Estamos em uma Realidade Virtual!

Agosto 29, 2009 por Paralelo

Estava, agora mesmo, passando pela centésima quarta página do famosamente assombroso A Essência da Realidade, do físico teórico e-claramente-mais-que-isto David Deutsch. De fato, este era um livro que eu queria ler há mais de dez anos. O original em inglês, The Fabric of Reality, assustou até Richard Dawkins! Finalmente achei a versão nacional em um sebo – rara, me custou 90 paus!

Pois bem!

Deutsch, de forma não proposital (pois na verdade o objetivo dele, igualmente louco, mas diferente, é nos convencer da existência de um universo paralelo para cada possibilidade física), praticamente me convenceu de que estamos numa realidade virtual, ou de que há uma razão fortíssima pra desconfiarmos disto.

Ele falava, mais ou menos, sobre a situação epistemológica de um ser que estivesse aprisionado numa simulação de xadrez – que fosse, digamos, o Rei. O que ele poderia saber? Em tese, só poderia conhecer as “leis da física” do xadrez, isto é, as regras do xadrez. Mas Deutsch nos diz que esse Rei também poderia saber que as regras do xadrez, sozinhas, não explicam sua própria inteligência e percepção do xadrez. Logo, o Rei poderia deduzir que aquele “mundo xadrez” necessariamente faz parte de um mundo mais amplo, um mundo cujas regras possam explicar as capacidades do próprio Rei.

Deutsch pára aí.

Mas então eu pensei: “eeeeeiii!!! E as leis da física do nosso mundo, explicam nossas capacidades?!”

Como estou persuadido de que as leis da física, pelo menos do modo como são hoje entendidas, não podem explicar sobremaneira a mente e a consciência (mesmo Dennett, o maior defensor da ideia contrária, admitiria que não fazemos ideia dos detalhes), pensei que estamos na situação do Rei! Nosso “mundo físico” deve ser uma simulação, e o mundo real deve ser tal que suas leis e regras expliquem confortavelmente a existência de nossa mente e consciência – que, por ora, estão dentro desta realidade virtual.

E, pensando mais, isto nos dá até uma diferenciação satisfatória e clara entre “mundo real” e “mundo virtual” – sendo o mundo real aquele que explicar, em sua base, a relação sujeito-realidade.

Como diz Deutsch, descobrir algo desta natureza não seria nenhum escândalo: se trataria apenas de descobrir que estivemos estudando, até agora, uma parte menor da realidade do que pensávamos – o que se deu em praticamente todos os avanços da compreensão científica.

* Parece louco? Bom, vim postar no impulso! :)

Despedida de Ontólogo

Julho 25, 2009 por Paralelo

* Ontólogo é quem estuda ontologia. Err…
**
Ontologia é o estudo do Ser, isto é, de… o que realmente existe?

Aos 27 anos, tenho uma ontologia.

Isso deve ser algum tipo de marco intelectual interessante.

E como estou prestes a iniciar uma jornada intelectual fanática – leia-se ler de tudo, e muito, e rápido – e, assim, muito provavelmente mudar minha ontologia no meio do caminho, deixe-me comemorar essa espécie de “despedida de ontólogo” expondo-a (ok, as despedidas de solteiro são melhores).

Creio existir uma ordem objetiva independente da mente, e por isso sou materialista – mas com a controversa ressalva de que “matéria”, a meu ver, significa qualquer coisa que seja a natureza fundamental dos fatos objetivos que observamos. Quando vemos ou tocamos uma cadeira ou uma árvore, são mesmo uma cadeira ou uma árvore fora de nós – não ponho dúvidas sobre isso. Mas elas poderiam ser feitas de átomos democritianos (realmente indivisíveis), quarks, energia, supercordas, projeção holográfica ou mesmo bits. Não me comprometo com a alegação de que elas devam ser físicas, pelo menos no sentido intuitivo da palavra, que espera alguma “substância concreta” na base de tudo. Elas são materiais, seja lá o que for “material”. O que elas não são é mentais ou fictícias, eis o ponto-chave. Estão fora de mim, são objetivamente reais e possuem as propriedades macroscópicas (ou melhor, superescalares) por mim percebidas: peso, altura, posição, forma, etc.

Meu palpite é que a matéria não é feita nem de bits nem de átomos (em última instância, digo), mas de “possibilidades lógicas”. O argumento é complexo e é explicado aqui, mas, pra resumir, as possibilidades lógicas são as únicas coisas cuja inexistência é impossível – por exemplo, é impossível que não exista a possibilidade de você vencer na loteria. Se possibilidades lógicas têm que existir, então só podem ser elas que estão na base de toda a existência. A implicação é que Deus não pode existir, porque não pode existir um criador para algo cuja inexistência era impossível. Deus nunca teve a opção de criar uma realidade onde dois mais dois fossem cinco, por exemplo, ou onde não fosse possível você ganhar na loteria.

Fora de mim, é isso.

Contudo, creio existir um “dentro de mim”. Tecnicamente, sou realista fenomenal, isto é, acredito que a consciência e suas propriedades realmente existem, em vez de serem alguma espécie de ilusão. Acredito que a dor existe, que o prazer e a felicidade existem, e que a vermelhidão existe. Não é que tais coisas existem “de modo X”, mas sim que existem exatamente do modo como nos parecem, e de nenhum outro modo. Em outras palavras, minha subjetividade sou eu próprio, nem mais, nem menos – e, portanto, sou plena autoridade pra saber sobre mim.

A ressalva, aqui, é que não incluo no meu “eu”, ou na minha subjetividade, qualquer aspecto que seja inconsciente. A palavra já diz: fora da consciência. Evidentemente, só faz parte de mim o que está na minha consciência, aquilo de que sou consciente. Portanto, quando digo que sei tudo sobre mim, não é uma boa objeção dizer que, na verdade, eu não sei que uma série de memórias minhas são falsas – como é bem provável. O que sei – de forma plena e indubitável! – é que tenho acesso a tais memórias. É disto que sou consciente. Não tem nada a ver comigo (meu eu) o fato de que tais memórias são falsas – isto é algo causado pela parte inconsciente do meu cérebro e, portanto, não é algo sobre minha consciência e do qual eu não seja consciente – o que, dito assim, se mostra claramente absurdo. Da minha consciência, sei absolutamente tudo.

E, aliás, é exatamente por saber absolutamente tudo da minha consciência que posso, por exclusão, saber exatamente o que está fora de mim. Como dono da minha subjetividade, sei o que não está dentro dela e, portanto, só pode estar fora.

Acredito que a subjetividade é um mistério, contudo. Ela é tão factual quanto o próprio mundo exterior, objetivo, que todos nós percebemos. Porém, parece ser incompatível com ele – ou, pelo menos, completamente desvinculada. Meu palpite, sobre isso, é que quando o processamento cerebral chega ao ponto de estabelecer metas e objetivos, é de algum modo logicamente forçado que tal finalidade geral, ou telos, convirja num ponto virtual, o eu. Do mesmo modo, só se pode processar imagens vendo, e só se pode processar um dano sentindo dor. O importante é que as metas e objetivos implementados pelo cérebro exigem um centro virtual ativo – tanto quanto o formato do círculo exige o valor de pi.

De todo modo, não sabemos como isso ocorre.

Pelo mesmo motivo, acredito que o livre-arbítrio não possa ser descartado. Enquanto a ordem objetiva é determinista (ou aleatória, tanto faz), a subjetividade parece ter acesso a um fato estranho: se há desejos e objetivos, há meios diversos para concretizá-los. Portanto, é possível concretizá-los por qualquer um dos meios disponíveis. Eles estão disponíveis, sendo esse o fato estranho ao qual qualquer indivíduo tem acesso direto. Isto é escolher, e implica que a árvore causal cuja raiz está na escolha de um indivíduo nem se apaga, sendo aleatória, e nem possui apenas um ramo, estando pré-determinada.

Isto sem dúvida entra em choque com o que sabemos sobre a causalidade na ordem objetiva (isto é, no mundo lá fora). Mas isto só significa que temos um impasse a resolver. Se a subjetividade entra em conflito com a objetividade, não há razão para privilegiar automaticamente a segunda. Tanto mais porque a própria consciência é subjetiva e, a julgar pelas leis da física, não deveria existir. E, no entanto, ela existe, contra tudo o que sabemos sobre as possibilidades da matéria. Não seria grande surpresa que o livre-arbítrio, sendo outro dado subjetivo, também prevaleça sobre o que, por hora, achamos saber sobre a realidade.

A implicação mais importante da minha ontologia é esta: na morte, o processamento cerebral morre, portanto morre o eu virtual. Não há vida após a morte, pois. No entanto, existe a possibilidade de copiarmos o padrão de processamento cerebral, de modo que nossa existência – que já é virtual mesmo, em todo caso – continue num computador, por exemplo (e, claro, possa esperar o avanço da tecnologia, para retornar a um corpo, se é que isso será importante).

E é basicamente isso. Há um mundo lá fora, espacial, material e cuja natureza última desconhecemos – a teoria das supercordas é nossa melhor tentativa de chegar lá, creio. Mas acho que, mais fundo ainda, possibilidades (cuja inexistência é impossível) subjazem a tudo. São tudo, melhor dizendo – de modo que não podem ter sido criadas, não havendo Deus, portanto. Dentro deste mundo há cérebros que, num certo ponto da evolução biológica, começaram a implementar objetivos reais, isto é, metas, intenções. Isto forçou a existência de um ponto central no programa, o eu. Forçou a distinção entre a entidade (que possui o objetivo) e o resto (o ambiente no qual se age). Por fim, a existência de metas e intenções abriu a árvore causal através dos diversos meios disponíveis para realizar tais metas. É o livre-arbítrio.

Talvez a soma de prazer e dor mais livre-arbítrio realmente fundamente alguma ordem moral. Mas, por hora, isto não faz parte de minha ontologia. Sigo sendo amoral.

Depois de dezenas de mais leituras sobre o fundamento da vida, do universo e de tudo o mais, será que vou mesmo mudar minha ontologia? Poxa, está tão arrumadinha…

Um Causo Nerd…

Junho 29, 2009 por Paralelo

Ok, essa mereceu vir parar aqui.

Eis que Diego manda o seguinte e-mail para a turma do Encontro Intelectual, divulgando a bizarra conversa de messenger:

> (21:04:03) Jonatas: oi
> (29-06-2009 00:13:37) Diego: que absurdo
> (00:13:56) Jonatas: o q?
> (00:14:19) Diego: oi
> (00:14:27) Jonatas: oi
> (00:14:36) Diego: o q?
> (00:14:44) Jonatas: “que absurdo”
> (00:14:49) Diego: oi
> (00:14:51) Diego: Viva!
> (00:14:55) Diego: um palindromo completo
> (00:15:06) Diego: Hofstadter ficaria orgulhoso

:o Não é todo dia mesmo!

*****

Sobre site e blog: absurdo, mil coisas prontas e pura preguiça de publicar! =X

Escrever é F*** O Valor de Escrever

Maio 19, 2009 por Paralelo

Nós, seres esquisitos que escrevemos coisas, gozamos de um ponto de vista que é privilegiado, em relação aos que também gostam de idéias, mas não escrevem.

Explico:

Tem sido bastante normal, pra mim, sentir que meus monólogos interiores e pensamentos – sejam sobre algum enigma filosófico, alguma questão social ou qualquer tipo de insight – estão perfeitamente maduros, coerentes e desenvolvidos.

Mas toda esta convicção, toda esta aparência de ter idéias profundas, vai por água abaixo assim que sento pra escrever as “brilhantes idéias” que tive em puro pensamento. De repente, os vazios aparecem, as contradições ficam evidentes, as peças não encaixam tão bem. E o texto é um parto pra sair.

E aí, para que a coisa aconteça, é preciso alguma pesquisa, pesados raciocínios, revisões e revisões, cada uma mirando um aspecto da idéia: coerência, moderação, compatibilidade com o que já se disse antes, presença de exageros ou bobagens, etc.

Claro, depois de todo este exercício, afinal já se tem uma boa idéia – de verdade – do ponto em questão!

=)

Agora, se eu não me preocupasse em escrever, continuaria sempre com a sensação intuitiva de que, sim, eu já havia compreendido perfeitamente bem a idéia que tinha em mente.

Quem não escreve fica sobrando nessa.

E, bem… não há como suavizar esta dura verdade. =\

Você não escreve?

Azar, amigo. Se f*****

Teaser Paralelo

Maio 10, 2009 por Paralelo

Estamos numa época de correria filosófica (isso no meio e adjacências, claro, rs), com muita gente deslumbrada por soluções bizarras para os problemas clássicos da busca pela verdade, ansiosas por fingir que estão entendendo o que na verdade é nonsense, de modo a serem tidas como intelectualmente superiores pela sua estranha habilidade mental. Trocam a grandeza da realidade por esta vaidade momentânea. A mim, imune à febre gerada pelo coro, acusam de estar me apegando a um otimismo obsoleto – ainda desejando a Verdade, a Razão e a Objetividade em seus mitológicos trajes prateados e gloriosos. Não sou atingido por tais críticas, por saber – no que é uma análise interior clara e simples – não estar motivado por necessidades psicológicas, mas percebendo, ao contrário, que o velho e bom raciocínio encontra, por trás de toda essa balbúrdia, o sutil sentido que tentam suprimir em vão.

