Tragédia Monogâmica

Junho 8, 2008 by Paralelo

Existem muitos motivos para o fim da monogamia ser algo positivo. Dia desses, do nada, me veio à mente outro deles, na belíssima canção de Gilberto Gil, Domingo no Parque. A letra fala por si:

O Rei da Brincadeira (ê José!)
O Rei da Confusão (ê João!)
Um trabalhava na feira (ê José!)
Outra na construção (ê João!)

A semana passada, no fim da semana
João resolveu não brigar
No domingo de tarde saiu apressado
E não foi pra ribeira jogar

Capoeira, não foi pra lá
Pra ribeira foi namorar

O José como sempre, no fim da semana
guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
lá perto da boca do rio

Foi no parque que ele avistou
Juliana foi que ele viu

Foi que ele viu… Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
Juliana, seu sonho, uma ilusão
Juliana e o amigo João

O espinho da rosa feriu Zé
e o sorvete gelou seu coração

O sorvete e a rosa
A rosa e o sorvete
Oi, girando no peito
do José brincalhão

O sorvete e a rosa
A rosa e o sorvete
Oi, girando na mente
do José brincalhão

Juliana girando (oi, girando!)
Oi, na roda gigante (oi, girando!)
Oi, na roda gigante (oi, girando!)
o amigo João

O sorvete é morango (é vermelho)
Oi, girando, e a rosa (é vermelha)
Oi, girando, girando (é vermelha)
Oi, girando, girando…

Olha faca… (Olha a faca!) olha o sangue na mão (ê, José)
Juliana no chão (ê, José)
Outro corpo caído (ê, José)
Seu amigo João (ê, José)

Amanhã não tem feira (ê, José)
Não tem mais construção (ê, João)
Não tem mais brincadeira (ê, José)
Não tem mais confusão (ê, João)

Não vou dizer que a solução seria um triângulo amoroso. Este sem dúvida seria a melhor solução, se ao menos pudesse acontecer. Mas quem sabe se Juliana, mesmo estando livre da monogamia, estaria interessada em José? Se sim, a monogamia leva toda a culpa pela tragédia. Se não… a vida é complicada…

Mas quero frisar o poder da amargura de ser rejeitado, e ter que contemplar de fora a felicidade egoísta de um casal. Gil foi genial quando colocou o crime nas mãos de José, “o brincalhão”: não é preciso ter uma índole violenta para perder o controle de si numa situação tão insuportável. A alegria do amor é o sentido das vidas humanas, ou de longe a maior parte dele. A imposição social da monogamia causa uma verdadeira tragédia ao piorar o que já é difícil: conquistar este amor.

Então, apenas para poupar os ciúmes da pessoa amada, deixa-se os de fora na completa amargura, na solidão, naquilo que é um dos piores estados psicológicos em que alguém pode se encontrar - talvez perdendo somente para o luto de perder uma pessoa amada.

Como diz Robert Wright, em Não-Zero, “o amor é, por natureza, uma emoção detestável”, e continua:

“O problema não é apenas que o amor seja estendido de maneira seletiva, em geral parando de súbito nos limites familiares. O problema é que o amor costuma ser estabelecido em detrimento ativo das pessoas de fora da família. Afinal, o mundo lá fora é uma selva e queremos que nossos entes queridos triunfem.”

Na monogamia, absurdamente, a pessoa que ama quem você ama é, não uma grande aliada ou amiga, mas uma rival. E não é nada incomum que, além de ela - a pessoal rival - perder seu sonho, ainda seja alvo de provocações, seja do próprio casal, seja dos circundantes. Eu já vivi a monogamia. Tentando “demarcar terreno”, minha namorada fez questão de parar comigo na frente da outra e, na cara dela, me beijar na boca - e todo aquele ar de “fique no sonho, perdedora”. De minha parte, ou eu aceitava a situação, ou teria problemas conjugais. E a “rival”? Pro inferno, não? O amor é péssimo.

E, é claro, eu me envolveria facilmente com aquela outra moça, se pudesse. Eu gostava dela.

Muita infelicidade e sofrimento são causados não pela falta de amor recíproco, mas pelo simples fato de que, se pudesse, a pessoa que você ama estaria com você. Mas ela não pode: ela “já tem outra”.

Às vezes, é claro, não amamos quem é louco por nós. Isto, em si, já é tragédia suficiente. Mas a verdade é que, na maioria das vezes, não ficamos indiferentes. Alguém nos amar é algo raro e valioso e, se estivermos livres, é natural que isso nos toque profundamente. E, com “livres”, não quero dizer “solteiros”. Mesmo as pessoas solteiras, sendo monogâmicas por princípio, sabem que estar com alguém será deixar de estar com todos os outros. O solteiro monogâmico, portanto, não é livre: ele pode evitar o amor de certas pessoas não por não corresponder, mas pelo simples fato de que, se é pra ter só uma, que seja a melhor possível.

Mas o amor poderia ser bem mais do que este disseminador de tragédias. A verdadeira liberdade nos daria isto. Havendo amor e interesse (e, na liberdade, raramente não há), pra quê fazer isso com os outros? Por quê espezinhá-los com frustração e amargura, quando aquele que você ama gosta deles (ou, pelo menos, diria que gosta, se tivesse permissão)? Só por causa de ciúmes?

Os ciúmes podem ser ruins e péssimos, sobretudo quando se acredita cegamente em três mentiras: 1) que amar uma segunda pessoa é deixar de amar a primeira; 2) que ser vítima de “traição” é ser socialmente humilhado; e 3) que deixar seu parceiro livre é aumentar o risco de perdê-lo. Estas três crenças são três litros de gasolina despejados no fogo dos ciúmes. Mas crenças são passíveis de mudança (sobretudo as obviamente erradas).

Então, como eu dizia, ciúmes podem ser péssimos, mas não são nada comparados com a frustração e amargura de ser deixado pra trás, como o caso do José da letra. É verdade que os ciúmes, nos EUA pelo menos, são a maior causa de homicídios. A frustração do Zé, contudo, é a maior causa de suicídios - apesar da direção que a letra toma.

É preciso sabedoria para controlar os ciúmes, mas o lucro é alto.

Como cantou Paula Toller, em Poligamia:

Abastece de óleo os neurônios
Esquece o monopólio de hormônios
Prazeres já temos de menos

Ciúmes já temos demais

O Milagre da Palavra: Again!

Junho 3, 2008 by Paralelo

Dessa vez foi “óbice”. Posso quase jurar que nunca ouvi tal coisa na vida. Hoje, contudo, escrevia um texto para o site (nunca ficam prontos, rs) e, por alguma razão, fui pesquisar no dicionário se existia a palavra “probleminha”. Não tive sucesso, só deparei com “problema”. Contudo, clicando estupidamente na aba sinônimos, vi que um sinônimo de “problema” é - não “probleminha”, o que seria ridículo - mas “óbice”. Isso me chamou a atenção, aliás: fiquei pensando que “óbice” não soa como “problema”, isto é, se alguém disser algo como “estou com um óbice lá no emprego”, vai soar esquisito pacas.

Pois bem… Coisa de nem duas horas depois, já na Internet, estou vendo um tópico, do qual eu participava, e bem aqui, dita pelo Carlos, a frase “Se a realidade é puramente material, não deveria ser tão dificil ou muito menos impossível, tal óbice se verificar”. A palavra saltou à vista! Como diabos é possível encontrar uma palavra tão rara, e que eu nunca tinha ouvido, num intervalo de duas horas?

Não foi a primeira vez que isto me aconteceu na vida, longe disso.

Minha teoria maluca é a de que minha consciência - quântica? - ao ler o termo “óbice” pela primeira vez, deparou-se com um evento improvável e, assim, viajou para um universo paralelo estranho - segue-se, aí, uma segunda estranheza: ler a palavra “óbice” outra vez. Nos termos de Lost, “óbice” foi minha constante, rs.

Minha opinião sensata é a de que eu já devo ter visto esta palavra algumas vezes, mas sempre esqueci - afinal, das vezes anteriores, ela não reapareceu duas horas depois. E é sempre assim: conheço muitas palavras novas todos os dias, sobretudo quando estou imerso em textos, como hoje. A maioria destas palavras novas eu esqueço, mas quando, por acaso, uma delas se repete, aí isto marca! Com qualquer palavra que acontecesse, eu teria a sensação de que nunca a havia ouvido antes, porque esqueci.

Tanto é que, agora mesmo, eu não lembro de nenhuma das palavras que, no passado, se repetiram do jeito que “óbice” fez hoje. Só lembro que algumas se repetiram.

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Atualizado: 13.06.08!

Uau! Nem demorou, aconteceu de novo! Apenas 10 dias depois do post acima, desta vez com a expressão “sine qua non”. Eu já a havia ouvido, mas só hoje entendi que significava algo como “necessário”. Logo depois de apreender o sentido, no mesmo dia, vi a palavra em outro contexto, também na net.

Imprimatur!

