Que ninguém é perfeito, eu já sabia. Mas nem o Pinker? rsrs…
Em virtude da última matéria do site, sobre o mistério da consciência (i. e., a mente subjetiva), que foi publicada ontem na surdina (só vou voltar a divulgar o site quando atualizar outras coisas) e que defende as ideias do filósofo John Searle, eu fiquei com uma farpa intelectual me atormentando. Por causa disso, fui pegar meu antigo exemplar de Como a Mente Funciona, de Steven Pinker, e reler um trecho onde – que eu me lembrasse – Pinker refuta Searle.
A farpa era justamente esta: se Pinker refuta Searle, que diabos eu ia fazer, lá no site, defendendo as ideias de Searle?!
Pra minha inteira e não inteira surpresa, contudo, o que vi foi Pinker – logo ele, o indefectível Steven Pinker! – gastando uma página e meia com uma verdadeira asneira argumentativa. E lembrei, um tanto perplexo, da época em que, sem ainda saber nada sobre filosofia da mente, li Como a Mente Funciona (tem até uma foto no orkut onde poso com o livro) e não tinha como avaliar criticamente diversas passagens mais controversas. Mas não que se você não leu esta obra-prima, não deva parar sua vida agora pra ir lê-la… Vá! Continua sendo um livro “ou-você-lê-ou-você-não-é-ninguém”. Só não é perfeito, claro, como acabei de confirmar.
E, a partir de agora, vou explicar o erro de Pinker. É pra quem gosta de filosofia da mente (mas não precisa ser especialista nem nada, ok? Acho que dá pra arriscar, rs).
Vamos lá: Steven Pinker é cientista cognitivo; e a ciência cognitiva afirma que o cérebro é um computador e a mente, por sua vez, é o software do computador. John Searle (à direita), como mostrei lá no site, afirma que este é apenas outro modo de cometer o mesmo velho engano dos materialistas (filósofos da mente que afirmam que a mente é nada exceto partículas), isto é, o engano de afirmar que a mente, que é subjetiva, é igual a outra coisa, que é objetiva – no caso, um software de computador. Mas já afirmaram, igualmente, que a mente é a eletroquímica do cérebro, ou o comportamento… enfim, leia a matéria.
John Searle afirma que a computação pode apenas simular a mente, mas nunca produzir uma mente de verdade (com subjetividade, com estados qualitativos interiores como dor, alegria, visão de cores, etc. – nenhum computador, ou software, ganhará magicamente tais faculdades!); do mesmo modo, a computação pode apenas simular uma explosão, sem por isso produzir explosões reais.
Tudo isto deveria ser óbvio por si.
Mas como o mistério da consciência é tão bizarro que leva grandes intelectuais a cometer erros absurdos, Searle propôs um argumento – um clássico! – para provar o óbvio de uma vez por todas. O argumento da Sala Chinesa vem pra mostrar que computação é uma coisa, pensamento é outra. Computação é uma execução cega de regras; pensamento envolve entendimento real, consciente, em primeira pessoa.
Assim, imagine um programa que simula perfeitamente o entendimento da língua chinesa. Para Searle, esse programa apenas simula o entendimento de chinês. Para Pinker, esse programa entende chinês de fato – do mesmo modo que uma pessoa que vive na China! Para tirar a dúvida, Searle propõe o seguinte: coloque uma pessoa, que só sabe falar inglês, dentro de uma sala. Dê pra ela um conjunto de regras para seguir (as mesmas regras que o programa utiliza). Por uma janela, ela recebe papéis com símbolos chineses. De acordo com as regras, ela desenha outros símbolos (por exemplo: “se você receber dois riscos, desenhe três rabiscos; etc.”) e os devolve pela janela.
Ora, essa pessoa está simplesmente executando os passos do programa.
O chinês que está fora da sala fez uma pergunta em chinês e a enfiou na janela. Pouco depois, a resposta correta, em chinês, saiu pela janela. Do ponto de vista dele, há alguém fluente em chinês dentro da sala. Mas, na verdade, não. A pessoa lá dentro só sabe inglês. Não entende nem a pergunta e nem a resposta em chinês. Mas, obedecendo as regras, ela deu a resposta – sem entender nada, contudo! E esta é a diferença entre computar (simular) e pensar (entender). Embora os resultados possam ser iguais, o processo é completamente diferente. Os computadores fazem o que fazem (até compõem boa poesia e música – sério!), porém sem entender coisa alguma. Eles nem sabem que existem!
E, se Searle está certo sobre isso, toda a base da área de Steven Pinker, a ciência cognitiva, está furada! A mente não é um computador coisa nenhuma. Daí eu me lembrar vividamente de, em Como a Mente Funciona, ver Pinker massacrando Searle. Ou tentando fazer isso.
Basicamente, Pinker diz que o argumento da Sala Chinesa, que vimos acima, “apela ao senso-comum”. E que o senso-comum geralmente foi refutado pela ciência (a geometria real não é plana, o tempo é relativo, todas aquelas loucuras quânticas, bla, bla, bla, etc.). E tenta achar o “pulo do gato” no fato de que a Sala Chinesa decompõe a computação, que é hiper-veloz, em seus pequenos passos, um por um – e, por isso, a computação não parece entendimento.