III Encontro Intelectual

Março 14, 2009 por Paralelo

III Encontro Intelectual

O Encontro Intelectual é um evento informal entre uns certos amigos arbitrários da filosofia, da ciência e da intelectualidade em geral. Nerds, pra resumir. Os números romanos usados nos títulos dos eventos geram as abreviações exóticas a seguir:

I-EI – lê-se “i êi”. 16 a 18/02/08, Moema, São Paulo.

II-EI – lê-se “bi êi”. 01 a 04/08/08, Moema, São Paulo.

III-EI – lê-se “tri êi”. 21 a 24/02/09, Mairiporã, São Paulo.

IV-EI – lê-se “ivêi”.

Claro que o IV-EI ainda não ocorreu (aliás, Victor percebeu que a 14ª edição será o XIV-EI ["xí, véi..."]). Quanto aos eventos anteriores, tiveram cinco membros no primeiro, e seis membros nos seguintes – com a inclusão do último da lista:

CD (Carlos Daniel) – Medicina, RJ

Conde Di (Diego Caleiro) – Filosofia, SP

Paralelo (Lauro Edison) – Diletante profissional =) PA/SP

Sir Pi (Pierre Caradec) – Engenharia, SP

Vic Mart (Victor Martini) – Filosofia, SP

JôLou (João Lourenço) – Filosofia, SP

Eu entrei nessa história porque conheci CD no orkut, que conhecia Pi e Di (pelo orkut), que conhecia Jô e Vic (pessoalmente). Quando organizaram o IEI (cuja cobertura se pode ver aqui), eu estava na hora e lugar certos, e fui convidado.

O legal dessas reuniões é a mistura de idéias em comum (não existe mágica no mundo, a psicologia evolutiva está correta, Deus está morto, Dennett, Pinker e Dawkins é que são Deus, o aborto de anencéfalos é ok [foda-se o Papa], etc.) e de discordâncias em todas as formas e divisões: todos contra todos, dois contra quatro ou um contra todos, em todas as combinações – só depende do tema: trabalho, moral, poliamor, status, sexo. Todo tipo de subgrupo se forma!

Mas o III-EI não foi bem assim.

Dessa vez evitamos os temas mais sociais e focamos quase totalmente em alta filosofia. O resultado foi que, na maior parte do tempo, eu me vi discordando de cinco relativistas enrustidos! Revivemos ali o eterno choque da filosofia entre, de um lado, relativismo (não existe a razão) e, de outro, metafísica (a razão é um poder mágico além da matéria). São duas opções intelectualmente péssimas, mas é difícil se situar em um ponto seguro entre as duas. Agora, eu não ouso arriscar ser relativista, e eles não ousam arriscar ser metafísicos. Por isso eu os acuso de relativistas, e eles não aceitam; e eles me acusam de metafísico, e eu não aceito.

O III-EI foi, portanto, uma batalha de minha defesa otimista do poder da razão contra as diversas posições debilitantes defendidas por eles: que a razão é um “mero jogo humano de axiomas arbitrários” (by CD), que a matemática foi “inventada” (ouvi até defesas de que 2 + 2 podem somar 5!), que a consciência é capaz de se iludir até sobre si própria (queria ter filmado CD dizendo: “eu não vejo o vermelho; creio que vejo, mas posso estar enganado” :o ), que a mente ser encarnada mostra o quanto nossos pensamentos são arbitrários e pouco confiáveis (by Vic), que os padrões da matéria só estão em nossa cabeça (by Pi), que probabilidades são sempre chutes no escuro (by JôLou), que os objetivos humanos não existem e são apenas “um modo de falar” (by Di)… Céus, do meu ponto de vista quase dava pra se chamar o evento de Encontro Antiintelectual! =)

Mas a verdade é que foi o melhor dos três. Saibam aqui (no meio do post) sobre os agradáveis aspectos não-intelectuais do evento! Isso deixou a todos mais tenazes do que jamais foi possível nos dois eventos anteriores. Sobretudo no II-EI cansamos muito.

A seguir, minha cobertura (bem) mais específica do III-EI. O que vou fazer não é tanto descrever os debates do evento, mas sim dar prosseguimento a eles – embora para o leitor eu os descreva o suficiente para que o texto se torne inteligível. Claro: como eu estive quase sempre sozinho defendendo meus pontos, e como sou eu quem vai escrever aqui, essa “cobertura” é também um conjunto de réplicas minhas.

3EI 1 – As Pérolas!

Março 14, 2009 por Paralelo

PÉROLAS DO TRI-EI

É impressionante como, no meio dos blá-blá-blás dos debates, saem frases que são verdadeiras obras de engenharia do absurdo:

“Não… Isto aí é o substrato ontológico genérico”
- Carlos Daniel, “explicando” algo sobre… algo?

“A Biologia é um chute”
- Pierre Carradec – fora de contexto, mas disse!

“Cada um fala em silêncio, por favor!”
- Lauro Edison, parece que sobre a telepatia.

“Você não pode fazer um argumento por apelação etimológica”
- Diego Caleiro, fundando um novo tipo de falácia.

“O infinito está ali, ponto!”
- Lauro Edison, recorde de dogma mais ganancioso.

“Peraí, deixa eu variar os mundos…”
- Victor Martini, ocupado com um raciocínio pelo visto muito pesado.

“Onisciência – seu epistemológico é o ontológico”
- Diego Caleiro, descobrindo a essência de Deus.

“Se há 300 opções, posso escolher e só pode ser aleatoriamente. Não há determinismo nenhum nessa porra!”
- Lauro Edison, vítima da distorção da mente encarnada.

Quando falávamos sobre Kripke e seus mundos possíveis, designadores rígidos para conceitos e nomes, estrela da manhã e da noite (ambas são Vênus), verdades necessárias a posteriori e contingentes a priori, o tema ficou tão confuso e enrolado que JôLou mandou essa série de confissões:

“Eu não sou homem!” [ok, estava implícito: "e sim apenas um nome, neste exemplo"]
- João Lourenço, quase saindo do armário graças à metafísica de Kripke.

“Eu posso ser o João do dia e o João da noite. O João da noite é mulher”
- João Lourenço. Bom… Saiu do armário de vez.

“Eu rigidifiquei o CD” [num uso interessante dos designadores rígidos de Kripke]
- João Lourenço, afinal entrou em ação!

“Não passem chocolate com cacau 85% no pau”
- João Lourenço. Bicha pós-moderna.

Noutras tantas, falávamos sobre certos homens que nascem com vantagens de cognição femininas – por exemplo, capazes de prestar atenção em mais de uma coisa. Alguém disse: “é, são mulheres…”. Diego, num clássico do machismo, e vaidosamente erguendo o dedo, declamou: “São supermulheres!”

Mas nem só de abobrinhas se entope o báu do tri-ei.

Em uma frase, Victor pode ter derrubado todo o sistema ontológico que defendi no bi-ei, o neomaterialismo. Basicamente ele disse que “Ser é ser algo. Isso me fez pensar bastante. Não existe “simplesmente ser”, o “ser puro” de Parmênides. Ser é ter propriedades, o que pode jogar por água abaixo minha ontologia. Belo insight! Ainda vou pensar melhor nisso.

Em outra frase, puxada de Wittgenstein no momento exato, CD me tirou uma angústia filosófica que eu julgava irrespondível: como é possível que nosso campo visual tenha limite, mas nós não vejamos este limite? A resposta súbita e completa: “Para ver uma fronteira é preciso ver o outro lado da fronteira”. Pronto, estou curado!

Por fim, e fabuloso, Pierre propõe um teste para a idéia de que a visão em cores é determinada pela linguagem. Alega-se que certos povos possam perceber menos tons de verde, por exemplo, por ter poucas palavras para “verde”. Mas então é só lhes mostrar duas fotos de bolas verdes iluminadas: uma com um degradê perfeito (do verde claro até o verde escuro) e a outra, com péssima qualidade, com um degradê quebradiço, que inclua no máximo uns seis ou oito tons de verde. E voilà: se a tese ali for correta, é de se esperar que o povo enxergue as duas bolas como quebradiças, em vez de ver a variação gradual, e sem quebras, que nós vemos na primeira.

=)

3EI 2 – Menos Filosóficos…

Março 14, 2009 por Paralelo

TEMAS MENOS FILOSÓFICOS

Apesar de tudo, falamos de vários temas nem tão filosóficos. Por exemplo, Diego, que passou um tempo nos EUA, fez uma apresentação sobre como conseguir fazer pós-graduação, sendo brasileiro, numa grande faculdade como o MIT ou Oxford. Conclusão: esforce-se o dobro do que é possível para ter 1% de chance de chegar perto da oportunidade de, ocorrendo algum erro no sistema, você dar sorte. Pois a cada 5 vagas há 50 pessoas melhores do que você, das quais 10 ainda contam com recomendações ilustres de estrelas como Putnam ou Dennett. Ou seja: não dá.

Outra: perguntei se música ainda é arte. Penso que não, como deixei claro aqui. Todos acharam a afirmação radical, mas concordaram que a música, agora que cai da net em torrentes grátis, já não é mais a mesma: antes era possível se unir às pessoas com base em gostos musicais. Hoje é algo pessoal, e dificilmente se acha alguém que compartilhe seus gostos – tornou-se um fator separatista. Há músicas em excesso pra cada nuance do gosto humano. E, como com as religiões, músicas perdem sua força quando vemos que as nossas não são especiais. Quem acha música clássica realmente melhor do que pagode? Só CD, o mais purista da turma, se atreveu a dizer sim. Os outros já sabem que seus gostos são arbitrários – o que torna a música pálida.

Ah! Éramos seis homens ali. Claro que debatemos algo sobre sexo – foi o único fio carnavalesco que tivemos nesse Carnaval (além da moça de biquíni que passou por ali, paralisando completamente um debate). Era a questão de se a atração sexual, por parte dos homens, conta exclusivamente com a beleza feminina, ou inclui – e o quanto inclui? – a personalidade da mulher no pacote. Diego: personalidade praticamente não conta. Eu: chega a contar mais do que a beleza. Os demais: são dois fatores centrais.

Como a subjetividade varia em algo tão cru da natureza humana!

E os médicos? Dá pra não temê-los? A razão de eu introduzir este tópico foi o pânico que CD – que estuda medicina – me causou via Messenger nos últimos meses. O ensino de homeopatia (!) é obrigatório no Brasil. Pior: há muitos analfabetos científicos no curso de medicina, capazes de afirmar que “nascem mais homens na Lua Cheia”! O debate não me deixou mais confiante. JôLou vai sempre em três médicos, e os três sempre discordam sobre o diagnóstico. CD deixou claro que, se quisesse, conseguiria se formar em medicina sem aprender porra nenhuma. Enfim. Medos!

Também coloquei em pauta outra coisa que venho notando, aliás relacionado com o problema acima: faculdades são horríveis! O que vi, nos últimos meses, de obras e atitudes intelectuais de quinta categoria produzidas por graduados e até PhDs não me deixou ter vontade de fazer faculdade – sinto que vai me atrapalhar, isso sim! Detalhe: estou falando exclusivamente do ponto de vista do conhecimento, sem incluir objetivos de carreira aqui. E fiquei surpreso quando pelo menos metade da turma ali concordou comigo! Eles fazem faculdade e concordam que estou muito bem sem ela. Continuo a analisar esta delicada questão…

Numa boa surpresa, Victor fez uma apresentação defendendo o valor do RPG. Foi ótima! Ainda lembro da época em que jogava Vampiro – A Máscara, interpretando um âncora de telejornal extremamente burguês e arrogante. Mas Victor defendeu de um modo inusitado: jogar é ótimo, claro. Mas só ler os livros de RPG é uma ótima idéia. Parece uma recomendação exótica, mas a defesa dele bem colou: há coleções de fatos interessantes nesses games, reunidas da melhor forma. Eu que já li, sem jogar, Mago – A Ascensão, só posso assinar em baixo. Digo, pra quem tiver tempo, rs.

Por fim, um tema que me foi muito caro: a ética dos debates. Foi minha chance de, sutilmente, reclamar da tendência pra-lá-de-inútil de ficar afirmando, durante um debate, o quanto o oponente está errado, ou como ele raciocina de um modo falho, ou que seu conhecimento é incompleto e sua literatura insuficiente para o ponto. Nas entrelinhas, está dito o seguinte: “que eu tenho razão, esta parte já é óbvia; agora só nos falta superar as tuas limitações e te convencer”. Dirijo esta pequena queixa a Diego, Victor e CD. Eles não escaparam da necessidade instintiva de intimidar o interlocutor com mais do que apenas argumentos. Outra falha: fazer cara feia enquanto alguém diz algo de que você discorda. Mais uma vez, é meramente instintivo. Mas atrapalha e é bom se livrar disso.

Em debates, só argumentos devem pesar. Nada mais.

P. S.: CD parece discordar francamente disto. Pelo Messenger, ele realmente achou relevante sair da discussão principal, sobre a natureza da lógica, para a questão subjacente sobre como ele sabia mais sobre lógica do que eu – logo, eu só podia estar errado. Mesmo que fosse verdade, porém, não vejo como essa abordagem seja válida. E não ajudou CD afirmar que eu interpretava mal os dois livros que li – afinal, eu os li duas vezes cada. Ele jamais os leu. Não era eu uma “autoridade”, neste caso?

Essa foi a parte menos filosófica do tri-ei. O que vem a seguir é dinamite pura!