I Encontro Intelectual (IEI)

Março 16, 2008 by Paralelo

I Encontro Intelectual (IEI)
comentários by Paralelo, cafeinado, um mês depois, on 15.03.08

Nos links logo abaixo, apresento meus comentários sobre cada um dos temas principais surgidos no evento.

1. Poligamia x Monogamia
(Diego & Paralelo contra Carlos Daniel, Pierre & Vitor)

2. Amoralidade x Moral e Ética
(Paralelo contra Todos!)

3. Influência da Cultura x Psicologia Evolutiva
(Pierre contra Todos!) [Intermezzo nerd: as formigas]

4. Trabalho x Anti-trabalho (CD, Pierre & Vitor contra Diego (?) & Paralelo)
+ Status x Anti-Status (Todos! contra Paralelo)

5. Determinismo x Livre-arbítrio
(CD, Diego & Vitor contra Paralelo & Pierre)

6. Dualismo de Propriedades x Monismo Físico (Sobre Consciência)
(Diego contra Todos!)

7. Imortais Transumanistas x Mortais Conformados
(Diego, Paralelo & Vitor contra Pierre & CD)

8. Busca de Mulheres Inteligentes é Assunto Metafísico x Elas existem!
(Diego & CD contra Paralelo, Pierre e Vitor)

9. Família e Filhos x Amigos e Amantes
(CD & Pierre contra Diego & Paralelo)

10. Lógica objetiva x Lógica convencionada
(Paralelo contra CD - os demais indecisos) [Extra do DVD: A Lua]

11. Ateísmo Militante x Ateísmo Passivo
(Paralelo & Vitor (?) contra CD, Pierre e Diego)

12. Indutivismo Instrumental x Indutivismo Objetivo
(Todos! contra Paralelo)

Cada link é um post no blog, e pode ser comentado, e depois respondido, independentemente.

Cada post, portanto, é potencialmente um fórum.

Não hesite em comentar.

Boa leitura e bons insights!

Na verdade, o nome do evento é I Encontro Internacional Intraestadual Intelectual dos amigos do Carlos Daniel + o Victor na casa do Diego! - e, neste preciso momento em que colo isso aqui, peço perdão por ter escrito “Vitor” por todo o resto do trabalho.

Vale à pena reproduzir as disposições gerais do IEI, by Diego:

Dos objetivos:

O encontro objetiva Primariamente discutir a respeito de posicionamentos sobre o mundo (formas de viver e se posicionar) vindos de diversas fontes dotadas de racionalidade, mais do que adentrar-se nas questões próprias da natureza última do universo, por conta da escassez de tempo (e não, evidentemente, de cacife intelectual).

2ªmente, Masturbação intelectual, regada a risos e análise lógica, piadas de nerd etc…

3ªmente Adentrar-se nas questões próprias da natureza última do universo

4ªmente Persuasão política, moral, cultural e econômica dos participantes uns sobre os outros, em vistas de tornar claro seu posicionamento sobre a vida, e talvez passá-lo adiante.

5ªmente Conhecer e apreciar um pouco da arquitetura urbana e culinária da cidade de são paulo

6ªmente promover uma grande orgia homossexual. Como todos esperamos que nunca cheguemos nesse objetivo, nos cabe mantermo-nos pelo máximo de tempo possível nos demais, assim garantindo o bom andamento do projeto.

O IEI durou três belos dias de fevereiro. Os presentes foram cinco, por ordem alfabética: Carlos Daniel (CD), estuda medicina no Rio (e veio até Sampa pro evento!); Diego, o anfitrião, estuda filosofia na USP; Paralelo (ou Lauro, ou este que vos escreve), que… err… enfim (o Pierre, no blog dele, me apresentou como “ativista intelectual” - então tá!); Pierre, estuda engenharia de materiais não recordo em que facu de Sampa; e Vitor, calouro de filosofia na USP.

Debatemos de tudo, intensamente e com grande qualidade - além de rebatermos uma peteca no meio da sala. Foi maravilhoso!

A propósito, recentemente o Carlos Daniel (que, nos links abaixo será chamado de CD) sugeriu um nome para o próximo evento: Segundo Encontro Interestadual Intelectual dos Amigos do Carlos Daniel, que Agora Já São Amigos Entre Si, e o Victor, que Agora É Amigo do Carlos Daniel e de Todo Mundo Também. Sugestões de revisão devem surgir…

Agora, mãos à obra!

IEI 1 (Poligamia)

Março 16, 2008 by Paralelo

Poligamia x Monogamia
(Diego & Paralelo contra Carlos Daniel, Pierre & Vitor)

A reação monogâmica, se houve, foi esquálida. O tema surgiu duas vezes. Pierre não comentou nada sobre. Carlos Daniel (doravante, CD) limitou-se a sugerir que, para ele, poligamia não serve. Vitor não tinha nada especialmente contra o Poliamor, e até revelou-se um polígamo de ocasião.

Minha maior dúvida, atualmente, é se a poligamia é realmente a melhor opção para todos, ou se só para alguns - talvez mesmo uma minoria. O IEI me fez pender para a seguinte opinião: a maioria se beneficiaria de abrir a mente para a relação aberta; mas uma minoria, a dos bastante ciumentos, teria bastante razão em preferir a monogamia (detalhes sobre isso num dos comentários abaixo). Isto porque o CD, sem dúvida, não é monogâmico por razões morais - ele é completamente lúcido a este respeito.

Uma das maiores vantagens da poligamia, argumentei, é que a paixão - quando dá certo - é talvez o maior prazer que o ser humano pode sentir. E a poligamia permite se apaixonar várias vezes num curto período, por pessoas diferentes. É impossível se apaixonar duas vezes pela mesma pessoa. Os monogâmicos se apaixonam uma vez e, se tudo der “certo”, nunca mais se apaixonarão de novo. E isto, a meu ver, é intolerável.

O ponto alto, a meu ver, foi a elaboração do Diego sobre a relação entre poligamia e a escolha de gerenciar o próprio cérebro: afinal, sentir ciúmes é natural, então é preciso saber muito bem o que fazer, e como encarar as coisas, para driblá-lo. A maioria das pessoas não deseja tanta responsabilidade e controle sobre si mesma. E isto nos leva a um inesperado e proveitoso link com Dennett, que foi maravilhosamente alcançado.

Segundo o filósofo (e isto é novidade de seu livro Quebrando o Encanto), a religião é em parte fruto de uma necessidade humana de evitar assumir responsabilidades: “a escolha não é minha, é de Deus; se der errado, não me acusem - Deus quis assim”. Este seria o fundo psicológico básico que faz surgir a religião nos quatro cantos do mundo.

E esta mesma necessidade de se eximir de responsabilidades, de não ser o “dono da escolha”, é também o movente que torna a poligamia tão assustadora para muitos: é preciso desligar o piloto automático do cérebro, tomar as rédeas e arcar com os riscos de “apertar os botões - certos ou errados - do sistema”. Se falhar, a culpa é sua - e é isto que as pessoas temem.

Penso que os participantes monogâmicos sem dúvida ficaram balançados - afinal, nenhum deles acredita em “amor romântico” ou “almas gêmeas”. Estão todos muito perto de não ver razões para ter só uma pessoa, em vez de duas ou mais. E não é só de sexo casual que falo, mas sobretudo de paixão e amor de fato.

Em um texto que o Diego me passou, Bertrand Russell diz tudo: “A boa vida não pode ser vivida sem autocontrole, mas é melhor controlar uma emoção restritiva e hostil como o ciúme, do que uma emoção generosa e expansiva como o amor.” (1929!)

IEI 2 (Amoralidade)

Março 16, 2008 by Paralelo

Amoralidade x Moral e Ética
(Paralelo contra Todos!)

Um dos temas mais polêmicos! Cheguei a discutir pesado com o Diego, quando ambos morriam de sono às 4 da manhã. Mas preciso logo dizer: nenhum dos participantes acredita no realismo moral, ou seja, que exista uma “moral verdadeira e absoluta”. Diante disso, eu juro que fico perplexo em como podem, assim mesmo, se dizerem morais!

Uma moral subjetiva é tão interessante quanto uma religião onde se admite que Deus é um mito: qual é a graça? Você afirma “a atitude X é errada” mas, se pressionado, admite que ela não é errada “de verdade”, mas que isto é só um jeito de falar…

O argumento do Diego é: a moral não tem existência “fora de nós”, mas é algo humano - então por que descartá-la? Eu concordo que é algo humano, já que as emoções morais evoluíram por seleção natural (e o Di está plenamente de acordo com isso); mas o mesmo vale para ciúmes, xenofobia e desejo de vingança, e claro está que, mesmo sendo coisas humanas, é bom negócio nos vermos livres delas. Então, se devemos ser morais, que não seja por a moralidade ser “algo humano”.

Mas o argumento do Diego segue: assumir uma postura moral é algo positivo: é melhor tentar influenciar a moralidade das pessoas a seu favor, do que simplesmente sair do jogo e deixar as pessoas com seus preconceitos morais. Aqui aposto que confundimos conceitos. Mas minha sensação é a de que não saio do jogo por ser amoral: também tento persuadir as pessoas do que acho melhor. E, se estou certo, não troco os preconceitos morais delas por preconceitos morais meus, mas sim pela amoralidade.

