cafeína concentrada, condição que me impus hoje para acelerar a leitura das 900 páginas do meu Compêndio de Filosofia (organização por Nicholas Bunnin e E. P. Tsui-James) que chegou ontem. Sim, é doping intelectual, kkkk. E a segunda pilha é a absurda pilha de livros que estou criando! Estudava matemática e parei a leitura de Howard Eves (900 páginas de história da matemática) para aceitar o desafio dos meus amigos intelectuais de ler Gödel, Escher, Bach, o clássico de Douglas Hofstadter (também de 900 páginas!) que, supostamente, me convenceria de que eu estou errado sobre a mente. E li 200 e poucas páginas dele até chegar o tal compêndio ontem…

{ se você acha que estou me vangloriando de encarar tantas páginas, saiba que, dessas 2700 páginas que estou falando, até agora só li 350… e já se vão dois meses… patético! ¬¬ }

Ah, o compêndio!

Textos esmerados sobre epistemologia, metafísica, filosofia da mente, ética, ontologia, Descartes, Hume, Nietzsche, etc, etc, etc. Tem até John Searle e Simon Blackburn no casting de filósofos que assinam os capítulos. Vício, vício, vício. Gödel, Escher, Bach vai esperar. Mas estou com pressa. E muita pressa, pois há mais a fazer!

Missão Impossível

Passei a semana divulgando o site no orkut. Visitas vão bater recorde esse mês, sem dúvida. Pra mais de 2 mil. Então, eu deveria atualizar o site. Mas estou claramente mega-boga-ocupado. Tem texto de O Mundo de Sofia pronto. Tem intenção e esboço de crítica para Atividade Paranormal e [REC]. Tem a velha ideia do Baú Paralelo, onde quereria postar todas as inúmeras coisas que anoto, porém não estruturadas como matéria. Tem a missão de comentar aqui o 4º Encontro Intelectual (IV-EI), que ocorreu semana passada no Rio e foi um sucesso (e quero mesmo fazer isso, como fiz para o 1º e 3º encontros – veja no topo à direita). Tem um esboço para as 5 (ou 10) coisas mais inexplicáveis de que já ouvi falar. Outro esboço para o clássico Bloco do Eu Sozinho, dos Los Hermanos. Uma ideia bem concreta para a falha capital de Nietzche ao tentar refutar o “penso, logo existo” de Descartes. Enfim, tem muita coisa pendurada, rs…

Estou correndo. Empolgado. Com pressa. “Engatando a quinta”, como disse no último editorial do site. Mas a tarefa é enorme! (E ainda querem que eu trabalhe?!?! :o rsrsrs)

Aliás, tudo isso obviamente explica minha escassa presença no messenger. Agora, deixa eu voltar pro livro. Próximo capítulo: Qual a natureza do tempo? ;)

Sufocante Facilidade

abril 2, 2010

Do livro Nexus, de Henry Miller, vem esta emocionante expressão da alma do inconformista:

Movendo-me no meio de meu povo, nunca fiquei impressionado com quaisquer de suas realizações, jamais senti a presença de qualquer profundo impulso religioso, nem de um grande impulso estético: não existia nenhuma arquitetura sublime, danças sagradas, rituais de qualquer espécie. Movemo-nos num enxame, pretendemos realizar uma coisa: deixar nossa vida mais fácil. As grandes pontes, as gigantescas represas, os grandes arranha-céus deixavam-me frio. Só a natureza podia instilar uma sensação de medo. E nós desfigurávamos a natureza a cada passo. Sempre que saía a percorrer o país, voltava de mãos vazias. Nada de novo, nada de bizarro, nada de exótico. Pior, nada de que a gente se inclinar, reverenciar. Apenas uma terra em que todos se agitavam feito doidos. Eu palpitava do desejo de venerar e adorar. Necessitava de companheiros que se sentissem da mesma forma. Mas não havia nada que reverenciar e adorar, não havia companheiros de espírito idêntico. Havia apenas uma solidão de aço e ferro, de estoques e fianças, de colheitas e produção, de fábricas, moinhos, serrarias, uma solidão de enfado, de utilidades inúteis, de amor sem amor…

Copiei do blog do ex-subversivo Ari Almeida.

Dizia sempre chorar com esta passagem, mas agora também foi corrompido pela mesma facilidade; agora ele escreve pra MTV.

Até tu, Pinker…

março 23, 2010

Que ninguém é perfeito, eu já sabia. Mas nem o Pinker? rsrs…

Em virtude da última matéria do site, sobre o mistério da consciência (i. e., a mente subjetiva), que foi publicada ontem na surdina (só vou voltar a divulgar o site quando atualizar outras coisas) e que defende as ideias do filósofo John Searle, eu fiquei com uma farpa intelectual me atormentando. Por causa disso, fui pegar meu antigo exemplar de Como a Mente Funciona, de Steven Pinker, e reler um trecho onde – que eu me lembrasse – Pinker refuta Searle.

A farpa era justamente esta: se Pinker refuta Searle, que diabos eu ia fazer, lá no site, defendendo as ideias de Searle?!