3EI 3 – Intuição

Março 14, 2009 por Paralelo

O PAPEL DA INTUIÇÃO EM FILOSOFIA

Acho que todas as minhas posições recebem, em bloco, uma mesma objeção dos meus colegas “trieístas”: são posições que não consigo abandonar porque tenho o vício de pensamento de me aferrar às minhas intuições. É como se não me bastasse que os argumentos fizessem sentido, mas que, além disso, eu precisasse que a conclusão fosse intuitivamente satisfatória.

Diante desta objeção eu sempre reitero que sequer estamos falando da mesma coisa quando usamos o termo “intuição”. As definições popular e técnica do Houaiss, contudo, me parecem espetacularmente adequadas como matéria-prima aqui:

1 faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas, independentemente de raciocínio ou de análise.

2 Rubrica: filosofia.
forma de conhecimento direta, clara e imediata, capaz de investigar objetos pertencentes ao âmbito intelectual, a uma dimensão metafísica ou à realidade concreta.

Obviamente que até mesmo para um crítico da intuição tão extremo quanto CD a intuição precisa ter seu papel, dentro do raciocínio, se estivermos usando a segunda definição acima. Como, a contragosto, ele foi levado a admitir em conversa nossa no Messenger, a maneira pela qual ele sabe que, partindo de certos axiomas, você sem dúvida prova certas verdades, é “olhando para o raciocínio e vendo que a prova faz sentido”. Isto é exatamente a forma de conhecimento direta, clara e imediata, capaz de investigar objetos pertencentes ao âmbito intelectual de que fala a definição acima.

Ou você conta com este tipo de intuição, ou simplesmente não pode raciocinar. E é deste tipo de intuição que falo. A meu ver, o fato de que um argumento não fez o menor sentido, e o fato de ser intuitivamente insatisfatório, são a mesma coisa. Mas, pelo visto, estão pensando que falo de “intuição” quase no sentido de pressentimento. Sem dúvida, eu quero que as coisas “encaixem”. Se isto não é pedir por argumentos que façam sentido, então não sei o que é.

Se eu fosse um viciado por intuições no sentido vulgar, até hoje não aceitaria a teoria da relatividade, o heliocentrismo ou a estatística das quedas de avião. A verdade é que, no sentido que importa, estas coisas fazem sentido, o que é o mesmo que serem “intuitivamente satisfatórias” – apesar de serem contra-intuitivas no sentido mais vulgar. Mas sem dúvida este já não é o caso de certas interpretações da física quântica ou da lógica paraconsistente – interpretações que, por isso mesmo, se tornam suspeitas, tanto quanto a notícia de que um UFO em forma de “círculo quadrado” tenha sido visto por 100 mil pessoas no centro de Nova Iorque.

O que chamo de “intuição” nada mais é do que a capacidade, que temos de ter se nos julgamos competentes em raciocinar, para avaliar o que faz sentido e o que não faz. Mesmo para confiarmos num raciocínio básico do tipo “dado o conjunto A de axiomas, se P implica X, e P, então X”, precisamos “olhar pro raciocínio” para saber. É inevitável que, a certa altura, vejamos a verdade diretamente – do contrário, nada do que dizemos vale qualquer coisa.

E aí? Relativismo é tudo o que sobra no prato, se é que sobra.

3EI 4 – A Razão

Março 14, 2009 por Paralelo

A NATUREZA DA RAZÃO

Pra começar, existe uma ironia aqui. CD, Di e Vic são os que defendem que a razão não é tudo isso, isto é, que não é a fonte de autoridade universal que eu queria que fosse. E, no entanto, eles estão absolutamente certos disso. CD e Vic consideram francamente ingênuo, “vício de pensamento”, que eu ainda mantenha tal confiança na razão. Se a razão é tão insegura, eles não deveriam estar menos convictos? Eu pelo menos reconheço a força dos argumentos deles, embora – é óbvio, já que discordo – pense ver erros que eles não estão vendo.

O pomo da discórdia é facilmente esclarecido ao analisarmos o óbvio princípio da não contradição (PNC), segundo o qual é impossível algo ser A e não-A ao mesmo tempo – é impossível estar vivo e morto, por exemplo. Mas e então, como sabemos disso? Melhor: que razão temos para acreditar no PNC?

Aqui a divergência é colossal. Penso no PNC em termos de verdade, realidade e ontologia universais, independentes da mente humana. Já os demais pensam nele em termos de uma verdade local, criação humana, tanto quanto é verdade – num sentido broxante – que a passagem de metrô está custando R$ 2,55 ou que se a bola sair pela linha de fundo, no futebol, é escanteio: os sistemas lógicos são nossas criações, tanto quanto o sistema de regras do futebol ou da economia. O PNC, por exemplo, só é verdade dentro do nosso sistema formal de lógica clássica.

Eu sei do que estão falando. E eles sabem do que estou falando. Mas eu acho que eles estão falando de criações humanas arbitrárias e irrelevantes para a questão do fundamento da razão. Mesmo o sistema formal da lógica clássica, enquanto mero jogo sintático de regras postuladas, nada tem a ver com a lógica real. Mas, claro, eles por sua vez acham que eu estou falando de uma metafísica irreal, platônica, absurda.

Então voltemos ao PNC. CD diria que é graças aos axiomas da lógica clássica que o PNC é válido – e válido só dentro dela, diga-se. Os axiomas em si, é claro, são apenas convenções humanas. Ao contrário, eu diria que o PNC sobrevive intacto sem quaisquer axiomas por trás dele. Não existiam humanos e nem linguagem, e já era impossível que os planetas fossem esféricos e cúbicos. Ou seja: as necessidades lógicas não tem nada a ver com “sistemas de regras” criados por humanos. O que é impossível é impossível, ponto. Resta-nos perceber isto e nos conformarmos.

Neste ponto, vem a invectiva de CD: “prove logicamente que o PNC tem que ser verdadeiro”. Aqui não sei se estamos falando a mesma língua. CD só reconhece como “prova lógica” algo que seja baseado em regras, e pensa que só existem as regras humanas. Mas neste caso sou eu quem não vê uma prova lógica (poderosa, majestosa, irrefutável) aí, mas somente regras arbitrárias que afinal nada significam. Mas se o CD estiver falando minha língua e pedindo uma prova como eu a concebo, isto é, indubitável, objetiva e universal, então me parece óbvio que a impossibilidade do PNC ser falso seja, em si, argumento suficiente.

Claro, CD repete: “prove que é impossível o PNC ser falso – apenas afirmar isto de nada adianta!”. Ah, agora chegamos no horizonte de eventos do buraco negro! Pois eu acho que a razão – no que toca ao saber – é o meio lógico de distinguirmos o objetivo (realidade exterior) do subjetivo (realidade interior, do sujeito, do eu) e, por isso, digo que a falsidade do PNC é, mesmo enquanto possibilidade lógica, totalmente inconcebível para o sujeito e, tudo indica, objetivamente impossível – não só sabemos que pensamos, mas sabemos que pensamos corretamente, quando o fazemos.

Mas CD pensa que a razão é, na verdade, um sistema formal de regras criado pelo ser humano. Neste caso, o fato de ela endossar a validade do PNC não impede que outro sistema formal, diferente, trabalhe sem o PNC. Ou seja: o PNC é válido para a razão, mas a razão é só um sistema humano. Não faz sentido dizer que o PNC é válido para todos os universos e sistemas possíveis.

E, claro, todos me dizem em coro: quem disse que se algo é inconcebível pra mim, estou justificado em pensar que, por isso mesmo, é impossível? Talvez seja só o meu cérebro de primata me pregando peças. Talvez seja só meu tipo de pensamento, e meu tipo de lógica (humana, local), que são limitados demais para compreender a possibilidade de seres vivos e mortos. Afinal, como posso ter certeza de que não?

É exatamente neste ponto que os relativistas se detém, alegres.

Esquecem-se de que toda a cadeia de raciocínio que leva a esta conclusão é, ela própria, uma admissão implícita de que a razão é absoluta. Afinal, por que eu deveria concordar com o argumento de que meus raciocínios podem ser globalmente furados? Se não posso confiar em nenhum deles, não posso confiar na argumentação que me diz que eles podem não ser confiáveis… O argumento é inócuo e se auto-refuta. Sua conclusão, analisada a fundo, é ininteligível.

Como posso acreditar que a razão e a lógica não passam de um conjunto de regras formuladas por seres humanos? Com que espécie de raciocínio o CD pretende me convencer disto? Ele não pode me dizer que seu raciocínio é “perfeitamente lógico” e esperar que isto me seja persuasivo – pois ou “perfeitamente lógico” significa algo universal e irrefutável, e neste caso quem tem razão sobre a natureza da lógica sou eu, ou “perfeitamente lógico” significa “segundo certas regras humanas”, e neste caso a conclusão não é necessária – a não ser que, por acaso, as “meras regras humanas” sejam também absolutamente válidas. Mas aí, outra vez, eu teria razão.

Tudo isto significa, claro, que é impossível argumentar que a razão ou a lógica sejam meras contingências ou caprichos humanos, em qualquer sentido. Um raciocínio lógico correto é, por definição, algo universalmente verdadeiro. Se houvesse exceções, o raciocínio não seria correto, ponto. Argumentos e afirmações pressupõem razão e lógica – e não se trata de uma razão ou de uma lógica fundadas em “sistemas formais criados por humanos”, pois tais sistemas seriam por definição contingentes: se fossem necessários, seriam sistemas formais descobertos por humanos, e não criados.

Neste ponto o CD seria forçado a dizer: então razão e lógica não existem; só existem os sistemas formais humanos, contingentes e locais. Mas agora é pior: ele não poderia dizer nem mesmo isto! E não apenas porque é uma afirmação (portanto uma afirmação que pretende ser verdadeira e objetiva), mas também porque se razão e lógica (absolutas, não contingentes, universais) não existem, então todo o cimento que cola os tijolos sintáticos dos sistemas formais derrete e a casa cai. Pois até num sistema de regras arbitrário como o do futebol, ainda precisa ser verdade absoluta que, se decidimos que quando a bola sair pela linha de fundo será escanteio, então será escanteio – é logicamente impossível que não seja, dados os axiomas e as regras.

Diego ainda tentou me escamotear este ponto, dizendo que axiomas não geram “implicações lógicas” nem qualquer espécie de conseqüência ou decorrência. Que na verdade só existe o sistema formal inteiro, frio, com todas as suas “conseqüências” fazendo imediatamente parte do sistema. Mas isto não muda o ponto. Continua sendo impossível, e quero dizer logicamente impossível, que um trecho do sistema entre em contradição com outro trecho do sistema. Conde Di dá outro passo atrás: “neste caso, não seria o mesmo sistema; você saiu do jogo”. Mas agora é o abismo. Outro passo atrás e ele cai. Estou afirmando que, apesar da lógica utilizada por Di e CD, é possível que o sistema formal do futebol inclua cestas e aces, em vez de gols, sem deixar de ser o sistema formal do futebol conforme nós humanos o concebemos aqui na Terra. É verdade que somos muito limitados pra perceber como isto seja possível… Mas posso jurar que o povo Zon (raça alienígena inimiga dos Zin, que o Di aprecia) jogam o nosso futebol de tal modo que há cestas e aces nele. Fica bem mais emocionante, aliás!

Caindo no abismo: CD me diz que “a história dos Zon é impossível porque está na definição de ‘futebol’ que não haja cestas e aces”. Sim, claro. Mas eis o ponto: os Zon, muito mais evoluídos que o CD, sabem que é perfeitamente possível um conceito contradizer sua definição. Simples assim. Não vá o CD, só por fé, insistir que a relação analítica entre o conceito e sua definição é absolutamente certa e válida. Vai cair na mesma metafísica que julga tão excessiva e gratuita.

(Afinal, a relação entre o conceito e sua definição [isto é, suas partes] é a mesma relação logicamente dedutiva entre o todo e suas partes, ou ainda a relação matemática entre o conjunto e seus elementos: se A contém B, então B está contido em A. Isto não é mais nem menos garantido que o PNC – é apenas totalmente garantido e auto-evidente, claro, mas isto é o que eu afirmo, não CD ou Di, rs)

É minha vez de, com Thomas Nagel, usar o Teorema de Gödel:

“A verdade matemática não pode ser reduzida àquilo que é provável [passível de ser provado] num sistema axiomático, porque, primeiro, o fato de uma sentença ser ou não ser provável, em um dado sistema axiomático, é em si uma verdade matemática (de modo que o discurso reducionista pressupõe, em si, uma idéia precedente de verdade matemática)…”.

- A Última Palavra, p.88

Fim da linha.

Talvez eu não tenha mostrado que a razão universal e absoluta existe – isso me exigiria outra linha positiva de argumentação, e aqui não é o local pra isso. Mas sei ter mostrado que não há substitutos plausíveis. É tudo ou nada aqui. Afirmar que a razão absoluta é uma ficção é algo ininteligível, pois esta própria afirmação é, em si, uma alegação de razão absoluta – isto é, pretende que é absolutamente certo e sem falhas o argumento que conduz à conclusão de que a razão absoluta é ficção. O único modo de desistir da razão é desistir de afirmações, de crenças, de pensamentos – ou fingir pra si que meras paródias podem fazer o trabalho, enquanto se usa a razão absoluta de forma oculta para apoiar as mesmas paródias.