Aí a questão final é: qual a melhor tática? Estou certo de que, para o Diego, o módulo mental da moralidade é algo a ser usado positivamente, e não desligado - como eu quero. Mas isto me cheira a trocar comportamentos conscientes e refletidos (diminuir o sofrimento e promover a felicidade alheia por perceber que é o melhor, do ponto de vista do auto-interesse - embora não sempre, contudo) por comportamentos instintivos e automáticos (fazê-lo por meramente “sentir que é certo”).

Vejo três motivos principais porque a moralidade é fútil e danosa:

1) É possível obter um resultado muito parecido abrindo mão dela (afinal, cooperar é melhor do que trapacear, mesmo para o egoísta frio e calculista - assistam House!)

2) A moralidade é um sentimento horroroso, que faz as pessoas se sentirem no direito (e no dever!) de prejudicar as outras sem motivo racional algum: punir homossexuais, negros, incestuosos, ociosos, etc. Mesmo quando o alvo é obviamente racional, como no caso de evitar a pedofilia, a moralidade mais cega do que ajuda, pois cria um tabu que nos impede mesmo de falar abertamente sobre o tema e, portanto, compreendê-lo - de modo a evitar melhor o sofrimento (o que, friso, é algo do interesse pessoal de qualquer um que enxergue mais do que um palmo à frente e tenha uma mente normal).

3) Argumentos são trocados por intimidação condenatória - não se apela à razão do interlocutor, mas à culpa! Isto é intolerável pra mim. O próprio Diego, lúcido como é, se exaltou algumas vezes dizendo “que absurdo!”, condenando atitudes que, se pressionado, ele mesmo precisa admitir que podem ser do interesse pessoal do praticamente e que, portanto, taxá-las de “erradas” e “más” não passa de uma tática de intimidação psicológica que pode funcionar ou não, mas que não possui nenhuma justificativa racional e nenhum poder legítimo de dissuadir o criticado.

Obviamente o Diego discorda violentamente, sanguinariamente de mim!

Cinicamente, atribuo isto ao fato de o Diego ser muito popular e não poder, honestamente, sustentar a amoralidade em público sem pagar uma pena enorme de desconfiança geral. E como mentir pra todos é algo emocionalmente horrível, a saída é se convencer de que, sim, ser moral é realmente possível e positivo (ele adora identificar os motivos emocionais por trás do que julga ser uma opinião insustentável dos outros - a vingança vem a cavalo, hahaha!).

Pierre e CD estão com o Diego, embora de forma branda - mas especialmente o CD parece sentir uma necessidade profunda de afirmar, substancialmente, coisas como “mentir para a namorada é (!) errado”. O que mais se aproxima de minha visão é o Vitor. Acho que ele é praticamente amoral, mas apenas prefere chamar de “morais” posturas que, no fundo (e ele sabe disso), não passam de altruísmo baseado em interesse próprio, tipo: “vou ajudar você porque isto me dá prazer”. Jogo de palavras. Acho que ele concorda comigo.

Continuo amoral. Os argumentos que ouvi estão longe de me convencer - mas admito que ainda não ficaram suficientemente claros. Por outro lado, sei que meus argumentos ainda não são persuasivos. Também ficou claro que preciso melhorá-los.

IEI 3 (Psicologia Evolutiva)

Março 16, 2008 by Paralelo

Influência da Cultura x Psicologia Evolutiva
(Pierre contra Todos!)

Assim como eu sou o único da turma que não sabe inglês (e como me aporrinham por isso, mas com muita razão), o Pierre era o único da turma que não conhecia a psicologia evolutiva (psievo) e, portanto, tem intuições bem fortes sofre a influência da cultura no comportamento humano. Quando o tema surgiu, veio o comentário: “Pobre Pierre…”.

E foi barbada. Em conversas anteriores do Messenger, o Pierre já tinha sido dissuadido em muitas partes do seu ponto de vista. Que a seleção natural não é uma verdade tautológica e vazia (”a sobrevivência dos sobreviventes”); que emoções são fruto da organização do cérebro, e que este foi moldado pela seleção natural - tanto quanto o fígado e os pulmões; que os ciúmes seguem um padrão evidentemente relacionado à assegurar a descendência; e etc.

O tema surgiu várias vezes, e foi sempre um tranqüilo processo de tirar as dúvidas do Pierre. Ele achou tudo enormemente positivo e, agora, vai começar a ler as obras cruciais.

Intermezzo nerd: as formigas

Foi interessante quando, no Parque do Ibirapuera, vimos uma formiga carregando uma folha e, sobre a folha, outra formiga pegando carona! Exclamei: “que parasita oportunista!” e estava brincando, é claro. O CD filmou com celular - sim, há provas! A conjectura do Diego foi de que a formiga caroneira estava sobre a folha quando a segunda formiga começou a transportá-la, e o movimento brusco da folha fez com que a formiga caroneira se paralisasse, como se para não ser percebida por um possível predador; a outra formiga, alheia, carregou a folha normalmente - talvez estranhando o peso extra, se é que formigas podem ser conscientes!

IEI 4 (Anti-trabalho)

Março 16, 2008 by Paralelo

Trabalho x Anti-trabalho (CD, Pierre & Vitor contra Diego (?) & Paralelo)
Status x Anti-Status (Todos! contra Paralelo)

Atenção: o “status” a que me refiro é, especificamente, o status financeiro e material, que é o reconhecido pela maioria das pessoas no capitalismo atual.

O Diego é indeciso porque é tiete descarado de Bertrand Russell, e Russell argumentava em favor do valor do ócio e da falta de sentido do trabalho tal como existe no sistema capitalista. Mas, como o CD, o Pierre e o Vitor, ele parece concordar que o status é uma coisa suficientemente boa e preciosa para justificar o esforço de trabalhar oito horas por dia, em troca de dinheiro - e do poder social que advém dele.

A coisa é confusa.

Em outros momentos, o Diego admite que ter status é algo que, por um lado, acaba te fazendo ter o mesmo prazer de outrora, porém com mais esforço (você se acostuma a luxos e, então, fica prisioneiro deles) e, por outro, te coloca na situação estressante de evitar perder o mesmo status - o que significa medo, preocupação com segurança e, acrescento eu, uma postura conservadora decorrente. Ele está pronto a admitir que há algo de muito positivo na minha postura de ignorar o status: tenho uma liberdade valiosa por isso.

Mas uma coisa que o Diego não admite é: status te deixa paranóico com o fato de alguns de seus vizinhos e amigos terem mais status do que você. Na verdade, nenhum dos participantes do encontro têm essa paranóia - isso ficou claro pra mim, e me fez mudar de idéia. Segundo o Diego, a razão é que em uma metrópole como São Paulo a chance de haver alguém “acima de você na hierarquia” é tão líquida e certa que a tentação de estar “no topo” simplesmente some. Isto pode estar certo, mas também desconfio que a razão, na verdade, é que os participantes são especialmente inteligentes e capazes de enxergar outros valores.

De qualquer modo, pensei o seguinte: talvez só quem seja “paranóico com a concorrência” são as pessoas que “vêm de baixo” e, portanto, se deslumbram e se perdem com o poder adquirido. Quem nasceu em berço de ouro, provavelmente, tem no status algo realmente positivo e valoroso.

E trabalhar? Agora é com o CD o assunto!

Uma coisa é nascer com status, outro é ralar para adquiri-lo. Vale à pena? Há que se considerar que, infelizmente, não existe na sociedade a opção oficial de “abrir mão do status e não trabalhar”: ou você trabalha, ou não come. Todos parecem estar de acordo com a idéia (e, surpreendentemente, com a possibilidade!) de uma sociedade que sustente ociosos - e quem quiser status que trabalhe.

Mas essa sociedade ainda não existe. Eu consigo viver sem trabalhar, ainda e quiçá sempre, graças a uma combinação improvável de fatos - lutei por isso, contudo. Será que, mesmo tendo conseguido isto, eu deveria trabalhar para obter status? Será que estou perdendo algo muito valioso, escolhendo este ostracismo? O CD parece tender a me dizer que sim.

Ele valoriza muita coisa que custa caro, e parece tirar enorme - até essencial - prazer de tais coisas. Há um porém: ele diz amar o trabalho que faz, e assume prontamente que não valeria à pena se submeter a um trabalho não-prazeroso. Dito isso, a questão parece se encerrar pra mim: qual a minha chance, e a da maioria da população, de conseguir um trabalho prazeroso? Quase nula. O CD é uma exceção de sorte.

E eu, pra piorar, tenho uma aversão idiossincrática ao trabalho - além da conta - que piora tudo. Oito horas por dia compromissadas com qualquer atividade! Sinto isto como escravidão insuportável e desesperadora, mas é claro que preciso admitir que para a maioria das pessoas está muito longe disso.