Eu fiquei de queixo caído ao ver Pinker propor esta objeção tão claramente furada. Fica claro como água que é ele quem está “apelando ao senso-comum”, já que ele espera seduzir a intuição das pessoas com a ideia de que a execução cega de regras, se for hiper-veloz, vai “parecer” entendimento real. Oras, como a mágica acontece?! O programa de computador que simula chinês apenas executa regras passo-a-passo, copiando os padrões sintáticos e semânticos do idioma. Não há entendimento algum ali. Então você dá flash-foward no sistema e, shazam!, o entendimento real surge? É loucura!
Mas, ok… eu sei que a intuição cambaleia entre os dois lados. Isto não é uma tese de mestrado, é um blog. Tenho certeza de que Pinker erra feio, mas precisaria de páginas e páginas para retirar todas as confusões que normalmente impedem as pessoas de verem isto. E, tá, tá… vai que o errado sou eu (e Searle).
Fato é que o assunto é incrivelmente emocionante.
maio 13, 2010 às 5:55 pm |
Acho que estaria correto dizer que a computação pode produzir uma mente de verdade, a menos se entendermos computação num sentido abrangente que inclua o cérebro humano, que é uma espécie de computador. Se os parâmetros necessários à existência de consciência admitem uma maior ou menor variação para longe daqueles encontrados nos cérebros é algo ainda incerto, mas parece certo que admitam alguma variação. Qualquer que seja o princípio de funcionamento da consciência, não creio que os parâmetros específicos do sistema que a gera sejam muito essenciais.
maio 16, 2010 às 1:52 am |
Qualquer que seja o princípio de funcionamento da consciência, não creio que os parâmetros específicos do sistema que a gera sejam muito essenciais
Pois eu hoje acredito no perfeito oposto: que a seleção natural encontrou um modo ultra-específico de utilizar as propriedades físicas. Mas, para compreender meu ponto, é preciso lembrar que eu NÃO entendo a consciência como um “plus” que enfeita os algoritmos do cérebro. Eu creio que os algoritmos fariam com bilhões de vezes mais trabalho o que a mente consegue fazer de forma direta: produzir comportamento evolutivamente eficaz.
Algoritmos precisariam calcular zilhões de variáveis, em cega terceira pessoa. A mente entende subjetivamente, é outro papo. Dizem que as tarefas ‘aparentemente mais simples’, como levar o copo de água à boca, são as mais complexas. Mas isto apenas se supormos que elas são COMPUTADAS. Acho que a seleção natural evitou o esforço, descobrindo um caminho mais eficaz: a mente.
E, nesse sentido, creio que a seleção natural fez algo bem específico com o cérebro.
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Acho que estaria correto dizer que a computação pode produzir uma mente de verdade, a menos se entendermos computação num sentido abrangente que inclua o cérebro humano, que é uma espécie de computador
Se você chamar o que o cérebro faz – seja o que for – de ‘computação’, então temos a típica afirmação vazia, né?
Eu acho que ‘computação’ já tem significado específico: execução cega de regras formais (literalmente: de causalidade padronizada). E a consciência não é isso.
julho 6, 2011 às 4:24 pm |
Ora, pelo artigo sobre o livro de searle me pareceu (digo, pelo artigo, talvez no livro isto esteja melhor esclarecido) que o searle também dá um tiro no pé. se a mente emerge das propriedades físicas do cérebro, não poderíamos criar neurônios artificiais e por fim um cérebro artificial do qual também emergeria a consciência? e se isto tudo for simulado num computador então? uma rede neural exatamente igual a um cérebro humano (se tivessemos tecnologia computacional para tanto), não emergiria também inteligência, que seria artificial?
julho 8, 2011 às 6:55 am |
Felipe,
Searle é geralmente mal compreendido como se afirmasse não ser possível criar um robô consciente. É claramente possível. Nós mesmos somos robôs conscientes, então é tudo uma questão de reproduzir, numa máquina, tudo o que o cérebro faça.
Mas!
Nunca uma representação meramente computacional do cérebro poderia reproduzir a consciência, pela mesmíssima razão que uma representação meramente computacional do fogo jamais reproduziria o calor.
E isto porque, estritamente falando, uma representação computacional não existe objetivamente. Só existe na interpretação mental que fazemos dela. Nós é que olhamos para aquele conjunto de padrões físicos e atribuímos uma interpretação ao sistema: por exemplo, a interpretação de que ele *simula* fogo, ou *simula* o cérebro. Mas não será quente ou terá consciência – porque não há nada realmente ocorrendo ali, só em nossas interpretações.
Como diz Searle, é preciso reproduzir os *poderes causais* do cérebro, sejam quais forem, para gerar consciência. E mera computação – que é definida sintaticamente – não pode fazer isso.
Eu costumava concordar com a Inteligência Artificial Forte, mas após compreender Searle, caiu a casa.