Mais Thomas Nagel:

“O verdadeiro caráter da razão não se localiza na crença em um conjunto de proposições ‘fundantes’, nem tampouco em um conjunto de procedimentos ou regras para extrair inferências, mas antes em todas as formas de pensamento para os quais não há alternativa. Isso não significa ‘não há alternativa para mim’ ou ‘para nós’. Isso significa ‘não há alternativa’, ponto. Isso implica validade universal”.

- A Última Palavra, p.82-83

3EI 5 – Matemática

Março 14, 2009 por Paralelo

A NATUREZA DA MATEMÁTICA

Este foi um debate que tive mais especificamente com Diego.

Outra vez, a questão é a mesma: a matemática é uma verdade independente da mente humana, e que foi descoberta por nós? Ou é, de novo, como a verdade das regras do xadrez, apenas uma invenção nossa? Claro que eu esposo a primeira opção, e Diego esposa a segunda – embora ele até ache plausível a primeira. Mas o desenrolar deste debate tomou uma direção diferente do debate sobre a razão.

Começou quando em comprei a briga de defender que a matemática é uma só, e universal. E, claro, não significa que já saibamos tudo sobre ela: vamos descobrindo aos poucos, tanto quanto com as leis da física. Diego fez de tudo para me encurralar, dizendo que há vários tipos de matemática que, simplesmente, não são casos especiais de uma matemática “superior”, e sim coisas completamente diferentes.

Eu estipulei um critério de “matemática diferente”: se há uma matemática onde dois mais dois não somam quatro, então ela é diferente. Diego, encarnando O’Brien de 1984, realmente quis me fazer ver cinco dedos onde havia quatro! Começou por falar na matemática dos vetores, onde um segmento de, digamos, 2cm, é posto num certo ângulo com outro segmento de, digamos, 7cm. Feito isso, traça-se uma linha entre as suas pontas e, segundo uma operação complexa, “soma-se” os dois segmentos de forma que o resultado não é 9cm. “É outra matemática”, declara Diego.

Eu juro que fico pasmo com isso. Seja lá o que a operação matemática esteja fazendo entre os segmentos, não é uma soma. Ou pelo menos: não é soma de seus comprimentos, pelo menos – porque a soma de seus comprimentos é 9cm. Seja o que for que essa “soma de vetores” faça, é simplesmente outra coisa. E embora eu não tenha certeza, me parece que o próprio desenrolar dessa operação de “soma de vetores” pressupõe, num de seus passos, uma soma tradicional entre seno e coseno – o “tipo de soma” em que 2 + 2 = 4, é claro.

Exemplo parecido (e, a meu ver, confusão parecida) veio do Victor: como eu já sabia através de Brian Greene, há certas operações físicas sobre o comportamento das partículas que dependem de um tipo de multiplicação onde a propriedade comutativa não é válida! Isto é, algo com 5 x 2 não é igual a 2 x 5. Como é possível? “Só pode ser outra matemática!”, diz o tablóide. Mas, como felizmente esclarece Greene (e como Victor não sabia disso?), o que temos aqui é uma multiplicação de matrizes e não de números. É óbvio que 5 x 2 = 2 x 5. No caso das matrizes, porém, A x B é diferente de B x A (o que também é óbvio quando se estuda matrizes). O ponto é que “A” e “B” não são números, e sim matrizes, isto é, tabelas compostas de números.

Um número:  8

Uma matriz:

3 7 2 2
4 6 4 5
9 1 8 7

De algum modo, as partículas estão obedecendo a um complexo padrão que é capturado pela multiplicação de matrizes, não de números. Não é outra matemática que está operando aqui. Mais uma vez, o cálculo de matrizes pressupõe a aritmética básica do colégio: as células das matrizes são somadas e, como toda multiplicação é uma soma de parcelas iguais, onde quer que duas células correspondentes tenham o mesmo número, por exemplo 3, teremos a soma de 3 + 3 = 6, o que é exatamente a multiplicação 3 x 2 = 6 – que é idêntico a dizer que 2 x 3 = 6. No fundo, a propriedade comutativa da multiplicação de números está na essência da multiplicação de matrizes. Não se trata de outra matemática. É só um desenvolvimento complexo da velha e boa matemática onde 2 + 2 = 4.

Depois, Diego quis me mostrar que a matemática não está, e nem pode estar, no mundo – só existe na mente humana. Afinal, existem substâncias incontáveis: não se pode dizer quantos leites há na jarra, nem quantas areias há nas praias – embora se possa dizer quantos litros de leite há na jarra, e quantos grãos, ou toneladas, de areia há nas praias. Ou seja: tudo é questão de estipular uma unidade. E foi por aí que ergui minha defesa. Chegamos longe. Foi legal! =)

Num argumento digno de Zenão, Diego tentou mostrar que uma balança (sem defeito) pode dar um resultado incoerente com nossa matemática. Outra vez, pode ser que 2 + 2 = 5. Acontece assim: a primeira melancia pesada possui 2kg, segundo a balança. O mesmo ocorre com a segunda. Quando pesarmos as duas melancias juntas, quantos quilos teremos? Quatro, não? Bem, segundo Diego podemos ter cinco. Basta que cada melancia pese, na verdade, dois quilos e meio, e que nossa balança não tenha precisão pra medir meio quilo. 2,5 + 2,5 = 5. Pra matemática com que a balança trabalha, contudo, 2 + 2 = 5. What the fuck?!

Tudo isso foi pra Diego dizer que a “matemática dos números naturais” (que não inclui frações ou números negativos)  é diferente da “matemática dos números racionais” (que inclui frações como 6/2 ou 3,1415…). Eu poderia só dizer que essas “duas matemáticas” são a mesma, afinal, pois estão coerentemente unificadas pelo conjunto dos números reais. Mas, por questão de definição histórica, mesmo estes não são todos os números possíveis – ainda há os estranhos “números complexos”, como o “número i” (raiz quadrada de -1). Eu adoraria que esta bobagem definicional não abrisse as portas para a idéia de que os números complexos fazem parte de “outra matemática”, afinal eles interagem tranqüilamente com os números reais.

Lá no debate não fomos tão longe, contudo. Mantive apenas que uma balança infinitamente sensível poderia dar o valor exato do peso das duas melancias; se o peso de alguma fosse o valor de pi, era isto o que a balança registraria: uma seqüência infinita de algarismos – portanto, o problema de “2kg + 2kg = 5kg” era meramente logístico. E mais uma matemática “alternativa” acabou se revelando A Matemática.

3EI 6 – Kripke

Março 14, 2009 por Paralelo

KRIPKE: JOGO DE PALAVRAS?

Numa apresentação complexa e confusa, mas ainda assim interessante, Diego expôs a tese do filósofo e lógico Saul Kripke, segundo a qual existem tanto verdades contingentes a priori, quanto verdades necessárias a posteriori. Ãh?!

É suficientemente simples, vejamos:

Em filosofia, a verdade é classificada de dois modos:

Primeiro, quanto à sua natureza: as verdades podem ser contingentes, o que se dá quando algo é verdade, mas poderia não ter sido – por exemplo: “Nietzsche escreveu livros” (mas poderia não ter escrito); ou podem ser necessárias, por ex., “quadrados são simétricos”, proposição cuja falsidade é algo impossível – é verdade, e não poderia deixar de ser verdade.

Segundo, quanto ao modo de ser conhecida: a verdade é a posteriori se só pode ser conhecida através da experiência – como em “cavalos existem” (já que para saber disto é preciso ver cavalos ou ouvir falar deles); ou é a priori, significando que pode ser conhecida pelo puro pensamento, sem a ajuda da experiência: “a soma dos ângulos internos de um triângulo é sempre de 180º” é um exemplo clássico.

Por muito tempo se pensou – muitos continuam pensando, diga-se – que todas as verdades necessárias (que não pode ser falsas) são a priori (podem ser conhecidas pelo pensamento puro); e que todas as verdades contingentes (que poderiam ter sido falsas) são a posteriori (só podem ser conhecidas através do contato direto ou indireto com elas, pela experiência).

Parece óbvio: não é exatamente por algo não poder ser falso (necessário) que você pode descobrir isso pelo pensamento (a priori)? – pois o que você descobre é que não pode nem pensar em sua falsidade. Por outro lado, o fato de que algo poderia não ter sido verdade (contingente) não está na raiz do fato de só poder ser conhecido pela experiência (a posteriori)? Afinal, não dá pra “adivinhar”, pelo pensamento, que algo é verdade, se é possível que não fosse.

Bom, na filosofia tudo isto eram obviedades até aparecer Kripke.

Ele defende a possibilidade tanto de verdades contingentes a priori, isto é, que podem ser conhecidas pelo pensamento puro, apesar de que poderiam ter sido falsas, quanto de verdades necessárias a posteriori, isto é, que jamais poderia ter sido falsas, mas que mesmo assim só podem ser conhecidas através da experiência.

Como o argumento de Kripke é complexo, e depende de uma confusa abstração sobre “mundos possíveis”, vou me deter em um exemplo simples de verdade que supostamente é contingente a priori, exemplo que deriva da teoria. Se a teoria está certa, o exemplo também está. Aqui, vou me limitar a analisá-lo.

O exemplo nos leva para a barra que foi utilizada para definir a medida oficial do “metro”. Isso ocorreu na França e, por acaso, a (vou chamá-la de) “barra F” possuía 39′37 polegadas de comprimento. A partir dali, o tamanho da barra F era o padrão oficial para o metro. Aí entra o exemplo, sem dúvida capcioso:

“A barra F tem um metro de comprimento.”

Kripke pretende que esta seja uma verdade contingente a priori. Ou seja: uma verdade que poderia ter sido falsa, mas ainda assim uma verdade que poderíamos conhecer sem ajuda da experiência, pelo pensamento puro. Como pode ser?

O argumento é que a barra F poderia ter um tamanho diferente daquele que de fato tinha: em vez de 39,37 polegadas, poderia ter tido 45 polegadas, por exemplo. Neste caso, ela não teria um metro de comprimento, pois sabemos que um metro possui 39,37 polegadas. Então é verdade que ela tinha um metro (39,37 polegadas), mas poderia não ter tido (caso tivesse 45 polegadas). Esta é, portanto, uma verdade contingente.

Por outro lado, essa barra foi usada para definir o comprimento que, doravante, seria canonizado como “metro”. Fosse qual fosse seu comprimento, nós já sabemos que seria um metro. Era impossível ser diferente (ops! Então era necessário?). De maneira que não precisamos nem ver o tamanho específico da barra pra saber que, seja qual for, tem de ser um metro. É uma verdade que podemos conhecer a priori.

Uma verdade contingente e a priori, portanto.

Mas não aceito isso e vou direto ao ponto:

“A barra F tem um metro de comprimento.”

A frase é ambígua. A expressão “um metro” tem dois significados possíveis: pode significar tanto “39,37 polegadas”, isto é, uma medida fixa, quanto “comprimento da barra F, seja qual for este“, isto é, uma medida coringa. Em um deles, a frase é contingente, mas não é a priori; no outro, é a priori, mas não é contingente.

Vejamos:

“A barra F tem um metro [39,37 polegadas] de comprimento.”

Esta é uma verdade contingente a posteriori, claro: a barra bem poderia ter 45 polegadas, e é preciso vê-la e medi-la para saber que ela possui 39,37 polegadas.

“A barra F tem um metro [por definição] de comprimento.”

E aqui temos uma verdade necessária a priori. Sabemos que, se somos nós que vamos determinar o comprimento designado pelo termo “metro”, qualquer barra que tomemos como padrão medirá, por isso mesmo, um metro. É impossível ser diferente. Não é uma verdade contingente, portanto, e sim necessária. E é por isso que podemos ter o conhecimento a priori dela. Não vejo como não seja assim.

Confrontado com isso, Diego me deu uma definição não ambígua de “metro”. O termo significaria, na verdade, “comprimento da barra F no mundo A” (mundo A é o mundo real; outras Terras possíveis são as Terras B, C, D, e assim por diante). E este conceito de “metro” deveria fazer com que a frase fosse a priori, embora só no nosso mundo. Mas como?

O efeito é obtido, em tese, por estarmos no mundo A ao dizer:

“A barra F tem o comprimento da barra F no mundo A.

Agora que incluímos os mundos possíveis explicitamente, temos um festival de ambigüidades ocultas! Mas, para simplificar, vou tomar o atalho de apontar apenas uma das ambigüidades: o primeiro termo, “barra F”, fica ambíguo. Enquanto dizer “comprimento da barra F no mundo A” é o mesmo que dizer “39,37 polegadas” (é? estou evitando outra ambigüidade, err…), dizer “barra F” não explicita se é a nossa barra F, isto é, a do mundo A, ou se é a barra F em qualquer mundo possível. O truque é fazer crer que se torna a nossa barra quando nós usamos o termo ambíguo. Isto funciona? Não consigo ver como.

“A barra F no mundo A tem o comprimento da barra F no mundo A.”

Como a tautologia que é, esta é uma verdade que pode ser conhecida a priori. Mas, por isso mesmo, é necessária. Se estiver na boca dos filósofos do mundo B, ainda será verdade. Também nos sabemos, inutilmente, que “A barra F no mundo B tem o comprimento da barra F no mundo B”.

“A BARRA F tem o comprimento da barra F no mundo A.”