Tenho uma dúvida genuína: será que o CD se beneficiaria de largar suas tarefas e ser livre com menos status? Mesmo supondo que ele conseguisse se livrar da dependência adquirida pelos luxos, e voltasse a ter a mesma dose de prazer com coisas simples, ainda ele é muito convincente ao exprimir o quanto o status lhe faz bem e é proveitoso. E ele pode estar muito certo.

A questão é que, se eu consigo vislumbrar uma vida plena sem status, é graças à todo o resto das coisas estranhas que eu valorizo com força: relações sinceras num grau absurdo, sexo e paixão e amor abertos e afetuosos de todas as partes envolvidas (ou, no lugar disso, amores platônicos e unilaterais da melhor qualidade e compreensão da parte “não romanticamente envolvida”), idealismo apaixonado por causas intelectuais, etc, etc, etc. Sem tudo isto, duvido que abrir mão do status seja viável - e não sei medir o quanto destes valores são idiossincrasias minhas, embora eu esteja francamente aberto à possibilidade de que nenhum deles o seja! Ou de que a maioria seja…

*****

Outra: o Diego frisa que ainda existe uma “moral do trabalho”, e a sociedade odeia um tipo como eu, que consegue ser feliz sem se esforçar num emprego pra isto - é como se eu não merecesse. A mesma raiva, o Diego supõe, causa a aversão às drogas: você gera um enorme prazer mental de forma mecânica, ingerindo um estimulante, sem fazer nada pra merecer o prazer.

Conclusão entusiástica do Diego: “o Lauro e as drogas são a mesma coisa!”.

Haha… ¬¬

Mas eu considero este argumento muito “sociologista”.

Minha alternativa é esta: o que se valoriza na sociedade é status financeiro, e este só é conseguido através do trabalho; logo, quem não trabalha é obviamente vergonhoso (vergonha é o sentimento de perder status). Por isso a hostilidade contra os ociosos - é como se eles fossem babacas: “se você não trabalha, você é um perdedor, um fraco que escolheu a derrota”. É assim que sentem!

Arrisco mais: os ociosos incomodam também por fazer com que os trabalhadores sintam que, no fundo, todo o seu esforço pode ser vão. Que há quem consiga ser feliz e ter sucesso pessoal sem perder tanto tempo. É uma inveja e um medo de estar se esforçando à-toa (e a resultante hostilidade contra quem causa este sentimento), mas não uma condenação moral. Trabalhar é difícil e penoso para a maioria, e acreditar que há enorme sentido neste sofrimento é, sem dúvida, a melhor forma de suportá-lo. A existência de ociosos felizes mina esta crença.

Mas meu argumento foi assimilado como algo que pode coexistir com o ponto do Diego. Bem, talvez. Uma versão light da “moral do trabalho” sem dúvida é verdade.

IEI 5 (Determinismo)

Março 16, 2008 by Paralelo

Determinismo x Livre-arbítrio
(CD, Diego & Vitor contra Paralelo & Pierre)

O determinismo tem todas as vantagens intelectuais a seu favor, é claro. Se o Pierre e eu nos dispomos a conjecturar em favor do livre-arbítrio, é num espírito especulativo e de mente aberta. O que dizemos (ou, pelo menos, o que eu digo) é: quem sabe deixamos escapar alguma coisa, e sejamos realmente livres - no sentido forte da palavra?

O Pierre compartilha comigo a intuição de que ainda é cedo para nos declararmos seres de comportamento determinado pelas leis da física - no mínimo, porque a complexidade do funcionamento cerebral ainda não pode ser simulada e ser diretamente provada como evento determinístico: apenas se supõe - de forma óbvia e justa, é claro - que as leis da física como as entendemos em casos simples que podemos simular (determinísticas), assim se mantêm nos casos mais complexos, que não podemos simular.

Mas talvez não! E o meu argumento básico, e penso que mal compreendido, é que as leis da física implicam, em geral, aumento da desorganização das partes - o aumento da entropia. Contudo há disposições muito específicas da matéria onde a organização aumenta. Isso não viola as leis da física, mas resulta delas: formação de cristais, por exemplo, e sobretudo a replicação molecular, a vida. De modo análogo, talvez haja disposições muito específicas da matéria onde dois ou mais futuros alternativos sejam compatíveis com as leis da física, e a realização de qualquer deles seja aleatória… aleatória ou, vai saber o quê, mas não completamente determinada.

CD, Diego e Vitor se revoltam, odeiam, querem ver sangue diante deste argumento!

Mas custo a entender por que ele é absurdo.

O CD diz que as leis da física são (!) determinísticas, e que um futuro aberto implica que tais leis foram violadas. A meu ver, um futuro aberto implica que descobrimos que há casos complexos e especiais em que as leis da física não são determinísticas. Vejam como eu entendo o argumento do CD. É como se ele dissesse, no caso comparativo da entropia, que: “as leis da física implicam (!) no aumento da desorganização, e o surgimento espontâneo de organização nos diz que tais leis foram violadas”, e aí eu diria que “a meu ver, a organização só implica que descobrimos que há casos complexos e especiais em que as leis da física geram complexidade”. Neste caso, minha resposta é obviamente correta. Por que ela não pode ser correta no caso do determinismo?

Mas há esperança para o CD.

Eu só conseguia achar que a afirmação dele era trivial, isto é, que a afirmação “as leis da física são (!) determinísticas” precisa ser verdade pelo motivo bobo de que definimos as leis da física como determinísticas…

Mas talvez não. Se o CD afirmar que “as leis do Game of Life, de Conway, são (!) determinísticas”, ele terá razão total e absoluta: percebi isso há uma semana. Cada quadrado do Game of Life, por mais que haja zilhões, vai necessariamente estar aceso ou apagado, no momento seguinte, de acordo com regras previsíveis, não importando a posição dos outros quadrados. E isto é algo que se pode ver nitidamente.

Sendo assim, acho que entendo a insistência do CD. As leis da física podem ser tão nitidamente determinísticas quanto as leis do Game of Life. Mas isto está claro? Pra mim não está, e pode ser fruto da minha falta de instrução em física (e o Diego está lendo isto e pensando “duh!”). Mas o Pierre é quem mais tem instrução em física de nós e, justamente, é quem não enxerga as leis da física como “nitidamente determinísticas” - como realmente são as leis do Game of Life.

O meu exemplo é considerado ruim até pelo Pierre, mas penso que ele ao menos capta o que quero dizer. Não vou repeti-lo aqui. É o exemplo das 4 bolas. Quem não o conhecer clique aqui. O CD e o Pierre, embora não consigam me explicar, parecem ver nitidamente que a situação que descrevo é fisicamente impossível. Tudo bem. Esta situação específica pode ser fisicamente impossível (por causa de detalhes sobre “transferência de momento” que, pra mim, são ainda obscuros - mas quem sabe outras, mais complexas, sejam possíveis? Com isto, o Pierre parece concordar.

Obviamente todos devem desconfiar da minha empreitada, não apenas por ser abusivamente herética, mas sobretudo por ser conveniente demais: eu, um ateu que detesta a idéia de um futuro fixo e pré-determinado, estou querendo justificar o livre-arbítrio sem evocar alma ou dualismo! Se isto não é suspeito, não sei o que é.

Em minha defesa, só tenho a dizer isso: a extrapolação do determinismo físico para situações complexas fora de nosso alcance é, no mínimo, um pouco insegura; e a sensação gritantemente clara de que eu poderia ter escolhido o outro sorvete na padaria é forte demais para ser descartada tão rápido. No mínimo, precisamos ter o equivalente da solução do paradoxo de Zenão que demorou 2 mil anos para surgir: uma explicação de como a nossa ilusão de liberdade acontece, que nos faça realmente sentir que não poderíamos ter escolhido o outro sorvete.

Isto me convenceria em definitivo do determinismo e, sustento, deveria ser a condição para que qualquer um se convencesse dele em definitivo. Enquanto não compreenderam o infinito bem o suficiente, um intelectual estava justificado em desconfiar que há algo de errado com a afirmação: “Aquiles sem dúvida alcançará a tartaruga”…

IEI 6 (Consciência)

Março 16, 2008 by Paralelo

Dualismo de Propriedades x Monismo Físico
(Diego contra Todos!)

Antes, explico o que é: o “dualismo de propriedades” afirma que a consciência, embora não seja outra substância (como uma “alma”, por exemplo), é uma propriedade básica e fundamental da matéria, tão irredutível a outras propriedades quanto espaço, tempo e massa. O “monismo físico” afirma que a consciência emerge das propriedades físicas básicas (tal como a temperatura, que não passa do grau de agitação das partículas), embora não o saibamos como - e talvez nem possamos saber.

Infelizmente o tema não saiu do papel, e o Diego não defendeu seu ponto.

Mas ele me mandou, recentemente, um texto com a idéia. Apenas comecei a lê-lo. Por hora, continuo achando a frustração monista (”não sabemos como, mas é de algum modo!”) mais plausível do que o que parece ser uma pseudo-explicação do dualismo de propriedades. Por que somos conscientes? Por que há uma “propriedade consciente” na matéria. É como se - e todos conhecem essa - um povo pré-agrícola tentasse explicar como o relógio marca as horas, e dissesse que se trata de uma “propriedade horológica”… Não explica nada!

