O Fim do Sagrado (Profanando Jesus)

Há um movimento sujo no orkut. Sujo, e bem-vindo! Quando minha querida e doce Maíra, uma ateísta não extremamente convicta, soube da comunidade Jesus Devia Ter Apanhado Mais, e seus mais de 60 mil membros, torceu seu belo narizinho: “Ah, não gostei da comunidade. Bobagem”. Aí eu disse: “Não é nada intelectual, mas é fincar uma bandeira importante: o direito de não tratar ícones religiosos como ‘sagrados’. Pessoalmente, acho uma delícia, rs”.

Ela, concedendo: “ah… é…. pode ser. Mas ainda assim é meio infantil”.

Eu: “vamos e venhamos: é uma linguagem perfeita pro religioso médio ENTENDER a mensagem… nada de filosofia ou refinamento, apenas a provocação pura e simples… é um trabalho sujo, mas é bom ter alguém fazendo isso… irreverência é sempre um ótimo sinal de que os poderosos estão perdendo a pose, afinal”.

E mudamos de assunto.

Eu acho, a sério, que este tipo de “infantilidade boba” é importantíssimo, e vou dizer por quê: ser religioso não é uma postura racional (digo, fruto de reflexões intelectuais), mas essencialmente moral; e a moralidade depende sobretudo da opinião da maioria. Quando o indivíduo começa a perceber que a maioria está mudando, seus sentimentos morais começam a afrouxar. O que se conclui disso?

Que a melhor maneira de convencer um religioso a mudar não é argumentando, mas persuadindo-o de que a maioria, ou cada vez mais pessoas, está reconsiderando o valor sagrado (moral) da religião.

Analisemos rapidamente a força da sensação moral.

Suponha que irmãos façam sexo seguro e gostem: parece horrível? Para a grande maioria certamente sim. Incomoda. E é um incômodo moral. Como sabemos que é moral? De dois modos: primeiro, se achamos que é errado não só pra nós, mas para todos! Segundo, e mais certeiro, se não temos argumentos para explicar por que é errado. Por que irmãos não podem fazer sexo seguro, caso gostem? Nem tente: não há razão alguma para impedi-los. Você apenas sabe que a maioria das pessoas tem ojeriza ao incesto e, por isso, sente que é absurdo ir contra o senso comum.

É o típico sentimento moral: forte e inexplicável, ele apenas te controla.

Quando você descobre que 50% dos irmãos criados separadamente se apaixonam de modo fulminante ao, já adultos, se verem pela primeira vez (isso é verdade), então o ódio ao incesto começa a arrefecer.

É por isso que não há iniciativa melhor do que um simples e bombástico Jesus Devia Ter Apanhado Mais. É o tipo de coisa representativa e barulhenta que balança um religioso, e ele não pode evitar: “Quer dizer que 60 mil pessoas tratam o ‘sagrado’ assim? Será mesmo sagrado? Será que eu preciso mesmo ser religioso?”. A comunidade, aliás, foi deletada do orkut algumas vezes, certamente por ser considerada ofensiva aos religiosos. Mas o título dela, considerado bobo e infantil pela Maíra, também é esperto: não é “os religiosos são burros” ou algo assim. É uma opinião sobre um personagem histórico e, provavelmente por isso, a defesa colou e a comunidade deixou de ser deletada. Na verdade, o argumento é:

“Ele veio para pagar os nossos pecados e não apanhou nem 5 minutos! Homem frouxo.”

E não é que é verdade?

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Uma resposta to “O Fim do Sagrado (Profanando Jesus)”

  1. Jonatas Says:

    “Jesus devia ter apanhado mais”. Isso é como consentir com a idéia de que apanhar leva a alguma coisa positiva, uma outra questão inteiramente, eu prefiro não reforçar a banalidade.

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