Bom, não é uma propriedade intrínseca da barra F ter o comprimento que ela tem no mundo A. No mundo B, ela possui outro comprimento. Portanto, isto nem chega a ser uma verdade contingente. É uma mentira! Não se pode nem dizer “no nosso caso, é verdade”, porque o termo se refere à barra F em geral, não à nossa. Assumir que é nossa barra F é cair na interpretação anterior.

Os defensores sentem estar vendo algo mais quando percebem que o contexto epistêmico (a priori ou a posteriori) pode tomar por base só este mundo, enquanto que o contexto ontológico (necessário ou contingente) toma por base todos os mundos possíveis. Então, enquanto em relação a todos os mundos a proposição pode ser algo contingente, pois só é verdadeira em alguns deles, ela pode ainda ser a priori, num certo mundo, para os filósofos (seres epistêmicos) de tal mundo. Detendo-se nesta visão, os defensores pensam estar vendo o que os demais não vêem. Mas será assim?

Penso que qualquer filósofo de qualquer mundo possível ainda precisa decidir se, quando fala em X, está se referindo ao X de seu mundo, ou ao X em geral – não pode apenas dizer “X” e esperar que seu mundo complete o sentido da frase ambígua!

Parece-me, pois, que sempre estamos às voltas com ambigüidades. Desde que as retiremos, a aparência de verdade contingente a priori se desfaz.

O tema é complexo e (ao contrário do que fizeram parecer no III-EI) bastante polêmico na comunidade filosófica. Kripke bem merecia se chamar “Kriptke”, tão difícil de destrinchar sua tese é. Há outras críticas por aí. Mas é impossível abordar tudo aqui. Contento-me com esta crítica meio improvisada. Aqui há outra.

3EI 7 – Entropia

Março 14, 2009 por Paralelo

O CAOS NAS LEIS DA FÍSICA

Como a razão e a matemática, também a entropia foi tratada como apenas uma criação humana. Entropia significa caos, desordem. E enquanto as leis da física dizem que há uma tendência universal de tal desordem aumentar ao longo do tempo, Diego – sobretudo – se dispôs a mostrar que tal tendência é apenas mais um viés humano.

O tema surgiu na interessante apresentação de Pierre. Na parte aqui relevante, ele expôs a estranha relação entre a entropia e a seta do tempo – isto é, o fato de que o tempo “corre” do passado em direção ao futuro, e não o contrário. Os físicos, ao que parece, definem “passado” como o estado de baixa entropia e “futuro” como o estado de alta entropia. Por outras palavras: há o mínimo de caos no Big Bang (o passado) e, com o passar do tempo, a desorganização da matéria vai aumentando (sendo, portanto, o futuro). Mas por quê?

O que torna isto intrigante é outro fato: tudo indica que as leis da física são “reversíveis no tempo”, o que significa que um universo em rewind, isto é, “passando ao contrário”, não é algo fisicamente impossível: assim como as leis da física permitem que um ovo caia no chão e quebre, produzindo no chão um impacto específico, elas também permitem que um chão trema de tal maneira que leve as partes de um ovo quebrado a serem empurradas pra cima em ângulos tais que montem o ovo inteiro!

Se isto é possível, por que não ocorre nunca?

A resposta óbvia é que é possível, porém muito improvável.

O problema é que, se as leis são reversíveis no tempo, isto significa que cada ovo que você vê se espatifando no chão entre as 10:00:01 e as 10:00:04 é, também, um omelete vindo do futuro (10:00:04) que, em direção ao passado, foi empurrado pelo chão e se montou no ar, até atingir a mesa (10:00:01). E isto não é algo menos improvável, só porque começou a ocorrer no futuro e terminou no passado.

Temos um mistério.

De um modo que eu não entendi bem (falha minha), Pierre se inclinava para a conclusão de que o mistério pode ser resolvido negando-se que as leis da física sejam reversíveis. Pode ser que, afinal, um omelete “desquebrando” e virando ovo não seja algo fisicamente possível. Mas esta seria, de todo modo, uma conclusão herética. Caso mantenhamos o mistério, em benefício da ortodoxia da comunidade física, em que pé ficamos?

Para cada configuração organizada (um ovo, água num vidro) que com o tempo se desorganiza (um ovo espatifado, água que sai do vidro evaporando no ar), existe outra configuração-espelho onde exatamente o oposto ocorre (um ovo espatifado que se monta, vapor que entra no vidro se tornando líquido). Então não parece ter sentido algum dizer que as configurações ordenadas são menos prováveis que as caóticas.

É aí que Diego entra, com sua raça alienígena dos Zin, para dizer que o caótico e o ordenado são definições humanas arbitrárias: chamamos de “ordenado” o estado no qual a água fica quando dentro de um recipiente, e chamamos de “caótico” o estado no qual a água fica após evaporar-se de um recipiente. Mas os Zin possuem uma cognição distinta da nossa: eles detectam quando as partículas estão dispostas de tal modo que, a seguir, irão convergir para um recipiente e entrar no estado líquido. E só matam sua sede se inspirarem as partículas nessa condição – antes que se tornem “caóticos amontoados líquidos”. Pra eles, a definição de caótico e ordenado é inversa.

Mas aí foi o próprio Di quem percebeu: para além das configurações ordenadas e seus espelhos, existem zilhões de outras configurações possíveis, que não acrescem e nem decrescem em entropia (se decrescessem, precisariam ser o espelho de alguma configuração que acresce), sendo, assim, configurações “estáveis” – e, claro, caóticas a pleno título, de um modo que nem os Zin poderiam “reinterpretar”. E, sendo as mais numerosas, são também as configurações mais prováveis. Ou, ao menos, deveriam ser. De fato, Brian Greene argumenta que era de se esperar que o Universo fosse estático, sem aumento ou queda de entropia. O fato de não ser assim, e de haver um grau baixíssimo de entropia na ponta do Big Bang, é outro mistério.

Também penso que o ponto sobre os Zin oculta o fato de que uma configuração “caótica” que seja o espelho de uma ordenada não é, afinal, uma organização caótica! Ela seria caótica se estivesse em sua “direção normal”, apontada para o aumento de entropia (entropia, agora, no sentido já não arbitrário das configurações estáveis visto acima), e não em sua “direção espelho” que, logo mais, se organizará em um padrão ordenado – já sendo, portanto, uma certa forma de ordenação. E seria precisamente por detectarem tal padrão que os Zin saberiam o que beber.

*****

Essas discussões filosóficas sobre física são, até agora, o único ponto do saber onde me alio a CD na sensação de que falta lastro intelectual para se fazer mais do que comentários meramente pueris. Aqui a sensação de não sabermos bem sobre o que estamos falando é realmente irrecusável. O que não admira: estamos nos limites da ciência e da filosofia. Até quando leio Brian Greene, ou Penrose, ou Feynman, sinto que lhes falta muita clareza filosófica. E a sensação é ainda pior quando ouço qualquer filósofo se arriscando a comentar física. Deve existir – porém não conheço – quem seja bom o suficiente nas duas matérias para fazer alguma esclarecedora ponte entre, por exemplo, ontologia e dados da física quântica.

Mas é ou não é verdade que os físicos, em geral, desdenhariam de tal projeto? – como se qualquer comentário filosófico sobre as teorias físicas lhes impingisse algum exótico acréscimo inútil, em vez de um avanço em sua compreensão.

3EI 8 – Ontologia

Março 14, 2009 por Paralelo

DISCORDÂNCIAS SOBRE O SER
Monismo Escadal v. s. Fisicalismo Morto ou Dualismo

O que realmente existe? Responda isto e você terá uma ontologia. Os primeiros filósofos gregos pensavam que só existia uma substância, a physis. Ou seja: tudo o que existia era físico. Até que Platão tirou da manga uma segunda substância, que não era física, mas metafísica: alma, pensamento, a pura Idéia – estes existiam, segundo ele, mas não eram físicos. E quem, como Platão, pensa existirem duas substâncias básicas na realidade, é dito dualista. Quem só vê uma, é monista.

Este é um debate que sempre ressurge nos EIs.

Conde Di já virou a casaca umas três vezes: monista, dualista, monista.

CD e Vic são monistas xiitas.

Sir Pi e JôLou parecem estar em cima do muro.

Eu sou um monista suspeito, acusado de dualismo enrustido.

Por que o debate é empolgante? Porque todos se vêem entre a cruz e a espada. Defender o monismo se aproxima perigosamente de negar a consciência – e esta é evidente por si! Não se pode honestamente negar que a dor existe, quando ela dói. Mas tampouco se pode afirmar que a dor, em si, é algo físico. Por outro lado, ser dualista beira o misticismo: trata-se de postular uma substância invisível, de se aproximar da bizarra ontologia cristã e se comprometer com um misterioso mundo de formas e “sopros” intangíveis.

A segunda opção é claramente menos atrativa para os rapazes aí.

Tanto que, quando estou defendendo meu monismo, sou a toda hora acusado (essa é a palavra!) de ser dualista – como se isto fosse alguma forma de alta traição intelectual, ou até uma mostra irrefutável de que perdi a razão. Ok: também não gosto da posição dualista, nem um pouco. Mas não iria tão longe em minha desaprovação.

Por outro lado, não consigo levar a sério o tipo de monismo deles! Normalmente referido como fisicalismo reducionista, este tipo de monismo radical parece ser fruto de uma ânsia que Thomas Nagel identifica na seguinte passagem:

“Suspeito que existe uma arraigada aversão, na ‘desencantada’ modernidade, por quaisquer princípios últimos que não estejam mortos – isto é, destituídos de qualquer referência à possibilidade de vida ou consciência.”

- A Última Palavra, p.155-156

Por isso prefiro chamá-lo de “fisicalismo morto”. E nenhum filósofo expressou esta posição de forma mais sucinta e clara do que Demócrito, lá por 400 a.C., ao dizer que “não existe nada além de átomos e espaços vazios. O resto não passa de opinião”. E este é o problema: para o fisicalismo morto só existem os componentes mais básicos da matéria (ou do que quer que “componha” a matéria). Qualquer estrutura composta de tais tijolos básicos não existe, a não ser como abstração humana. Falando de uma maneira escandalosa, a meu ver, não existem Igrejas ou navios, apenas átomos.

A implicação colossal deste reducionismo ganancioso só pode ser apreciada com exemplos: não existe dor, só átomos. Do mesmo modo, não existem cães, só átomos. Não existem escolas, nem amor, nem objetivos ou desejos, nem galáxias, nem futebol, nem Internet, nem a II Guerra Mundial – apenas átomos. A bem da verdade, tudo não passa de um conjunto de átomos em interação complexa, e nada mais – isto é tudo. Declarar a existência de qualquer outra coisa é fazer metáforas, poesia!

Não aceito esta posição. Não consigo conceber nem mesmo que um mero cristal seja apenas um conjunto de átomos cercado de mais átomos, e que isto esgote a verdade a respeito dele. Penso que um cristal é ontologicamente distinto do meio não cristalino que o cerca – não por ter “propriedades cristalinas” que o ar ao redor não possui, mas apenas por ser padronizado de um modo que os átomos ao redor não são. Tudo está nos padrões, e eu discordo que estes sejam meros “recortes epistêmicos” dos observadores, isto é, modos arbitrários de os observadores conhecerem a cena.

Isto é um modo de dizer que a única substância existente é, no entanto, capaz de erguer novos níveis de ontologia conforme seus tijolos básicos interajam formando padrões complexos. O ponto é que tais padrões, uma vez surgidos, são coisas que existem, ganhando propriedades e poderes causais que nenhum dos tijolos básicos, isoladamente, possui. Meu monismo é uma escada que vai ganhando degraus. Por isso o chamo, aqui, de forma improvisada, de “monismo escadal”.

Dito isso, não aceito nenhum comentário debilitante que tente reescrever como “meramente epistêmica” a existência dos padrões. Diria mesmo que, se os padrões não existem ontologicamente, então não há modo algum de serem “conhecidos” – mesmo com as aspas.

E apesar de ser um argumento meramente epistêmico, até onde sei, penso que a distinção de Dennett entre as posturas física, de design e intencional é sobre algo mais do que meras “posturas” do conhecedor: trata-se de comentários substantivos sobre a natureza da realidade. Afinal, Dennett já mostrou que, em certas situações, simplesmente não existe (!) explicação meramente física de o que está acontecendo. Você poderia detalhar 100% dos eventos microscópicos e, ainda assim, não saber por que o evento macroscópico está ocorrendo do jeito que ocorre – poderia ocorrer de um modo completamente diferente, e não estaria no nível físico a explicação da diferença.

Obviamente me perguntarão: mas como se dá essa criação ontológica de novos degraus? Num certo sentido, acho que se dá de forma óbvia – óbvia demais para gerar o tipo de explicação estrutural pela qual um fisicalista morto esteja ansiando. Sem me perder em tentativas fúteis, mudo de tática: admito, por hora, que não sei como. E acrescento que, mesmo assim, ainda estou melhor que o fisicalista: eu ainda tenho ao menos a perspectiva plausível de descobrir como, um dia; já ele, se pressionado da maneira certa, deverá admitir que não tem como explicar os fenômenos conscientes com base no seu modelo – a dor simplesmente não é um conjunto de átomos – e, pior ainda, também não tem como negar a existência destes mesmos fenômenos.

Agora, como diabos eu não sou dualista, depois de tudo isso?