O Diego pode argumentar que explicaria sim, se fosse verdade. Good, but…

Ainda é bastante intuitivo, mas suponho que uma coisa é chamar de “fundamental” uma propriedade que está em toda parte, “subjazendo” a tudo que observamos sempre. O tempo, o espaço e a massa sem dúvida são assim. Agora, chamar de “fundamental” uma propriedade tão abusivamente caprichosa como a consciência, que parece se manifestar de modo tão específico, descaradamente dependendo de um processamento de informações totalmente idiossincrático para existir - isto parece bem mais problemático.

Pode-se dizer que estou enganado, que a consciência - precisamente por ser uma propriedade fundamental - não está apenas nos cérebros. Mas isso é estranhíssimo! Será que faz sentido imaginar uma consciência desvinculada do processamento de informação? Ela obviamente não pensa, não sente, então que “consciência” pode restar? De quê?

Do contrário, o simples fato de que a consciência depende do processamento de informações para existir parece um óbvio flagra: ela é causada pelo processamento de informações, emerge dele. Não qualquer processamento de informações, é claro: presume-se que a maior parte da atividade cerebral seja inconsciente (pelo menos, está fora da nossa consciência). Não, é pior: só certos tipos de processamento de informação geram consciência, presumivelmente os ligados à percepção, ao input das informações. Diante disso, acho realmente desespero “horológico” dizer que a consciência é uma propriedade básica da matéria…

Mas, é claro, todo este debate é o mais especulativo possível.

E como é interessante!

IEI 7 (Imortalidade)

Março 16, 2008 by Paralelo

Imortais Transumanistas x Mortais Conformados
(Diego, Paralelo & Vitor contra Pierre & CD)

A morte é certa?

Diego, Vitor e eu pensamos que há esperança tecnológica para escapar dela. E se for preciso alterar o código genético pra isso, se for preciso transferir a consciência para um HD, se for preciso se tornar um ciborgue - em suma, se for preciso ir “além da condição humana” (aí o transumanismo), então que seja! Morrer, nem pensar.

Muitas pessoas, sobretudo as religiosas, vêem nisso um absurdo anti-ético: “fomos feitos para morrer e ponto final”. O CD e o Pierre não têm quaisquer críticas morais desse teor a fazer. Eles apenas não são tão otimistas a ponto de achar que vale à pena se dedicar em nome da possibilidade de a tecnologia superar a morte: se é que ela conseguirá isto, quase certamente (ou mesmo certamente!) não será em nossas vidas, por mais que consigamos viver 150 anos com o estilo de vida mais saudável jamais concebido. Então, não vale o esforço.

Na verdade, o Pierre e o CD não têm sequer esse ceticismo firme. Eles têm mente aberta para considerar ao menos plausível a superação da morte. Bem, eles só foram enquadrados como “mortais conformados” para animar a festa!

Interessante foi a visão futurista do Diego: se em 50 anos tivermos acesso a uma tecnologia anti-morte, isto justifica que passemos 200 anos escondidos num abrigo, a salvo de fanáticos religiosos ansiosos por nos matar em nome de Deus e da “ordem natural” - supondo que os fanáticos morressem e fossem substituídos por gerações mais esclarecidas, este tédio de 200 anos nos garantiria os próximos 200 mil!

Sendo tão otimista, é surpresa que o Diego nos considere - os humanos imortais, se acontecermos - incapazes de atravessar a morte térmica do Universo, a ocorrer dentro alguns bilhões de anos. “É impossível”, diz ele, “daí não passamos!”. Todos os outros participantes, em especial o CD, preferem racionar assim: “Teremos centenas de bilhões de anos para resolver o problema? Até lá damos algum jeito!”.

IEI 8 (Mulheres Inteligentes)

Março 16, 2008 by Paralelo

Busca de Mulheres Inteligentes é Assunto Metafísico x Elas existem!
(Diego & CD contra Paralelo, Pierre e Vitor)

O Pierre não estava quando o assunto surgiu. Uma pena, pois precisei de reforços! Se “mulheres inteligentes” soavam como “fantasmas” para a rapaziada, eu era o Ghost Buster! É a busca da minha vida, afinal - que o Diego julga, sem dó nem piedade, quixotesca. E o Vitor se revelou bastante fácil de ser demovido da posição. Fiquei só e, confesso, até cedi em um certo ponto - pressionado, porém.

Fato: há menos mulheres inteligentes do que homens. Isso até as mulheres inteligentes que eu conheço admitem prontamente. Mas será a pressão machista da sociedade? Serão os séculos de opressão feminina? Ou será, ao menos em parte, uma questão biológica e (não por ser biológica) basicamente imutável?

Para ser justo, o Diego frisou uma distinção: mulheres inteligentes existem, e ele conhece várias; mas mulheres intelectuais são raridade como a passagem do Halley! E por “mulheres intelectuais” o Diego quer dizer mulheres que: A) sintam tesão em debater idéias; B) tenham capacidade de acompanhar o nível do debate; e C) não fiquem intimidadas pelo clima desafiador, inquisitivo e às vezes mesmo arrogante das discordâncias.

O problema para A seria biológico: mulheres têm menos testosterona e não se sentem estimuladas com enfrentamentos - até onde sei, isto tem respaldo científico e, ademais, parece óbvio (mas nem por isso faltam mulheres esportistas, logo vejo); o problema de C é parecido: há a nítida sensação de que mulheres ali ficariam tímidas. As próprias mulheres acham isso - mesmo as que amam as idéias que estão sendo debatidas. Talvez até tivessem o que dizer, mas não se sentiriam à vontade para expressá-lo num ambiente tão “hostil” (sem testosterona, assim pareceria pra elas).

E o problema B? É o que penso: mulheres não têm estímulo pessoal para trabalhar idéias intelectuais e, em conseqüência disso, acabam menos competentes. Afinal, intelecto também é prática. Se você lê muito, forma idéias e as debate, vai acabar mais sabido do que quem apenas lê muito. Mas não significa que, se as mulheres trabalhassem as idéias, não atingiriam níveis tão bons quanto o dos homens.

E o que falta para elas trabalharem mais idéias e apreciarem o debate? O que falta para se sentirem à vontade em debates?

Penso que falta os homens não serem tão impulsivos em debates. Ora, até os próprios homens não ficam à vontade se seus interlocutores são seguros demais, incisivos demais, arrogantes demais. Um ambiente favorável pode fazer aflorar argumentos maravilhosos de alguém que, numa roda mais hostil, se limitasse a ter vergonha e ficar calado. E qualquer mulher específica poderia, sem dúvida, ajudar a coisa a fluir, decidindo ser um pouco mais ousada e menos temerosa de réplicas incisivas.

Minha aposta é que, se estimuladas e deixadas à vontade, as mulheres poderiam, precisamente por terem um cérebro diferente, fazer contribuições que jamais ocorreriam a um homem. Mas o homem é bruto e combativo por natureza. Enquanto não provarmos o quanto podemos ser gentlemen, e estou certo de que podemos, elas bem terão razão em ficar desconfiadas e recalcitrantes.

Aliás, insisto que podemos! Sobretudo se for nosso objetivo - não vai acontecer com os que julgam, de saída, que as mulheres são incapazes.

Agora vão dizer que, muito espertinho, estou buscando a simpatia delas!

Como homem saudável, sou suspeito, fazer o quê?

IEI 9 (Família)

Março 16, 2008 by Paralelo

Família e Filhos x Amigos e Amantes
(CD & Pierre contra Diego & Paralelo)

Não lembro o posicionamento do Vitor aí, e a “súmula oficial” não o diz.

Sou da opinião de que os genes nos programaram para reproduzir (a parte óbvia) e que isto não coincide com a felicidade. O prazer e a dor são botões biológicos que os genes apertam para nos levar a propagá-los, e muitas formas de prazer imediato vêm logo acompanhadas por efeitos colaterais dolorosos ou, no mínimo, inconvenientes. Mas desde que nos tornamos racionais, começamos a ser capazes de driblar as táticas genéticas, e obter somente o prazer, sem arcar com o preço que os genes costumam cobrar para obtê-lo.

Um exemplo cristalino: sexo e filhos. Tem coisa fisicamente melhor que sexo? Mas tem coisa pior do que um filho na hora errada? Por centenas de milhares de anos, só podíamos ter aquele prazer pagando, necessariamente, o preço da gravidez - fosse desejada ou não. Isto infelizmente tornou as mulheres abusivamente seletivas (¬¬), pois pra elas o sexo significava nove meses difíceis e toda a infância e adolescência do rebento! Nem preciso dizer que, para o homem, sexo pode significar praticamente só o prazer…

Mas aí chegou a camisinha! Yeah!

