O PAPEL DA INTUIÇÃO EM FILOSOFIA
Acho que todas as minhas posições recebem, em bloco, uma mesma objeção dos meus colegas “trieístas”: são posições que não consigo abandonar porque tenho o vício de pensamento de me aferrar às minhas intuições. É como se não me bastasse que os argumentos fizessem sentido, mas que, além disso, eu precisasse que a conclusão fosse intuitivamente satisfatória.
Diante desta objeção eu sempre reitero que sequer estamos falando da mesma coisa quando usamos o termo “intuição”. As definições popular e técnica do Houaiss, contudo, me parecem espetacularmente adequadas como matéria-prima aqui:
1 faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas, independentemente de raciocínio ou de análise.
2 Rubrica: filosofia.
forma de conhecimento direta, clara e imediata, capaz de investigar objetos pertencentes ao âmbito intelectual, a uma dimensão metafísica ou à realidade concreta.
Obviamente que até mesmo para um crítico da intuição tão extremo quanto CD a intuição precisa ter seu papel, dentro do raciocínio, se estivermos usando a segunda definição acima. Como, a contragosto, ele foi levado a admitir em conversa nossa no Messenger, a maneira pela qual ele sabe que, partindo de certos axiomas, você sem dúvida prova certas verdades, é “olhando para o raciocínio e vendo que a prova faz sentido”. Isto é exatamente a forma de conhecimento direta, clara e imediata, capaz de investigar objetos pertencentes ao âmbito intelectual de que fala a definição acima.
Ou você conta com este tipo de intuição, ou simplesmente não pode raciocinar. E é deste tipo de intuição que falo. A meu ver, o fato de que um argumento não fez o menor sentido, e o fato de ser intuitivamente insatisfatório, são a mesma coisa. Mas, pelo visto, estão pensando que falo de “intuição” quase no sentido de pressentimento. Sem dúvida, eu quero que as coisas “encaixem”. Se isto não é pedir por argumentos que façam sentido, então não sei o que é.
Se eu fosse um viciado por intuições no sentido vulgar, até hoje não aceitaria a teoria da relatividade, o heliocentrismo ou a estatística das quedas de avião. A verdade é que, no sentido que importa, estas coisas fazem sentido, o que é o mesmo que serem “intuitivamente satisfatórias” – apesar de serem contra-intuitivas no sentido mais vulgar. Mas sem dúvida este já não é o caso de certas interpretações da física quântica ou da lógica paraconsistente – interpretações que, por isso mesmo, se tornam suspeitas, tanto quanto a notícia de que um UFO em forma de “círculo quadrado” tenha sido visto por 100 mil pessoas no centro de Nova Iorque.
O que chamo de “intuição” nada mais é do que a capacidade, que temos de ter se nos julgamos competentes em raciocinar, para avaliar o que faz sentido e o que não faz. Mesmo para confiarmos num raciocínio básico do tipo “dado o conjunto A de axiomas, se P implica X, e P, então X”, precisamos “olhar pro raciocínio” para saber. É inevitável que, a certa altura, vejamos a verdade diretamente – do contrário, nada do que dizemos vale qualquer coisa.
E aí? Relativismo é tudo o que sobra no prato, se é que sobra.
Março 14, 2009 às 3:41 pm |
O problema com o crédito na intuição, mesmo no sentido filosófico, é que parece ser o caso que algumas pessoas intuem diferente de outras.
Se a intuição de uma pessoa o faz crer que universo é feito de objetos matemáticos e a de outro que é feito de cores, não se pode deixar o critério de decisão entre eles ser a intuição porque ela difere.
Eles precisam então conversar a respeito daquilo que concordam, e tentar ver até que ponto sua visão de mundo cabe no que o outro considera que é o mundo. Uma vez que tenham essa linguagem comum, eles podem fazer a defesa daqueles objetos que dizem ter acesso pela intuição.
Mas como defender um objeto que só você tem acesso publicamente?
Aqui interfere o argumento da linguagem privada de Wittgenstein. Se uma linguagem é um conjunto de regras definidas e restringidas pelo uso numa comunidade, como é possível uma linguagem que não possa ser restringida pela comunidade, que não tenha regras.
Como é possível uma intuição que está acima e além de qualquer análise?
Encerro com uma pequena propaganda do blog no qual eu e 9 intelectuais participamos, no link acima.
Março 15, 2009 às 2:19 am |
Para mim essa descrição de intuição quer dizer pensamento não-verbal. O raciocínio não é linguístico, a linguagem é uma tradução distorcida do pensamento, dessa intuição. Embora a linguagem contribua adicionando clareza e organização ao pensamento não-verbal, é mais lenta e distorcida que ele.
Como disse o Diego, para trocar intuições entre pessoas é preciso a transformar numa linguagem, que será interpretada segundo as definições de outra pessoa, e transformada em intuição ou pensamento não-verbal.
Acho que a intuição, ou o pensamento não-verbal, é superior ao pensamento verbal, pois é anterior a ele, e é aquilo que o interpreta. A lógica formal é baseada na linguagem e não na intuição, de forma que depende da intuição para interpretação, se tornando cheia de falhas.
Março 25, 2009 às 9:12 pm |
cara, não sei como vim para aqui…. estava pesquisando Jung, Arquetipos, Pensar, Sentir e Agir e acabei aqui…
Achei otimo……Paralelo, voce cruzou minha linha e formou um angulo reto…
blz.
CArlos
Março 29, 2009 às 2:40 pm |
Hahahaha!
Maravilha, Carlos! Aparece aí =)
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Diego, penso que esse problema de “intercomunicabilidade” das intuições básicas – por exemplo, da existência do vermelho – é uma mera limitação logística. Qualquer das demais coisas, que podemos comunicar, são compostas de átomos não-analisáveis, afinal. Negar tais átomos é negar tudo. E Wittgenstein… Continuo achando-o maluco.
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Jonatas, não me está claro a relevância de a lógica FORMAL ser baseada na linguagem. Pra começar, essa é uma noção estranha. Parece-me que a lógica formal é baseada na LÓGICA que, por sua vez, é descoberta/criada (a gosto, rs) pelo pensamento intuitivo não-verbal.
Sem dúvida, não dá pra dizer que a lógica formal “decorre” da gramática, por exemplo…
Como sempre, a linguagem é apenas um meio aí, sem qualquer papel dinâmico ou central na história. Assim me parece sempre – o que, aliás, é a razão de eu não ir com a cara de Wittgenstein, rs.
Março 31, 2009 às 6:55 pm |
Bom, de certa forma vc tem razão. Pode-se dizer que a lógica formal é baseada na linguagem pois é o meio que ela usa para se manifestar, e se pode dizer também que ela é baseada na lógica, pois é o que está por trás do que ela quer dizer. Talvez o problema seja se ela assume a forma linguística concretamente esquecendo de sua origem.