Sim, nego que a dor seja um conjunto de átomos. Nego até mesmo que seja imediatamente física, em qualquer sentido. Mas, ao contrário do que pensam, isto não me obriga a declarar que a dor é, portanto, algo positivamente não físico. Nego que a dor seja física apenas no mesmo sentido em que nego que a Internet seja física. Pois pegue qualquer conjunto de zilhões de partículas, incluindo as que compõe ondas no ar, sinais elétricos, hardware de satélites, cabos de fibra óptica, o que for: você jamais terá, apenas com tais partículas na sacola, a Internet. A Internet é um padrão dinâmico formado por partículas, e não o próprio conjunto destas. A dor – conquanto de forma obviamente mais misteriosa – provavelmente também é um padrão dinâmico no cérebro: algo que emerge, e emerge ontologicamente, da interação de partículas no cérebro. E, no final, não é uma “segunda substância” que esteja “interagindo” com o mundo físico – é só a própria decorrência do mundo físico, com seus padrões.

Suspeito, aliás, que haja algo de extrema importância ocorrendo quando a matéria se organiza de um modo tal que seja capaz de processar objetivos. Isto cria um sistema teleológico (de telos, objetivo, meta, finalidade) capaz de lançar um olhar para o futuro e agir, doravante, com base em razões – e fica a dúvida de o que diabos isto significa no nível meramente físico que, sem dúvida, é neutro e cego para coisas tais como objetivos e razões.

Ok. Já foi heresia demais contra a filosofia ortodoxa pra um post só.

3EI 9 – Relativismo

Março 14, 2009 por Paralelo

RELATIVISMO ● A NATUREZA DA CONSCIÊNCIA

No III-EI fiz uma crítica de todo improvisada contra o relativismo. Sendo assim, é claro que fiquei mais vulnerável do que devia à chuva de críticas que se seguiu. Ali eu esbocei três pontos a princípio desconectados. Um deles está esmiuçado no tópico sobre a razão. Os outros dois vêm a seguir, desembocando o segundo deles numa discussão sobre a natureza da consciência:

1) A abordagem relativista é capciosa e ininteligível:

Dada uma afirmação objetivista como “a religião faz mal”, a típica invectiva do relativista é acrescentar “pra você”. Ou seja: “a religião faz mal pra você, mas pra mim ela faz bem”. Sem dúvida, é isto o que se entende a princípio. Mas então esta não é uma colocação relativista, e sim uma discordância objetiva: a opinião de que a religião realmente faz mal (em geral) contra a opinião, discordante, de que ela realmente só faz mal para algumas pessoas, não pra todas. Isto não é relativismo.

Então o relativista, enquanto tal, deve estar querendo dizer outra coisa. Quando acrescenta “pra você”, ele entende que a proposição “a religião faz mal” pretende ser objetiva e geral, mas, em vez de discordar, apresenta um “metacomentário” indicando que isto deve ser apenas um achismo subjetivo do objetivista. Mas isto significa que o relativista, apesar de si próprio, está mesmo é discordando do objetivista: ou a religião faz mal pra todos, ou não faz. Ou o objetivista está certo, ou está errado. Se por acaso o relativista tiver razão e a afirmação do objetivista for somente afetação subjetiva, então isto implica que ela está objetivamente errada – e não que “sobrevive” enquanto afirmação subjetiva. Até porque, neste caso, o “relativista” é quem, objetivamente, terá razão. Outra vez, não temos relativismo – muito pelo contrário.

Por fim, resta ao relativista – se ele pretende mesmo ser um! – uma alternativa extrema e, até onde vejo, ininteligível (ou seja, não é uma alternativa, afinal): ele quer dizer que com “a religião faz mal” o objetivista está mesmo certo – embora certo de um ponto de vista relativo, e por isso o “pra você”. Agora, o que isto significa? Primeiro, que o objetivista não precisa mudar de idéia. Pra ele é verdade que a religião faz mal pra todos. Assim como, para outra pessoa, é verdade que a religião faz bem pra todos. E, apesar de tais verdades serem contraditórias, ninguém está realmente errado. A verdade é relativa. Cada um tem a sua.

Isto sim é relativismo! Mas parece pedir o impossível: que Saturno exista de verdade para os ocidentais e, também de verdade, não exista para os !kung-san. Isto parece pedir a existência de um universo paralelo pra cada opinião existente. Além do mais, ainda parece uma forma de discordar do objetivista, em vez de meramente relativizar sua postura: pois o objetivista quer dizer que sua opinião é absoluta, e não relativa. Parece que qualquer forma de relativizá-la é, inevitavelmente, uma forma de discordância objetiva.

Este argumento é apenas outra forma de sustentar a mesma idéia que defendo no post sobre a razão: o relativismo é ininteligível e a razão objetiva é inescapável.

A Crítica: Vic disse que meu exemplo – “a religião faz mal” – é capcioso. Não é bem isso: na verdade, eu pretendia tratar de vários tipos de afirmação objetiva, como as factuais, as de valor, as de gosto pessoal, etc,. e analisar como o relativista se sai ao tentar subjetivizar cada uma delas. Um dia completo este projeto.

2) A natureza da consciência fundamenta a objetividade:

Funciona assim: desde que eu defina “consciência” como “aquilo que é ou está consciente”, o que me parece uma definição obviamente justa, então decorre que não é possível a consciência se iludir a si própria. Se é que a consciência faz algo, ou é responsável por algo, não pode sê-lo sem ter, ela própria, consciência de sê-lo. Isto, por si, já refuta o solipsismo: é impossível que a consciência seja tudo o que existe, e ela pode saber disso. Como? Sabendo que não é responsável por certos conteúdos dos quais ela é passivamente consciente: pois se a própria consciência fosse a fonte destes conteúdos ou os tivesse produzido de algum modo, ela seria consciente de que o fez. Como este não é o caso, e ela sabe disso, então ela sabe que tais conteúdos possuem uma origem exterior a ela, uma origem não subjetiva, portanto uma origem objetiva.

Não vejo como redefinir o conceito de “consciência” de modo que este inclua estados inconscientes. Esta me parece uma confusão clássica da filosofia – a mesma confusão que Kant está fazendo quando supõe que a consciência, sem ser consciente disto, é quem produz ativamente espaço e tempo, agora concebidos como “modos subjetivos” de traduzir a realidade. Meu ponto implica que, seja o que espaço e tempo forem, não são subjetivos.

Claro que isto nos deixa, ainda, com a possibilidade exótica de que só exista um cérebro na realidade, ou coisa assim, cujas partes inconscientes estão, objetivamente, causando ilusões na consciência. Mas, se é assim, parece que teremos apenas outra resposta sobre qual é a natureza fundamental da realidade observada, e não uma declaração de que esta inexista, ou seja ilusão. Em vez de átomos ou supercordas, o que teremos na base é um “cérebro” gerando uma realidade da qual sou consciente. Espaço e tempo seriam reais, ainda assim. Abre-se a perspectiva de que as outras pessoas não sejam conscientes, e sim marionetes simuladas. Isto é ruim, claro. Mas penso que pode ser justificadamente declarado improvável, no mesmo grau em que é improvável um leão surgir a partir de uma porção de barro atingida por um trovão.

A Crítica: Diego falou na possibilidade de a consciência criar indiretamente a realidade. Mas isso não seria solipsismo. Uma vez que a consciência desse a partida no processo e este escapasse do alcance consciente, teríamos uma realidade objetiva aí surgida, igualmente. Claro que, antes disso, a consciência não poderia ser consciente senão de si própria, incluindo aí qualquer “estrutura” que uma consciência deva ter – se é que tem alguma: quem sabe objetivos ou capacidade de pensar?

Outro ponto, mais importante, é que minha definição de “consciência” ameaça evaporar-se num nada. Para resumir a consciência somente naquilo que é consciente, parece que devo excluir desde o corpo, até o cérebro, incluindo até mesmo sensações conscientes, lembranças, e todos os conteúdos da consciência. Afinal, eu a defini como aquilo que é consciente, e não como aquilo de que ela é consciente.

Sobra algo?

Bom, não sou um fisicalista eliminativista. Vou me dar o direito de analisar a minha consciência não de um ponto de vista objetivo, mas subjetivo mesmo – afinal, ela é a subjetividade e eu sou um sujeito. Não surpreende se eu tiver um mínimo de autoridade pra tratar da consciência nestes termos – apesar de que um tratamento subjetivo de qualquer questão é, pelo menos para Vic, CD e Di, sinônimo de um tratamento irracional. Claro: em geral, sim, mas não no caso da própria subjetividade!

Dito isso, vamos lá. Minha consciência não é apenas uma janela passiva para os conteúdos que nela se apresentam. É isso também, mas não só. Ela possui poderes causais baseados em razões e deliberação – mesmo que suas razões e deliberação sejam nulas em certos casos. Minha consciência não é dona nem criadora de seus objetivos basilares, isto é, de seus desejos e instintos básicos. Estes vêm de fora e lhe são impostos. Mas um “desejo” é o tipo de coisa que, por sua própria estrutura, não pode ser “imposto” – a imposição é um conceito que só faz sentido em relação a algum desejo, se este for um desejo de resistência, que sofra a imposição.

Sim, estou atolado na lama mentalista. Mas é proposital.

Não sou eliminativista, lembram?

Minha consciência é algo que processa os meios para atingir os objetivos – o que inclui criar, deliberadamente, toda espécie de sub-objetivos necessários. Só minha consciência pode processar tais razões, porque só ela, como um todo, é a entidade que é possuidora dos objetivos e desejos. A conclusão preliminar é que minha consciência é um sistema de análise de meios – meios possíveis para atingir objetivos. O que ela possui de intrínseco é o poder de influenciar o resto do sistema com base em razões. O resto – cores, desejos, pensamentos súbitos – é apenas conteúdo vindo de fora.

Isto não precisa ser incompatível com o determinismo, pelo menos a princípio. A consciência pode influenciar o resto do sistema, e ser influenciada por ele, do mesmo modo como uma proteção de tela influencia o consumo do processador. Interação de partes heterogêneas, nada mais. Contra isso, levantaram-me o experimento segundo o qual o processamento cerebral ocorre dez segundos antes da escolha consciente. Não vou repetir o argumento exótico que usei lá. Vou apenas dizer que um teste simplista destes – botões e letras numa tela – não é conclusivo, apenas sugestivo (v. a seguir).

Outra vez, vão me perguntar como o cérebro físico é capaz de ser “alçado” a tais maravilhas como “deliberação”, “racionalidade”, “objetivos reais”. Outra vez, direi que eu não sei como, mas pelo menos ainda me resta esperança de haver um “como”. Já o fisicalismo xiita se contenta em fingir que “elimina” o que, sem dúvida, está lá: cores, razões, dor, desejos. É uma posição seguramente perdida.

Seja como for, o essencial aqui é que minha definição de “consciência” mina a posição relativista segundo a qual não podemos saber se nossas observações estão de fato fora de nós, ou se são meras construções nossas. O que vem de nós, sabemos. E, por exclusão, sabemos também o que não vem de nós.

*****

Extra: o experimento da escolha.

Vejam o que é o sensacionalismo. O cientista John Dylan-Davies, condutor do dito experimento num centro de neurociência de Berlim, é bastante mais comedido do que nos faria pensar o alarde em torno do assunto:

“Nos casos (!) em que as pessoas podem tomar decisões em seu próprio ritmo e tempo, o cérebro parece (!) decidir antes da consciência [...]. Não se sabe em que grau isso se mantém para todos os tipos de escolha e de ação. Ainda temos muito mais pesquisas para fazer.”

Espero que tenham perdido 70% do entusiasmo.

E espero que percam os outros 30% a seguir.

É que o experimento é bastante capcioso. Você fica diante de um monitor onde passa uma seqüência aleatória de letras. E há dois botões na mesa sob o monitor, um para cada mão. Você escolhe, mentalmente, uma letra. Digamos, “Q”. Assim que um “Q” aparecer no monitor – a seqüência de letras se move a cada meio segundo – você deve apertar um dos botões. Qualquer um: esquerdo ou direito, tanto faz.

O que o experimento mostra é que, de dez a cinco segundos antes de “Q” estar na tela, o cérebro já havia escolhido se o botão direito ou esquerdo seria apertado. Por que isto deveria ser sensacional? Era de se esperar, não? A consciência da pessoa está detida na aparição de uma letra, e não na escolha de qual dos botões – esquerdo ou direito – será apertado. Essa tarefa é positivamente secundária, irrelevante e, sendo assim, não tem porque ocupar a atenção consciente. Pode ser automatizada.

Se houvesse um só botão, ou se houvesse diferença relevante, para o objetivo, entre apertar algum dos dois botões – a depender da letra, por exemplo – então como a escolha poderia vir do cérebro, dez segundos antes? Claramente não seria possível, já que o cérebro não poderia adivinhar, com qualquer antecedência, qual a informação relevante com base na qual decidir (dada a letra, que botão apertar).

Ao contrário, o novo teste provaria que a consciência, quando necessário, é perfeitamente capaz de decidir. Afinal, só ela pode avaliar a informação com base em razões. Aliás, não admira que o experimento se trate justamente de uma escolha neutra para a razão: “decidir” entre um botão direito e… um esquerdo.

Pode apostar que uma versão mais sofisticada deste teste seria capaz de prever alguns movimentos de volante de motoristas experientes, mas não conseguiria fazer nada para prever o que um motorista novato e nervoso irá fazer. Aí as decisões são conscientes e tomadas na hora, sem automatismos.