Uma pena, nossos genes não tiveram tempo de “descobrir” isto e, claro, as mulheres continuam nascendo com uma psicologia seletiva… ¬¬

Mas estou digressionando (! É assim… Vi no dicionário!). Queria dizer que hoje, racionais que somos, já podemos ter o prazer do sexo sem pagar a gravidez, se quisermos. E é claro que isto nos deixa mais felizes do que a situação natural!

Então, estabeleci o princípio. Diego deve estar entusiasticamente de acordo.

E então? Será que formar família e ter filhos é um mau negócio, ao qual apenas somos induzidos pela nossa programação interessada em espalhar genes, e do qual faríamos bem em nos livrar? Penso que sim. Na verdade, acho até óbvio.

Filhos são parasitas, não abro.

Temos a doce ilusão de que nossos filhos serão crianças especialmente do nosso agrado, mas basta lembrar dos seus tios e tias irritantes (e sobretudo os tios e tias irritantes do seu parceiro!) para ver que não é isso: nossos filhos terão combinações aleatórias de genes, e pode dar qualquer coisa.

Obviamente, os genes não nos deixariam avaliar objetivamente nossos rebentos aleatórios e, por isso, nos drogam - sobretudo as mulheres - com um prazer absolutamente gratuito em nos esfolar em nome de um ser frágil e exigente (e ingrato!). Sim, temos esse prazer natural - mas duvido que ele justifique o esforço. A vida de privações e obrigações que os pais costumam levar não me atrai nenhum pouco.

Além do mais, considero de um mau gosto terrível gostar de alguém por razões químicas arbitrárias: se sua mãe fosse sua vizinha, você não veria nada demais na pessoa que ela é! O mesmo vale para seus filhos. Já os amigos e amantes, estes se escolhe! E se pode gostar deles por motivos reais, genuínos.

Esse é meu ponto.

O assunto foi só brevemente levantado, e o CD e o Pierre não fizeram nenhuma defesa do valor da família que eu consiga lembrar - apenas comentaram que têm vontade.

IEI 10 (Lógica)

Março 16, 2008 by Paralelo

Lógica objetiva x Lógica convencionada
(Paralelo contra CD - os demais indecisos)

O tema do primeiro post deste blog foi levantado no Encontro. O CD parece argumentar que as regras da lógica são frutos de convenção humana - como as regras do xadrez e do futebol. E eu penso que não. No meio disso, Diego, Pierre e Vitor tinham muito a dizer.

Mas penso que o CD não conseguiu deixar de confundir o significado do número 2 com o símbolo do número 2, vez que esteve sempre levantando o seguinte ponto: “mas o símbolo que usamos para o número 2 é uma convenção…”, como se eu estivesse discordando disto!

Recentemente, li algo de Dennett que ajuda muito aqui:

Os estudantes costumam achar muito difícil distinguir com clareza algarismos e números. Números são objetos “platônicos”, abstratos, a que os algarismos dão nome. O algarismo arábico “4″ e o algarismo romano “IV” são simplesmente nomes diferentes para uma só coisa - o número 4 (Não posso falar de número sem lhe dar um nome, como não posso falar do presidente dos EUA, Bill Clinton, sem usar alguma palavra ou palavras que se refiram a ele, mas Clinton é um homem, não uma palavra, e os números não são símbolos também - os algarismos são).

- A Perigosa Idéia de Darwin, p.138

Wow! É pra se ter ereção!

E gostei muito do “números são objetos (!) platônicos…”. Isto capta perfeitamente a minha idéia de que, em certo sentido, números (e as demais propriedades da matemática e da lógica) são como cavalos: são algo “lá fora” (fora da consciência, seja em que sentido for) que se impõem a nós, a que somos obrigados a perceber e tomar como conteúdo e significado dos símbolos que usamos (sejam quais forem: “cavalo”, “4″, “IV” - os significados deles não são convenções). Existem criaturas lá fora, a que chamamos “cavalos”, e elas são o significado da palavra; do mesmo modo, as regras da lógica são reais e absolutas de forma intrínseca, e não porque as regras foram criadas por nós.

Como foi dito no Encontro e no post acima linkado, isso é verdade para as regras do xadrez e do futebol, que de fato foram criadas por nós: se decidimos que quando a bola entre é gol, então isso é verdade. Não existe um “verdadeiro gol” ao qual nosso termo “gol” corresponde: ele corresponde a uma convenção nossa. Mas isto é falso para a lógica, pelos motivos expostos.

O Diego e o Vitor parecem concordar com isso. O Pierre tem ressalvas. Infelizmente, nada ficou muito claro. Só ficou claro que eu, sem dúvida, sou o mais radical. Mesmo o Diego e o Vitor parecem se incomodar com a afirmação paudurescente de que as regras da lógica são verdades absolutas intrínsecas e inquestionáveis.

Eles me vêm com “lógicas alternativas”, como a lógica paraconsistente, que aparentemente são capazes de justificar, e provar verdadeiras, afirmações que, segundo a lógica clássica, são paradoxos, violações do princípio da não contradição e do terceiro excluído. Não sei se exagero ao falar da paraconsistência aí. De qualquer modo, o que eu li sobre é bastante menos impressionante… A lógica paraconsistente é meramente ideal para ser aplicada em outros contextos, onde definições “tudo ou nada” não cabem - por exemplo, na questão de um avião entrando em uma nuvem difusa: está “dentro” ou “fora”? Está um pouco dentro e um pouco fora, e isto não é contradição - mas a paraconsistência é um esquema capaz de computar dados assim, apenas isso.

Na pior das hipóteses, acredito, lógicas alternativas violam a lógica clássica tanto quanto as geometrias não-euclidianas violam as geometrias euclidianas: isto é, não violam! São apenas aplicações, igualmente platônicas e seguras, em outro campo das possibilidades.

Porra, é simplesmente impossível que 2 + 2 somem 5, e que um ônibus vá a 60 km/h rumo ao Rio estando parado em relação ao Rio!

E tenho dito!

*****

Extra do DVD: A Lua

Assinalo o importante insight que o Vitor me levou a ter sobre o significado das palavras. Enquanto o Diego procurava, atordoado, o trecho de um livro que iria calar a minha boca - bem, ele não o encontrou - o Vitor e eu levávamos uma conversa paralela: qual o significado de “Lua” (em maiúscula, especificamente o nosso satélite)? O que o Di procurava insanamente era a prova (formal, clássica, consensual nos meios profissionais!) de que o significado de “Lua” deveria ser uma quimera analítica como: “C:\ objeto branco, redondo, com crateras\ redondo = esferiforme; branco = qualia X irredutível…”, assim o Vitor estava me explicando ao menos. E foi aí que a luz acendeu!

Ué, se o conceito de “branco” pode ser o qualia irredutível que enxergamos, sem se referir a qualquer outra palavra, sem ser “analisável”, então por que diabos a própria Lua, o objeto concreto, não pode ser o conteúdo e significado da palavra “Lua”? Claro, se quisermos podemos nos focar nas características específicas da Lua, e são infinitas! É uma questão de objetivos.

Mas quando dizemos “Lua”, não estamos de modo algum fazendo referência às características individuais que, somadas, dão na Lua. Se elas formam o “conceito” de “Lua”, posso apostar que o conceito nem nos passa pela cabeça quando usamos o termo! E, no entanto, nos entendemos. O conteúdo e significado de “Lua” não é um conjunto de outros conceitos, mas sim o objeto que está lá no céu e que podemos ver!

O Vitor pareceu balançado com o insight… No dia seguinte, a Lua brilhava prateada, bela! Pude comentar com o CD: “Veja: aquilo lá é o significado e conteúdo da palavra ‘Lua’!”. E sons de sininhos encantados tocaram, como a dizer “teje certo disso”.

IEI 11 (Ateísmo)

Março 16, 2008 by Paralelo

Ateísmo Militante x Ateísmo Passivo
(Paralelo & Vitor (?) contra CD, Pierre e Diego)

Estou incluindo o Vitor do meu lado do muro pelos comentários deliciosamente intolerantes que ele fez sobre os religiosos [momento em que a Lê me traz o "almoço" - são 6 da tarde! - aqui no micro, pois não paro de escrever há 5 horas... Satânica pílula de cafeína do CD!]. Coisas mais ou menos como: “tenho vontade de esmagar a cabeça de uma pessoa que escuta um argumento racional, entende, não consegue refutá-lo e persiste na teimosia da crença!”. Err… Talvez esse tipo de coisa seja parte da razão pela qual as meninas fiquem um tanto tímidas na hora dos debates, rs.

As críticas dos ateus passivos divergem.

O CD está convencido de que ateísmo militante é perda de tempo, pelo menos no caso dos religiosos mais convictos - segundo ele, é a maioria. É que eles simplesmente não vão mudar [curiosidade: estou sob efeito de cafeína e, já várias vezes, escrevo "simplismente" sei lá porque... O Word me corrige, é claro]. São teimosos e irredutíveis, e só vale à pena deixá-los quietos.

