IEI 11 (Ateísmo)

Ateísmo Militante x Ateísmo Passivo
(Paralelo & Vitor (?) contra CD, Pierre e Diego)

Estou incluindo o Vitor do meu lado do muro pelos comentários deliciosamente intolerantes que ele fez sobre os religiosos [momento em que a Lê me traz o “almoço” – são 6 da tarde! – aqui no micro, pois não paro de escrever há 5 horas… Satânica pílula de cafeína do CD!]. Coisas mais ou menos como: “tenho vontade de esmagar a cabeça de uma pessoa que escuta um argumento racional, entende, não consegue refutá-lo e persiste na teimosia da crença!”. Err… Talvez esse tipo de coisa seja parte da razão pela qual as meninas fiquem um tanto tímidas na hora dos debates, rs.

As críticas dos ateus passivos divergem.

O CD está convencido de que ateísmo militante é perda de tempo, pelo menos no caso dos religiosos mais convictos – segundo ele, é a maioria. É que eles simplesmente não vão mudar [curiosidade: estou sob efeito de cafeína e, já várias vezes, escrevo “simplismente” sei lá porque… O Word me corrige, é claro]. São teimosos e irredutíveis, e só vale à pena deixá-los quietos.

O Diego, menos se importando com a saúde mental dos religiosos, acha que há causas melhores pelas quais se lutar, sobretudo a causa do transumanismo e a apologia da tecnologia, para que ela seja capaz de superar a morte, a tempo de aproveitarmos isso. E, segundo o Diego, a causa ateísta é um desserviço à causa do transumanismo: em vez de aporrinhar os religiosos e irritá-los, é melhor buscar a cooperação deles e fazê-los se abrirem para as vantagens da tecnologia – eis o argumento.

Minha resposta é que, se for possível tornar os religiosos ateus, em vez de simplesmente bajulá-los, então a aversão à tecnologia desaparecerá automaticamente. Parece óbvio: sem Deus, por que achar que a natureza é sagrada? Ademais, o boom ateísta nos países europeus parece mostrar que militância ateísta funciona bem. Aí o Diego diz que conheceu ateus capazes de crer em astrologia; e eu digo que nunca vi isso; e ele diz que nós dois temos viés de observação pela nossa situação ideológica e social; e, por fim, admitimos que não dá pra saber quem tem razão na escassez de dados. Só um bom 38 pra resolver a pendenga…

Da opinião do Pierre não estou seguro, mas desconfio que ele acha o ateísmo militante algo arrogante, fútil e despropositado – não muito: todos concordam que desafiar religiosos é divertido e prazeroso. A questão é se serve de algo.

Eu discordo perigosamente deles.

Meu ponto se baseia em suposições ousadas, e quase certamente inseguras, sobre a natureza das emoções morais e a relação do sentimento religioso com elas. O post deste blog, Profanando Jesus, mostra meu ponto em maiores detalhes.

Basicamente, concordo com o CD que o religioso típico é imune a argumentos racionais – mas só no sentido estrito de que estes, sozinhos, não são suficientes para demover um religioso, mas (e aí discordo do CD) sem dúvida ajudam a fazê-lo. A religião é uma postura moral, não racional – mas se o religioso percebe que a razão não está do lado do “sagrado”, sem dúvida isto fragiliza sua fé. Mas quem vai fazer o trabalho final de demover de vez o religioso – e penso que isto está acontecendo massivamente hoje – não é a razão, e sim o que Dawkins chama de Zeitgeist Moral ou, como eu simplifico, a opinião da maioria.

Se eu estiver certo, o ateísmo militante faz sentido justamente pelo barulho que faz.

Se eu estiver errado, não. E é tudo.

É muito mais fácil ser religioso (e acreditar em coisas que, se verificadas com cuidado, se revelariam absurdos) quando todos os outros tratam a religião como sagrada, em vez de quando há muitos que se riem publicamente do suposto “sagrado” e, pior, constantemente minam o esforço religioso de evitar a tentação de questionar (eis o papel importante, embora de coadjuvante, da razão).

Todo o sagrado é uma conspiração! O sentimento do sagrado só se produz com base na percepção de que a maioria vai te deixar no ostracismo, caso você ouse ser menos do que completamente ortodoxo quanto ao tabu em questão. A sensação do sagrado, do intocável, é (posso apostar) a maneira que a seleção natural criou de assegurar que o indivíduo não se torne um pária, um socialmente excluído. Quando ele começa a perceber que pode pensar diferente sem ser molestado por isso, a força do “sagrado” se esvai em fumaça.

Por isso, ateus uni-vos!

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5 Respostas to “IEI 11 (Ateísmo)”

  1. Jonatas Says:

    O que é um religioso? Existem religiosos e religiosos. O povo em geral pode ser dito religioso mas não-praticante. Esses mudam de opinião facilmente. Acho que é perda de tempo tentar convencer o Papa a se tornar ateu, até porque logo ele vai morrer. Melhor fazer um macro-serviço para a cultura em geral que influencie as gerações futuras. De fato há uma crescente tendência em direção à não-religiosidade. A religiosidade é um obstáculo ao transhumanismo e ao libertarismo, e portanto é benéfico que ela desapareça.

  2. Jonatas Says:

    Aliás, acho que esse Papa, mesmo sem saber, está trabalhando muito bem em favor do ateísmo, ao passar uma propaganda negativa da religião.

  3. Diego Says:

    “Parece óbvio: sem Deus, por que achar que a natureza é sagrada?”

    Porque é assim que as pessoas são. Em lugares onde a maioria é religiosa, só alguém inteligente e que não se submeta a achar a natureza sagrada vai sair do armário como ateu. Aqui na metrópole, onde é sussa não ser religioso, não é bem assim, a crença na natureza sacra, principalmente na morte sacra, é generalizada, enquanto Deus é deixado bastante de lado.

    “Ademais, o boom ateísta nos países europeus parece mostrar que militância ateísta funciona bem”

    Demonstra perfeitamente meu ponto, que só ser ateu não é suficiente para parar com a homeopatia, os cristais coloridos e principalmente achar que a natureza é boa e que morrer é bom e que cancer no intestino é bom.

  4. Paralelo Says:

    Jonatas,

    concordo que esse Papa está ajudando o ateísmo. Nada como um dogmático ferrenho na era da internet para apressar as coisas, rs.

    Diego,

    aí na metrópole, onde é “sussa não ser religioso” e, portanto (segundo você), existem ateus astrólogos, quiromantes e profetas… Bem, se isso for verdade, você está falando de uma extrema minoria da população. Afinal, “aí na metrópole” as condições são muito específicas – grana, vida corrida, educação de qualidade, etc.

    Continuo achando esquisitíssimo que você negue a relevância do vínculo entre Deus e a falácia naturalista. E, por outro lado, criticar a religião bem que passa por criticar a pseudociência em geral – por que não?

    Quanto ao “boom ateísta” não ter arrefecido o sucesso de práticas como homeopatia, nos lugares em que esse boom ocorreu, bem, acho que é cedo demais pra dizer…

  5. Jonatas Says:

    Acho que para isso seria preciso um boom levemente diferente, um boom de espírito científico. Mas não me preocupo demais com práticas alternativas, cada um tem liberdade.

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