3EI 10 – Outros Tópicos

Março 14, 2009 por Paralelo

OUTROS TÓPICOS
Memes. Teleologia. Dualismo de Chalmers. Penrose. Mente Encarnada.

Fiz uma apresentação criticando toda idéia de memes e memética – você sabe: as supostas “entidades culturais replicantes” que fundamentariam um processo cultural de seleção natural, que seria a verdadeira explicação da cultura. Pretendo lapidar esta apresentação para torná-la uma matéria do site. Em breve. Aqui o tema seria extenso demais. Basta dizer que todo o meu argumento estava fundamentado na idéia de uma “interferência teleológica” que as mentes humanas, com seus desejos e objetivos, vão causar em qualquer processo de seleção natural que se inicie – do mesmo modo que a intervenção divina, num certo ponto, acabaria com a seleção natural biológica, ficando apenas o design inteligente dos criacionistas em seu lugar.

Pelos posts anteriores, você já deve adivinhar o que houve com uma tese que se baseava na existência de objetivos presentes em mentes humanas: foi recebida como uma afirmação de que almas imateriais embaralham o processo físico. O clima estava mesmo propício pra este tipo de rejeição. Mas Jonatas, que quase participou do encontro, concordou com minhas idéias. Imagino se foi por não estar impregnado do fisicalismo morto dos demais. De minha parte, só fico intrigado com como alguém, em sã consciência, pode negar que possui objetivos reais em sua mente.

Este é, precisamente, o tema da teleologia, várias vezes ressurgido no III-EI. É verdade que a seleção natural só parece ter objetivos. Mas será verdade que até nós, humanos conscientes, “só parecemos” ter objetivos, sem tê-los de fato? Acho isto tão absurdo quanto negar a existência da dor e do vermelho. E não me custa nada pensar que o processo evolutivo deu origem a um cérebro capaz de objetivos reais. Duvido que se possa admitir que os objetivos são “funcionalmente reais” sem admitir, por isso mesmo, que sejam objetivos reais a pleno título.

De todo modo, basta-me que sejam “funcionalmente reais” para sustentar a tesa contra os memes. Como? A tese, em si, vou publicar no site.

*****

JôLou, mesmo sendo monista, fez uma apresentação ótima sobre o dualismo de Chalmers. Sem entrar em muitos detalhes, o crucial é que, para Chalmers, o que é concebível é, necessariamente, possível. E é concebível que a mente exista separada do cérebro (sim, é), portanto tem de ser possível que ela exista separada do cérebro, portanto ela não tem uma conexão essencial com o cérebro, portanto ela é algo independente do cérebro, ontologicamente.

Bom… Se for assim mesmo, então não precisamos de uma mente para provar o dualismo. Uma música basta. Pois, sem dúvida, conseguimos conceber uma música separada do meio físico que a conduz. Portanto, a música é algo independente de todo meio físico. Só pode ser uma substância não física.

E, como essa conclusão é ridícula, a de Chalmers também é.

*****

JôLou também nos explicou o argumento de Penrose a favor de algo que, muito facilmente, levaria ao dualismo. Fora todas as complexidades que eu realmente não compreendi, o importante ali é que o Teorema de Gödel mostrou que é impossível provar certas verdades matemáticas dentro do próprio sistema de axiomas que as produz. E daí? E daí que, se é assim, não há nenhum algoritmo ou programa possível que, por si, possa provar tais verdades. E, no entanto, nós humanos vemos que tais verdades são verdades assim mesmo. Conclusão? Não pode ser um mero programa que roda no nosso cérebro, pois ele não poderia fazer isso.

Considerando as opções “não algorítmicas” do processamento físico de dados, o argumento de Penrose facilmente leva ao dualismo.

Nessa, estou com Dennett: nenhum algoritmo pode provar algumas verdades, tampouco o algoritmo que “roda” em nossos cérebros. Afinal, nem o mais exímio dos matemáticos humanos consegue provar alguma destas verdades. O que Penrose está chamando de nossa capacidade de “ver” que são verdades não é, em absoluto, uma prova de que são mesmo verdades – muito menos uma prova formal, que é o tipo de prova declarado impossível pelo Teorema de Gödel.

*****

Vic nos apresentou sua idéia de como o fato de nossa mente ser encarnada deveria nos alertar para as limitações da mesma. Foi basicamente uma versão do velho argumento cético, geralmente referido como falácia genética: a origem “impura” de um pensamento como uma razão suficiente para refutá-lo. Claro, Vic não foi tão longe assim. Mas não ficou exatamente muito aquém disto. Falou como se o simples fato de sermos fruto de um processo cego – a seleção natural – fosse, por si, razão (?) para pensarmos (?) que nossos raciocínios têm, muito provavelmente, uma tendência a serem corrompidos, enviesados e limitados.

Conquanto Vic tenha argumentado, na linha de Pinker, que nos servimos de certas “metáforas atômicas” na base de nossos pensamentos, metáforas sobre causas, relações espaciais, hierarquia e outras coisas que, pelo visto, nada garante que façam parte da realidade, isso por si não deveria ser assustador. O fato de que a grama nos seja verde e, para um morcego, seja algum “matiz de áudio”, não torna ilusória e nem distorcida quer a nossa visão, quer a dele. É apenas um modo de traduzir os dados da realidade que, a princípio, pode ser perfeitamente fiel. O mesmo podem fazer nossas “metáforas atômicas” por nós. Pelo menos, não há porque duvidar a priori disto.

E há até porque ser otimista:

Quis argumentar, outra vez seguindo Dennett, que o processo evolutivo é, ao contrário, perfeitamente compatível com nossa capacidade para pensar corretamente: afinal, no mais das vezes a ilusão era fatal. E fui além: o mesmo tipo de raciocínio que nos permite raciocinar sobre o mundo em nossa escala, nos permite ir além. A lógica a que o mundo visível está submetido é a mesma à qual o resto da realidade precisa estar. Mas, claro, isto já outra vez me faria ser acusado de dualista.

Que “lógica” é essa que está voando por aí, além da matéria, afinal?

O que nos leva ao debate, já exposto, sobre a natureza da razão.

E fim do ciclo! =)

Insight Probabilístico

Novembro 19, 2008 por Paralelo

Ligar o monitor do micro no exato momento em que o antivírus está escaneando o arquivo 33.333 é uma coincidência e tanto. Dizem alguns especialistas (e muitos filósofos precipitados) que isto é apenas uma “ilusão de coincidência”, já que qualquer número de cinco dígitos seria tão improvável de encontrar, ao ligar o monitor, quanto “33.333″. Dito assim, isso é verdade. Mas falha o alvo. O fato é que, em cem mil números possíveis (assumindo que eu liguei o monitor num momento aleatório em relação à duração do antivírus), apenas dez exibem a regularidade perfeita de cinco repetições. Isto nos dá a probabilidade de 1 em 100 mil de encontrar tal padrão ao ligar o monitor. É extremamente improvável!

Agora o insight.

Neste ponto, os críticos insistem que até isso ainda é uma “ilusão de padrão”, já que a suposta “regularidade” só é um padrão para os olhos humanos – ou pior ainda: só é um padrão para mim! Afinal, o símbolo para “3″ é mais uma convenção humana, também arbitrária. Se um robô fosse programado para reinterpretar os símbolos a cada rodada, então a mesma seqüência de símbolos não mostraria repetição alguma. O primeiro três seria lido como “3″, mas o segundo “três” (pra nós) seria lido pelo robô como “2″, o terceiro com “4″, e assim por diante – recebi este argumento de Diego (brainstormers), durante o II Encontro Intelectual.

A série de símbolos, segundo Di, seria uma coincidência para mim, mas não para o robô. Ou seja, estaria na minha cabeça apenas, e não significaria nada de real e importante. Seria, como foi dito, uma “ilusão de padrão”. Argumentos assim parecem definitivos, mas eu só conseguia ficar confuso com eles. O Di, por sinal, adora supor que as intuições humanas falham, e adora desmascará-las. Mas não desta vez!

Menti: agora o insight!

Eis que percebo, súbito (isso foi ontem):  a coincidência existe realmente, e está no fato de que a seqüência 33.333 é um padrão para mim, sim, porém fui justamente eu quem ligou o monitor na hora H e, assim, pude observar o padrão. Ou seja: a abordagem do observador deve ser incluída nos cálculos! Outra maneira de dizer isso é que eu trazia comigo um alvo, e o antivírus o acertou bem no centro (sendo que o “centro” é feito de apenas dez números, em meio a cem mil).

Obviamente que o padrão 33.333 seria significativo para qualquer ser humano – embora não para cegos que escutassem cada “3″ como um som diferente, mas deixemos as exceções de lado. Mas isso não é necessário, na verdade. Suponhamos, pois, que fosse realmente um padrão exclusivo meu. Isso não é absurdo como parece: o número poderia se tratar do meu aniversário, ou do meu celular. Então, se eu percebesse que o bilhete do primeiro avião que peguei na vida é numerado com 371982 (dia em que nasci), isso seria uma coincidência, não obstante o número só tivesse significado pra mim. Afinal, fui justamente eu quem pegou esse bilhete específico!

Voltando ao robô do Di, o fato de ele reinterpretar os símbolos a cada rodada não muda nada. Como “observador”, esse robô também traz seus alvos consigo: a seqüência 64235 pode ser aleatória pra nós, mas talvez não para o robô, pois ele poderia reinterpretar o seis como “3″, depois o quatro como “3″, e todos os demais como “3″. Para ele, seria notável! E a coincidência seria, então, que a seqüência 64235 ocorresse justamente para o robô. Agora até nós, de fora, podemos ver que seria uma coincidência objetiva!

Não vou entrar em detalhes, mas esse argumento é extremamente importante na defesa do indutivismo e em uma concepção objetiva das próprias probabilidades. Já é tempo de os filósofos insanos, que advogam que as probabilidades têm apenas “valor instrumental” (*), se calarem.

  1. (*) Por “valor instrumental” eles querem dizer, por exemplo, que não é verdade que seja difícil uma moeda cair em pé, pois ninguém pode saber de nada antes de ver como a moeda caiu! Ao invés disso, eles dizem que a “interpretação” segundo a qual a probabilidade de uma moeda cair em pé é proporcional às diversas áreas da moeda (faces e lateral) é uma “hipótese útil”, um “instrumento humano”, para lidar com a imprevisibilidade do mundo. Eles obviamente esquecem que, se a “interpretação humana” não fosse verdade, então o instrumento não serviria para prever nada!

O Sonho Onde Virei Dois

Novembro 7, 2008 por Paralelo

Este é um inesperado post sobre o mistério da consciência.

Começa com um sonho meu.

Neste sonho, que tive há duas semanas, eu de algum modo me dividia em dois. Se bem me lembro, um de mim estava parado em uma sala, enquanto o outro de mim caminhava ao longo de uma rua: poderia até ser em um país diferente. Mas entenda: não era como se eu ficasse aqui e visse a minha “cópia” sair andando. Não havia “cópia”. Eu era eu, mas era também o outro. Eu estava na (era a!) mente de ambos. Eu estava consciente dos meus dois “eu” ao mesmo tempo. E, sim, eu possuía duas perspectivas de “primeira pessoa” em conjunto!

Agora que contei o sonho, estou devendo esclarecimentos…

Você deve estar querendo saber como é estar consciente de dois pontos de vista!

No meu sonho, o efeito era parecido com a “visão discordante” dos olhos, quando o olho esquerdo vê uma coisa e o direito, outra. Por exemplo, quando colocamos aqueles óculos de lentes com cores diferentes, ou quando algo fora da janela só aparece pra um dos olhos. O resultado é ou uma estranha alternância das duas imagens ou, quando possível, uma espécie de “mescla” entre elas. O fato é que, de algum modo, você consegue ver as duas coisas ao mesmo tempo.

Foi deste modo que eu pude sentir simultaneamente que caminhava (num corpo) e estava parado (no outro), que via uma rua passar por mim (num corpo) e via uma sala com móveis (no outro).

Um sonho fascinante, sem dúvida!

Mas acordei pensando que algo assim seria, mesmo em princípio, impossível. Seria o equivalente de uma transmissão mágica de informação e, pior ainda (para a relatividade de Einstein), uma transmissão instantânea! Se o Lauro A estivesse no Brasil parado, e o Lauro B estivesse namorando uma japonesa em Tóquio, então o Lauro A saberia instantaneamente disso e, de todo modo, de forma mágica (sem qualquer meio físico de transmissão) – e provavelmente se excitaria igualmente, por “estar na” ou “ser a” mente do Lauro B.

Além do mais, já cortaram um cérebro humano ao meio (por razões cirúrgicas, não experimentais!). As duas metades permaneceram conscientes, mas uma não tinha consciência da outra! Depois, reconectaram as duas metades do cérebro, e a consciência voltou a ser uma só. Eu adoraria saber o que o indivíduo (?) que passou por esta experiência tem a dizer…

*****

Eu poderia, agora, seguir indefinidamente especulando sobre as nuances do mistério da consciência. Por exemplo, desisti de escrever que “No caso da cirurgia acima, imagino que as duas “metades” da consciência eram, afinal, continuações íntegras e legítimas da consciência original – aposto que elas se sentiam assim, e é isto o que importa.” Mas vou apenas deixar no ar a idéia mais significativa que tive sobre o assunto recentemente – e a tive graças a um insight inesperado durante um debate teológico (!) e, por feliz coincidência, ter encontrado quase a mesma idéia ontem, lendo o (novo) último capítulo da nova versão de O Gene Egoísta, de Richard Dawkins (como vêem, não resisti traçar a genealogia estranha da minha idéia!).