O Diego, menos se importando com a saúde mental dos religiosos, acha que há causas melhores pelas quais se lutar, sobretudo a causa do transumanismo e a apologia da tecnologia, para que ela seja capaz de superar a morte, a tempo de aproveitarmos isso. E, segundo o Diego, a causa ateísta é um desserviço à causa do transumanismo: em vez de aporrinhar os religiosos e irritá-los, é melhor buscar a cooperação deles e fazê-los se abrirem para as vantagens da tecnologia - eis o argumento.

Minha resposta é que, se for possível tornar os religiosos ateus, em vez de simplesmente bajulá-los, então a aversão à tecnologia desaparecerá automaticamente. Parece óbvio: sem Deus, por que achar que a natureza é sagrada? Ademais, o boom ateísta nos países europeus parece mostrar que militância ateísta funciona bem. Aí o Diego diz que conheceu ateus capazes de crer em astrologia; e eu digo que nunca vi isso; e ele diz que nós dois temos viés de observação pela nossa situação ideológica e social; e, por fim, admitimos que não dá pra saber quem tem razão na escassez de dados. Só um bom 38 pra resolver a pendenga…

Da opinião do Pierre não estou seguro, mas desconfio que ele acha o ateísmo militante algo arrogante, fútil e despropositado - não muito: todos concordam que desafiar religiosos é divertido e prazeroso. A questão é se serve de algo.

Eu discordo perigosamente deles.

Meu ponto se baseia em suposições ousadas, e quase certamente inseguras, sobre a natureza das emoções morais e a relação do sentimento religioso com elas. O post deste blog, Profanando Jesus, mostra meu ponto em maiores detalhes.

Basicamente, concordo com o CD que o religioso típico é imune a argumentos racionais - mas só no sentido estrito de que estes, sozinhos, não são suficientes para demover um religioso, mas (e aí discordo do CD) sem dúvida ajudam a fazê-lo. A religião é uma postura moral, não racional - mas se o religioso percebe que a razão não está do lado do “sagrado”, sem dúvida isto fragiliza sua fé. Mas quem vai fazer o trabalho final de demover de vez o religioso - e penso que isto está acontecendo massivamente hoje - não é a razão, e sim o que Dawkins chama de Zeitgeist Moral ou, como eu simplifico, a opinião da maioria.

Se eu estiver certo, o ateísmo militante faz sentido justamente pelo barulho que faz.

Se eu estiver errado, não. E é tudo.

É muito mais fácil ser religioso (e acreditar em coisas que, se verificadas com cuidado, se revelariam absurdos) quando todos os outros tratam a religião como sagrada, em vez de quando há muitos que se riem publicamente do suposto “sagrado” e, pior, constantemente minam o esforço religioso de evitar a tentação de questionar (eis o papel importante, embora de coadjuvante, da razão).

Todo o sagrado é uma conspiração! O sentimento do sagrado só se produz com base na percepção de que a maioria vai te deixar no ostracismo, caso você ouse ser menos do que completamente ortodoxo quanto ao tabu em questão. A sensação do sagrado, do intocável, é (posso apostar) a maneira que a seleção natural criou de assegurar que o indivíduo não se torne um pária, um socialmente excluído. Quando ele começa a perceber que pode pensar diferente sem ser molestado por isso, a força do “sagrado” se esvai em fumaça.

Por isso, ateus uni-vos!

IEI 12 (Indutivismo)

Março 16, 2008 by Paralelo

Indutivismo Instrumental x Indutivismo Objetivo
(Todos! contra Paralelo)

Aqui eles até riem de mim, juro!

Estou contestando uma tradição filosófica basilar, quase um atestado divino de como a Filosofia pode urinar no pátio da Ciência e sair impune.

A questão é: há justificativa racional para extrair regras gerais (ou pelo menos conclusões além) de casos particulares? A filosofia desde Hume, e por causa dele, tem aceitado, no maior deboche e cinismo, que não - que usar regularidades observadas (os casos particulares) para prever o futuro (fazendo uma lei, que é a regra geral; ou meramente apostando na continuidade do padrão) é uma atitude arbitrária, sem qualquer sustento racional em seu favor, cujo único valor é “instrumental”.

Instrumental? A idéia é que o indutivismo “funciona, mas não é verdade”. Isso me faz pensar em como um mapa que marca o X do Tesouro no lugar correto pode ser “falso, porém útil”. Só pode ser útil se for verdadeiro, é claro. Se as regularidades observadas não persistissem de fato, o indutivismo não teria valor “prático” algum.

Meus amigos intelectuais não são relativistas. São amantes da ciência e defendem avidamente o seu poder cognitivo. Então, surpreendem-me que, no maior ar de paternalismo, queiram me consolar com a idéia de que o indutivismo não precisa de justificativa para podermos confiar na ciência!

Pressionados, contudo, sentem o drama. Se estiverem certos, eis o que teremos: acreditar que um copo largado no ar, da próxima vez, subirá (ou ficará verde; ou quebrará no ar) é algo “tão (ir)racional quanto” pensar que ele cairá - como sempre fez no passado. É claro que isto não nos deixa confiar na ciência!

Tanto faz montar o avião segundo as técnicas de engenharia clássicas, ou segundo a leitura de búzios: nada é realmente melhor. Entendam: não existe motivo nenhum (!) para preferir a montagem do avião segundo as técnicas de engenharia. Em suma: não há motivo nenhum para esperar que qualquer padrão (no caso do avião, as leis da física e os padrões dos materiais) que persistiu até hoje, persista no próximo momento.

Meu primeiro ponto, então, é: não faz sentido concordar com Hume sem, ao mesmo tempo, cair no relativismo de qualquer conclusão indutiva - toda a ciência incluída aí!

Agora, eu penso que o indutivismo é justificável com base em argumentos probabilísticos que desembocam - evitando a circularidade de o indutivismo ser embasado no indutivismo - em argumentos “platônicos” (ê, Dennett!) sobre o universo de possibilidades lógicas. Sim, foram levantadas críticas poderosas e legítimas contra minhas idéias, e continuo as digerindo. Mas, resumindo, meu argumento é (pegando papel de anotações recentes):

1- No universo das possibilidades lógicas, existem (muito) mais disposições caóticas do que disposições regulares, portanto…

2- Disposições regulares são mais improváveis de ocorrer por acaso do que disposições caóticas. Portanto…

3- Um regularidade observada provavelmente não é fruto do acaso - ou seja, provavelmente é causada.

4- [Isso vai doer:] A causa sem dúvida persistiu ativamente enquanto a regularidade foi observada - ela tende a persistir.

5- É improvável que a causa persistente seja aleatoriamente interrompida num momento específico - portanto, é improvável que seja aleatoriamente interrompida no próximo momento.

6- Ergo, é provável que uma regularidade observada persista no próximo momento! [Fogos de artifício!]

Há uma avalanche de críticas e, sobretudo, pontos confusos e mal compreendidos aí. Infelizmente pra mim, o argumento parece tão absurdo a princípio, para meus amigos, que eles preferem lutar para esquecê-lo a colaborar numa investigação minuciosa dos detalhes… Como eu disse, continuo digerindo as críticas. O filho é meu, eu que cuide!

Escusado dizer, o Diego acha que minha insistência é fruto de maus-tratos na infância.

E, yeah!, até a próxima rodada!

O Fim do Sagrado (Profanando Jesus)

Março 2, 2008 by Paralelo

Há um movimento sujo no orkut. Sujo, e bem-vindo! Quando minha querida e doce Maíra, uma ateísta não extremamente convicta, soube da comunidade Jesus Devia Ter Apanhado Mais, e seus mais de 60 mil membros, torceu seu belo narizinho: “Ah, não gostei da comunidade. Bobagem”. Aí eu disse: “Não é nada intelectual, mas é fincar uma bandeira importante: o direito de não tratar ícones religiosos como ‘sagrados’. Pessoalmente, acho uma delícia, rs”.

Ela, concedendo: “ah… é…. pode ser. Mas ainda assim é meio infantil”.

Eu: “vamos e venhamos: é uma linguagem perfeita pro religioso médio ENTENDER a mensagem… nada de filosofia ou refinamento, apenas a provocação pura e simples… é um trabalho sujo, mas é bom ter alguém fazendo isso… irreverência é sempre um ótimo sinal de que os poderosos estão perdendo a pose, afinal”.

E mudamos de assunto.

Eu acho, a sério, que este tipo de “infantilidade boba” é importantíssimo, e vou dizer por quê: ser religioso não é uma postura racional (digo, fruto de reflexões intelectuais), mas essencialmente moral; e a moralidade depende sobretudo da opinião da maioria. Quando o indivíduo começa a perceber que a maioria está mudando, seus sentimentos morais começam a afrouxar. O que se conclui disso?

Que a melhor maneira de convencer um religioso a mudar não é argumentando, mas persuadindo-o de que a maioria, ou cada vez mais pessoas, está reconsiderando o valor sagrado (moral) da religião.

Analisemos rapidamente a força da sensação moral.