Pra minha inteira e não inteira surpresa, contudo, o que vi foi Pinker – logo ele, o indefectível Steven Pinker! – gastando uma página e meia com uma verdadeira asneira argumentativa. E lembrei, um tanto perplexo, da época em que, sem ainda saber nada sobre filosofia da mente, li Como a Mente Funciona (tem até uma foto no orkut onde poso com o livro) e não tinha como avaliar criticamente diversas passagens mais controversas. Mas não que se você não leu esta obra-prima, não deva parar sua vida agora pra ir lê-la… Vá! Continua sendo um livro “ou-você-lê-ou-você-não-é-ninguém”. Só não é perfeito, claro, como acabei de confirmar.

E, a partir de agora, vou explicar o erro de Pinker. É pra quem gosta de filosofia da mente (mas não precisa ser especialista nem nada, ok? Acho que dá pra arriscar, rs).

Vamos lá: Steven Pinker é cientista cognitivo; e a ciência cognitiva afirma que o cérebro é um computador e a mente, por sua vez, é o software do computador. John Searle (à direita), como mostrei lá no site, afirma que este é apenas outro modo de cometer o mesmo velho engano dos materialistas (filósofos da mente que afirmam que a mente é nada exceto partículas), isto é, o engano de afirmar que a mente, que é subjetiva, é igual a outra coisa, que é objetiva – no caso, um software de computador. Mas já afirmaram, igualmente, que a mente é a eletroquímica do cérebro, ou o comportamento… enfim, leia a matéria.

John Searle afirma que a computação pode apenas simular a mente, mas nunca produzir uma mente de verdade (com subjetividade, com estados qualitativos interiores como dor, alegria, visão de cores, etc. – nenhum computador, ou software, ganhará magicamente tais faculdades!); do mesmo modo, a computação pode apenas simular uma explosão, sem por isso produzir explosões reais.

Tudo isto deveria ser óbvio por si.

Mas como o mistério da consciência é tão bizarro que leva grandes intelectuais a cometer erros absurdos, Searle propôs um argumento – um clássico! – para provar o óbvio de uma vez por todas. O argumento da Sala Chinesa vem pra mostrar que computação é uma coisa, pensamento é outra. Computação é uma execução cega de regras; pensamento envolve entendimento real, consciente, em primeira pessoa.

Assim, imagine um programa que simula perfeitamente o entendimento da língua chinesa. Para Searle, esse programa apenas simula o entendimento de chinês. Para Pinker, esse programa entende chinês de fato – do mesmo modo que uma pessoa que vive na China! Para tirar a dúvida, Searle propõe o seguinte: coloque uma pessoa, que só sabe falar inglês, dentro de uma sala. Dê pra ela um conjunto de regras para seguir (as mesmas regras que o programa utiliza). Por uma janela, ela recebe papéis com símbolos chineses. De acordo com as regras, ela desenha outros símbolos (por exemplo: “se você receber dois riscos, desenhe três rabiscos; etc.”) e os devolve pela janela.

Ora, essa pessoa está simplesmente executando os passos do programa.

O chinês que está fora da sala fez uma pergunta em chinês e a enfiou na janela. Pouco depois, a resposta correta, em chinês, saiu pela janela. Do ponto de vista dele, há alguém fluente em chinês dentro da sala. Mas, na verdade, não. A pessoa lá dentro só sabe inglês. Não entende nem a pergunta e nem a resposta em chinês. Mas, obedecendo as regras, ela deu a resposta – sem entender nada, contudo! E esta é a diferença entre computar (simular) e pensar (entender). Embora os resultados possam ser iguais, o processo é completamente diferente. Os computadores fazem o que fazem (até compõem boa poesia e música – sério!), porém sem entender coisa alguma. Eles nem sabem que existem!

E, se Searle está certo sobre isso, toda a base da  área de Steven Pinker, a ciência cognitiva, está furada! A mente não é um computador coisa nenhuma. Daí eu me lembrar vividamente de, em Como a Mente Funciona, ver Pinker massacrando Searle. Ou tentando fazer isso.

Basicamente, Pinker diz que o argumento da Sala Chinesa, que vimos acima, “apela ao senso-comum”. E que o senso-comum geralmente foi refutado pela ciência (a geometria real não é plana, o tempo é relativo, todas aquelas loucuras quânticas, bla, bla, bla, etc.). E tenta achar o “pulo do gato” no fato de que a Sala Chinesa decompõe a computação, que é hiper-veloz, em seus pequenos passos, um por um – e, por isso, a computação não parece entendimento.

Eu fiquei de queixo caído ao ver Pinker propor esta objeção tão claramente furada. Fica claro como água que é ele quem está “apelando ao senso-comum”, já que ele espera seduzir a intuição das pessoas com a ideia de que a execução cega de regras, se for hiper-veloz, vai “parecer” entendimento real. Oras, como a mágica acontece?! O programa de computador que simula chinês apenas executa regras passo-a-passo, copiando os padrões sintáticos e semânticos do idioma. Não há entendimento algum ali. Então você dá flash-foward no sistema e, shazam!, o entendimento real surge? É loucura!

Mas, ok… eu sei que a intuição cambaleia entre os dois lados. Isto não é uma tese de mestrado, é um blog. Tenho certeza de que Pinker erra feio, mas precisaria de páginas e páginas para retirar todas as confusões que normalmente impedem as pessoas de verem isto. E, tá, tá… vai que o errado sou eu (e Searle).

Fato é que o assunto é incrivelmente emocionante.

;)


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