Basicamente, a idéia é esta: a “identidade” é algo que só existe através de objetivos. Ou seja, o “eu” só existe na medida em que existe uma miscelânea de padrões que, tomada em conjunto, apresenta uma integridade de objetivos e propósitos. Essa idéia me veio, primeiramente, quando pensei que o Deep Blue, o famoso computador genial no xadrez, só pode ser considerado uma “entidade” porque é o Deep Blue inteiro, e não qualquer um de seus componentes (bits, chips, sub-rotinas, o que for), que possui o objetivo de vencer a partida de xadrez e, portanto, trabalha consistentemente nesse sentido, como um todo integrado.

Foi aí que, duas semanas depois (ontem), vi Dawkins argumentando que só faz sentido pensarmos nos animais como entidades individuais (e não confederações de células ou grupos de genes) porque eles, como um todo coordenado, é que buscam objetivos ativamente, de um modo que nenhum gene ou célula faz – estes executam apenas padrões cegos.

Pode-se argumentar que isso é uma boa definição para saber quando um grupo (de células, por exemplo) se torna coeso o suficiente para ser promovido a “indivíduo”, mas não para o tipo de “identidade holística” que a consciência, ou a mente, possui. Bom, é apenas uma idéia virgem que acabei de ter. Dá o que pensar.

O tempo dirá que frutos saem daí.

O Que Será da Música?

Setembro 27, 2008 por Paralelo

A coisa é sombria: Allan faz questão de me apresentar aos independentes The Feitos, Ultraleve, StereoScope; Carlos Daniel me envia seus jazz do Flamenco Sketches, John Petrucci, e instrumentais do Enya, ou progressivos do Dream Teather; Fabrício chega aqui entusiasmado com a coleção inteira do rock do Muse; Júnior me fala da redescoberta de Elvis e do espírito rock original; Léo despeja do pen drive uma penca de hardcores de extrema direita, com gritos incompreensíveis mesmo em português; Letícia, assim que pode, deixa Lily Allen, Rosario ou Toploader ecoando pela casa; Maíra às vezes quase desiste, não sem heróicas tentativas, de me mostrar as maravilhas de Caetano e Cazuza; Paulo me apresenta o DVD do show histórico do Pink Floyd.

Todos aí vão às nuvens com suas respectivas músicas favoritas, e adorariam compartilhar comigo sensações tão boas. E eu, por minha vez, também adoraria compartilhar com eles, não os meus gostos, mas os gostos deles. Pelo visto vontade não basta, é o que percebi. Não é difícil se solidarizar comigo! Veja por si, leitor, tenha você sido ou não citado acima, qual a sua chance de gostar de tantos estilos diferentes?

Escutei com atenção a maioria das demandas. Pude identificar méritos, entrar um pouco na mente de quem gosta de cada música. Mas gostar como eles… Não digo que fosse impossível, mas seria preciso dedicação: é como mudar de clube de futebol, e quem já o fez sabe que, nos primeiros dias ou semanas, você se pega torcendo pro time antigo, e vê algo de insosso no clube novo.

Deixe-me fazer um teste (respire fundo):

Pois bem, os independentes são toscos e pretensiosos; o jazz instrumental é melodia religiosamente tediosa; o rock do Muse é monótono e estridente; Elvis e o rock original são constrangedoramente ingênuos, são o funk dos anos 50; o hardcore é insuportável como uma matraca; Lily Allen, Rosaria, Toploader: melosos de enjoar no meio da primeira audição; Caetano é um nonsense metido a gênio, Cazuza é bonzinho, mas há tantos tão melhores no que ele faz; o Pink Floyd é puro parnasianismo exibicionista.

Fui sincero aí acima. E que tal, leitor? Furioso? Você foi atingido em algum ponto? Ok, exagerei um pouco. Provoquei. Mas a chance também é boa de você ter concordado entusiasticamente em outros pontos. Seja como for, não se preocupe. Como todo mundo, meu cérebro tem uma segunda opinião.

Modo “mente aberta” ON. Vamos lá:

Os independentes mostram uma liberdade de estilo admirável, sem dúvida; o jazz, prestando mais atenção, é sublime, doce, eloqüente sem palavras, grandioso!; o Muse, se ouvido com mais atenção, certamente vai revelar suas sutilezas melódicas, e a estridência se tornará alto impacto; Liliy Allen e cia., certas vezes, são bem agradáveis, e evocam (e causam!) uma alegria simples, que melhora o dia; Caetano é sutil, e uma audição dedicada revela, como já vi, profundidades até do nível de um Chico Buarque (e Cazuza tem seu modo inimitável, e imperdível, de protestar e declamar o gosto pela vida); e o Pink Floyd é essencialmente original, nos dando a chance rara de sentir todo um mundo paralelo, todo um ethos, estranho e maravilhoso.

Também fui sincero aí, creiam-me.

Mas fica claro que, mesmo fazendo força, não é fácil gostar do que os outros gostam – ainda mais gostar na mesma intensidade. A tendência, na verdade, é antipatizar completamente com um som diferente. E isto porque melodias funcionam como o paladar: você gosta daquilo que seu grupo gosta – seja lá o que for. Em geral, esse grupo ou é o ambiente familiar, ou o escolar. E os adultos trarão consigo essa herança.

Isso não era tão ruim quando apenas poucas músicas tocavam no rádio e TV. Com poucas opções, era fácil acharmos pessoas que curtissem o mesmo som que nós. E a amizade saía ganhando. Mas hoje a música se tornou um fator separatista, criador de antipatias. Pra cada capricho e nuance do gosto humano, há uma torrente de músicas saltando a vista, em todas as direções. Já nem dá tempo de conhecer a maioria delas, que dirá tempo para absorvê-las, dar-lhes atenção, se acostumar. Ou você gosta de cara, ou parte pra próxima!

O resultado, a meu ver, é péssimo: há tantas músicas disponíveis que é quase impossível topar com alguém que goste das músicas que você gosta. E se você for ao orkut, procurar diretamente por elas, descobrirá que, além da semelhança no gosto musical, elas não se parecem com você em praticamente mais nada. Então, parece que as músicas se tornaram um fator de distinção pior, embora não tão estúpido, quanto os clubes de futebol. Eu, pelo menos, perco mais da metade do entusiasmo pelas músicas de que eu gosto, se descubro que, praticamente, vou ter que gostar delas sozinho (aliás, qual a graça de ser palmeirense se, amanhã, todos os outros torcedores do Palmeiras se tornassem corintianos ou são-paulinos?). Esta acaba sendo, a meu ver, a diferença entre arte (que se pode compartilhar e, portanto, viver) e meros hobbies (que até nos dão prazeres interessantes, mas fugazes e sem significado).

Na era do mp3 e da Internet, o excesso está fazendo com que as músicas deixem de ser arte, como a boa literatura e o cinema, e se tornem apenas distrações divertidas, como ver futebol ou receber massagens.

*****

P. S.: escrevi o texto acima em 11.06.08. Foi mera preguiça só o ter publicado agora, rsrsrs.

Tragédia Monogâmica

Junho 8, 2008 por Paralelo

Existem muitos motivos para o fim da monogamia ser algo positivo. Dia desses, do nada, me veio à mente outro deles, na belíssima canção de Gilberto Gil, Domingo no Parque. A letra fala por si:

O Rei da Brincadeira (ê José!)
O Rei da Confusão (ê João!)
Um trabalhava na feira (ê José!)
Outra na construção (ê João!)

A semana passada, no fim da semana
João resolveu não brigar
No domingo de tarde saiu apressado
E não foi pra ribeira jogar

Capoeira, não foi pra lá
Pra ribeira foi namorar

O José como sempre, no fim da semana
guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
lá perto da boca do rio

Foi no parque que ele avistou
Juliana foi que ele viu

Foi que ele viu… Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
Juliana, seu sonho, uma ilusão
Juliana e o amigo João

O espinho da rosa feriu Zé
e o sorvete gelou seu coração

O sorvete e a rosa
A rosa e o sorvete
Oi, girando no peito
do José brincalhão

O sorvete e a rosa
A rosa e o sorvete
Oi, girando na mente
do José brincalhão

Juliana girando (oi, girando!)
Oi, na roda gigante (oi, girando!)
Oi, na roda gigante (oi, girando!)
o amigo João

O sorvete é morango (é vermelho)
Oi, girando, e a rosa (é vermelha)
Oi, girando, girando (é vermelha)
Oi, girando, girando…

Olha faca… (Olha a faca!) olha o sangue na mão (ê, José)
Juliana no chão (ê, José)
Outro corpo caído (ê, José)
Seu amigo João (ê, José)

Amanhã não tem feira (ê, José)
Não tem mais construção (ê, João)
Não tem mais brincadeira (ê, José)
Não tem mais confusão (ê, João)

Não vou dizer que a solução seria um triângulo amoroso. Este sem dúvida seria a melhor solução, se ao menos pudesse acontecer. Mas quem sabe se Juliana, mesmo estando livre da monogamia, estaria interessada em José? Se sim, a monogamia leva toda a culpa pela tragédia. Se não… a vida é complicada…

Mas quero frisar o poder da amargura de ser rejeitado, e ter que contemplar de fora a felicidade egoísta de um casal. Gil foi genial quando colocou o crime nas mãos de José, “o brincalhão”: não é preciso ter uma índole violenta para perder o controle de si numa situação tão insuportável. A alegria do amor é o sentido das vidas humanas, ou de longe a maior parte dele. A imposição social da monogamia causa uma verdadeira tragédia ao piorar o que já é difícil: conquistar este amor.

Então, apenas para poupar os ciúmes da pessoa amada, deixa-se os de fora na completa amargura, na solidão, naquilo que é um dos piores estados psicológicos em que alguém pode se encontrar – talvez perdendo somente para o luto de perder uma pessoa amada.

Como diz Robert Wright, em Não-Zero, “o amor é, por natureza, uma emoção detestável”, e continua:

“O problema não é apenas que o amor seja estendido de maneira seletiva, em geral parando de súbito nos limites familiares. O problema é que o amor costuma ser estabelecido em detrimento ativo das pessoas de fora da família. Afinal, o mundo lá fora é uma selva e queremos que nossos entes queridos triunfem.”

Na monogamia, absurdamente, a pessoa que ama quem você ama é, não uma grande aliada ou amiga, mas uma rival. E não é nada incomum que, além de ela – a pessoal rival – perder seu sonho, ainda seja alvo de provocações, seja do próprio casal, seja dos circundantes. Eu já vivi a monogamia. Tentando “demarcar terreno”, minha namorada fez questão de parar comigo na frente da outra e, na cara dela, me beijar na boca – e todo aquele ar de “fique no sonho, perdedora”. De minha parte, ou eu aceitava a situação, ou teria problemas conjugais. E a “rival”? Pro inferno, não? O amor é péssimo.

E, é claro, eu me envolveria facilmente com aquela outra moça, se pudesse. Eu gostava dela.

Muita infelicidade e sofrimento são causados não pela falta de amor recíproco, mas pelo simples fato de que, se pudesse, a pessoa que você ama estaria com você. Mas ela não pode: ela “já tem outra”.

Às vezes, é claro, não amamos quem é louco por nós. Isto, em si, já é tragédia suficiente. Mas a verdade é que, na maioria das vezes, não ficamos indiferentes. Alguém nos amar é algo raro e valioso e, se estivermos livres, é natural que isso nos toque profundamente. E, com “livres”, não quero dizer “solteiros”. Mesmo as pessoas solteiras, sendo monogâmicas por princípio, sabem que estar com alguém será deixar de estar com todos os outros. O solteiro monogâmico, portanto, não é livre: ele pode evitar o amor de certas pessoas não por não corresponder, mas pelo simples fato de que, se é pra ter só uma, que seja a melhor possível.

Mas o amor poderia ser bem mais do que este disseminador de tragédias. A verdadeira liberdade nos daria isto. Havendo amor e interesse (e, na liberdade, raramente não há), pra quê fazer isso com os outros? Por quê espezinhá-los com frustração e amargura, quando aquele que você ama gosta deles (ou, pelo menos, diria que gosta, se tivesse permissão)? Só por causa de ciúmes?

Os ciúmes podem ser ruins e péssimos, sobretudo quando se acredita cegamente em três mentiras: 1) que amar uma segunda pessoa é deixar de amar a primeira; 2) que ser vítima de “traição” é ser socialmente humilhado; e 3) que deixar seu parceiro livre é aumentar o risco de perdê-lo. Estas três crenças são três litros de gasolina despejados no fogo dos ciúmes. Mas crenças são passíveis de mudança (sobretudo as obviamente erradas).

Então, como eu dizia, ciúmes podem ser péssimos, mas não são nada comparados com a frustração e amargura de ser deixado pra trás, como o caso do José da letra. É verdade que os ciúmes, nos EUA pelo menos, são a maior causa de homicídios. A frustração do Zé, contudo, é a maior causa de suicídios – apesar da direção que a letra toma.

É preciso sabedoria para controlar os ciúmes, mas o lucro é alto.

Como cantou Paula Toller, em Poligamia:

Abastece de óleo os neurônios
Esquece o monopólio de hormônios
Prazeres já temos de menos

Ciúmes já temos demais