Suponha que irmãos façam sexo seguro e gostem: parece horrível? Para a grande maioria certamente sim. Incomoda. E é um incômodo moral. Como sabemos que é moral? De dois modos: primeiro, se achamos que é errado não só pra nós, mas para todos! Segundo, e mais certeiro, se não temos argumentos para explicar por que é errado. Por que irmãos não podem fazer sexo seguro, caso gostem? Nem tente: não há razão alguma para impedi-los. Você apenas sabe que a maioria das pessoas tem ojeriza ao incesto e, por isso, sente que é absurdo ir contra o senso comum.

É o típico sentimento moral: forte e inexplicável, ele apenas te controla.

Quando você descobre que 50% dos irmãos criados separadamente se apaixonam de modo fulminante ao, já adultos, se verem pela primeira vez (isso é verdade), então o ódio ao incesto começa a arrefecer.

É por isso que não há iniciativa melhor do que um simples e bombástico Jesus Devia Ter Apanhado Mais. É o tipo de coisa representativa e barulhenta que balança um religioso, e ele não pode evitar: “Quer dizer que 60 mil pessoas tratam o ‘sagrado’ assim? Será mesmo sagrado? Será que eu preciso mesmo ser religioso?”. A comunidade, aliás, foi deletada do orkut algumas vezes, certamente por ser considerada ofensiva aos religiosos. Mas o título dela, considerado bobo e infantil pela Maíra, também é esperto: não é “os religiosos são burros” ou algo assim. É uma opinião sobre um personagem histórico e, provavelmente por isso, a defesa colou e a comunidade deixou de ser deletada. Na verdade, o argumento é:

“Ele veio para pagar os nossos pecados e não apanhou nem 5 minutos! Homem frouxo.”

E não é que é verdade?

Paralelo off-line

Fevereiro 24, 2008 by Paralelo

O site, este blog e qualquer outra manifestação minha na internet estão, por agora, paralisados. Há uma semana e meia o modem queimou, e a loja pode enrolar mais duas para devolver o micro. Enquanto isso estive em um encontro intelectual de amigos magnífico que, assim que puder, vou detalhar aqui. Falamos de tudo: poligamia, lógica, trabalho, ateísmo, status, etc.

Até breve!

Por que a lógica é absoluta?

Fevereiro 12, 2008 by Paralelo

Carlos Daniel, amigo da Internet, me envia um texto. Tese: as verdades lógicas são absolutas, porque todas as verdades lógicas são fruto de significados e regras estabelecidos por nós. Acho que não era a intenção dele dizer algo tão radical, mas foi o que ele pareceu dizer. No momento chave do texto ele diz:

Por exemplo, definimos o conectivo “e” (que é um símbolo) da seguinte maneira.

• se A for verdadeiro e B for verdadeiro então “A e B” é verdadeiro
se A for verdadeiro e B for falso então “A e B” é falso
se A for falso e B for verdadeiro então “A e B” é falso
se A for falso e B for falso então “A e B” é falso

esse significado independe da experiência. É uma definição, independe do que é e não é no mundo. Assim sendo, se eu fizer o argumento:

A é verdadeiro e B é verdadeiro, logo “A e B” é verdadeiro.

Trata se de um argumento absolutamente correto e necessário. Se eu fizesse:

A é verdadeiro e B é verdadeiro, logo “A e B” é falso

Seria uma gritante contradição, visto que o significado de “A e B” é que se A for verdadeiro e B for verdadeiro, “A e B” será verdadeiro.

Na sua conclusão:

Verdades lógicas (que são analíticas) são independentes do estado de coisas do mundo justamente porque não afirmam nada sobre o mesmo. São necessárias porque são tautologias: tautologias são justamente verdades verdadeiras em qualquer mundo possível e cuja negação é uma contradição.

E ponto chave dele é “as verdades da lógica dependem somente do significado dos símbolos que usamos nelas”. O que isto significa? Que se é verdade que o conectivo “e” funciona assim, é porque - e somente porque - nós decidimos que ele deve funcionar assim. Não é difícil de entender: se nós decidimos que o xeque-mate termina uma partida de xadrez, é verdade que ele termina; se decidimos que aborto é crime, então é verdade que aborto é crime. Nós criamos as regras e os significados e, assim, criamos uma série de coisas verdadeiras.

Isto me parece uma vitória deprimente do poder da lógica.

Pra começar, é possível convencionar regras para um “xadrez alternativo”, onde fosse verdade que “xeque-mate” significa repor uma peça no tabuleiro; mas não é possível convencionar uma “matemática alternativa”: suas regras não são convenções. Do mesmo modo, as regras da lógica também não são convenções.

Então será que “as verdades da lógica dependem somente do significado dos símbolos que usamos nelas”?

Sim, é claro: mas há dois tipos de significados. Os criados por nós, e os que nos são impostos de fora. Significados de termos como “xeque-mate” e “gol” são obviamente criados por nós. E significados de termos como “cavalo”, “céu” e “árvore” nos são impostos de fora, pelos objetos concretos a que se referem. No texto, meu amigo parece sugerir que o significado do conectivo “e” é, de algum modo, criado por nós. Será?

Eu penso que este significado é imposto “de fora”, como no caso de “cavalo”. Mas, no caso do conectivo “e“, onde está o cavalo? Talvez me digam: “querido, não tem cavalo”. Ou seja, não há nada “lá fora” que corresponda ao significado do conectivo “e” - este significado é inventado por nós, como em “gol”.

Isso dói no cérebro!

Podemos decidir que “gol” significa algo diferente do que, agora, entendemos por “gol”: basta mudar as regras do futebol. Mas não podemos dizer que “e” significa algo diferente do que agora entendemos por “e“! Por outras palavras, não existe fora de nós um “verdadeiro gol” ao qual nosso termo “gol” se refere, mas parece existir um “verdadeiro ‘e‘” ao qual nosso termo “e” se refere.

Então pergunto de novo: onde está o cavalo? É difícil apontar, mas sem dúvida é a coisa que dá sentido às frases “Platão e Nietzsche foram comprar pão” ou “Há estrelas e planetas no Universo” - ao contrário de “gol”, e conectivo “e” não é algo que possamos fazer inexistir apenas mudando as regras!

O termo “gol” se refere a algo abstrato, que nós criamos; mas assim como o termo “cavalo” se refere a algo concreto, que existe fora de nós (o cavalo!), o termo “e” também se refere a algo concreto, e que existe fora de nós: não um objeto físico, mas algo como o padrão de relações entre entidades, sejam elas abstratas (”2 e 4″ ou “unicórnios e duendes”, por exemplo), sejam elas concretas (”o gato e o Kiko”, supondo que os vimos juntos).

Isto obviamente cria complicações.

Suscitará objeções (na verdade ódio) em alguns bons amantes xiitas de filosofia (vão se indignar por eu sugerir que uma “abstração lógica” é tão concreta quanto um cavalo) mas, acima de tudo, me leva para direções interessantes.

É que passei a tarde pensando e rabiscando.

Por causa do texto do Carlos Daniel, e da reflexão que fiz em cima dele, começo a pensar que a clássica distinção entre “conhecimento puro” e “conhecimento empírico” é furada, que o termo “concreto” não precisa ter significado apenas para coisas físicas e, pra piorar, que o termo “empírico” pode ser legitimamente aplicado a conhecimentos ditos abstratos e “independentes da experiência”, como as verdades geométricas, lógicas e matemáticas.

Se isto der em algo, o site terá uma matéria sobre.

Se não der, posto o lixo aqui no blog.

A Substância da Realidade

Janeiro 2, 2000 by Paralelo

Matéria, tempo, pensamento: de que são feitos?

Qual o princípio de todas as coisas?

Esta é considerada por muitos a maior de todas as questões.

Mas dita assim, de forma tão direta, não parece grande coisa. Pois o que querem dizer com “princípio” de todas as coisas?

(…)

Imagine que o Universo fosse feito de peças de Lego, como naquelas paródias de filmes de sucesso como Star Wars e Homem-Aranha. Nós, os habitante Legais (err…) deste Universo, talvez começássemos perguntando, à francesa, como os antigos pesquisadores:

de que é feito,
ó, de que é feito?
de que é feito meu corpo?

A resposta? Plástico.

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Ilusões Éticas

Janeiro 1, 2000 by Paralelo

Como beleza, pureza e status se confundem com a virtude

Peter Jackson disse que a saga O Senhor dos Anéis, por ele dirigida, havia se baseado no mesmo ethos da saga Star Wars. Ethos? (…) Então, lendo recentemente um texto sobre ética, sou pego de surpresa pela seguinte explicação: “A palavra ‘ética’ relaciona-se com ‘ethos’, que em grego significa hábito ou costume”. E o Houaiss, na etimologia do termo “ética”, registra: Êthos: ‘modo de ser, caráter, costume’.

(…)

…uma revelação: graças à nossa história evolutiva, é universal na natureza humana a tendência instintiva a criar confusão entre pureza (limpeza ou sujeira), status (nobreza ou pobreza) e estética (beleza ou feiúra), por um lado, com virtude moral (a bondade ou maldade de alguém), por outro.

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