IEI 4 (Anti-trabalho)

Trabalho x Anti-trabalho (CD, Pierre & Vitor contra Diego (?) & Paralelo)
Status x Anti-Status (Todos! contra Paralelo)

Atenção: o “status” a que me refiro é, especificamente, o status financeiro e material, que é o reconhecido pela maioria das pessoas no capitalismo atual.

O Diego é indeciso porque é tiete descarado de Bertrand Russell, e Russell argumentava em favor do valor do ócio e da falta de sentido do trabalho tal como existe no sistema capitalista. Mas, como o CD, o Pierre e o Vitor, ele parece concordar que o status é uma coisa suficientemente boa e preciosa para justificar o esforço de trabalhar oito horas por dia, em troca de dinheiro – e do poder social que advém dele.

A coisa é confusa.

Em outros momentos, o Diego admite que ter status é algo que, por um lado, acaba te fazendo ter o mesmo prazer de outrora, porém com mais esforço (você se acostuma a luxos e, então, fica prisioneiro deles) e, por outro, te coloca na situação estressante de evitar perder o mesmo status – o que significa medo, preocupação com segurança e, acrescento eu, uma postura conservadora decorrente. Ele está pronto a admitir que há algo de muito positivo na minha postura de ignorar o status: tenho uma liberdade valiosa por isso.

Mas uma coisa que o Diego não admite é: status te deixa paranóico com o fato de alguns de seus vizinhos e amigos terem mais status do que você. Na verdade, nenhum dos participantes do encontro têm essa paranóia – isso ficou claro pra mim, e me fez mudar de idéia. Segundo o Diego, a razão é que em uma metrópole como São Paulo a chance de haver alguém “acima de você na hierarquia” é tão líquida e certa que a tentação de estar “no topo” simplesmente some. Isto pode estar certo, mas também desconfio que a razão, na verdade, é que os participantes são especialmente inteligentes e capazes de enxergar outros valores.

De qualquer modo, pensei o seguinte: talvez só quem seja “paranóico com a concorrência” são as pessoas que “vêm de baixo” e, portanto, se deslumbram e se perdem com o poder adquirido. Quem nasceu em berço de ouro, provavelmente, tem no status algo realmente positivo e valoroso.

E trabalhar? Agora é com o CD o assunto!

Uma coisa é nascer com status, outro é ralar para adquiri-lo. Vale à pena? Há que se considerar que, infelizmente, não existe na sociedade a opção oficial de “abrir mão do status e não trabalhar”: ou você trabalha, ou não come. Todos parecem estar de acordo com a idéia (e, surpreendentemente, com a possibilidade!) de uma sociedade que sustente ociosos – e quem quiser status que trabalhe.

Mas essa sociedade ainda não existe. Eu consigo viver sem trabalhar, ainda e quiçá sempre, graças a uma combinação improvável de fatos – lutei por isso, contudo. Será que, mesmo tendo conseguido isto, eu deveria trabalhar para obter status? Será que estou perdendo algo muito valioso, escolhendo este ostracismo? O CD parece tender a me dizer que sim.

Ele valoriza muita coisa que custa caro, e parece tirar enorme – até essencial – prazer de tais coisas. Há um porém: ele diz amar o trabalho que faz, e assume prontamente que não valeria à pena se submeter a um trabalho não-prazeroso. Dito isso, a questão parece se encerrar pra mim: qual a minha chance, e a da maioria da população, de conseguir um trabalho prazeroso? Quase nula. O CD é uma exceção de sorte.

E eu, pra piorar, tenho uma aversão idiossincrática ao trabalho – além da conta – que piora tudo. Oito horas por dia compromissadas com qualquer atividade! Sinto isto como escravidão insuportável e desesperadora, mas é claro que preciso admitir que para a maioria das pessoas está muito longe disso.

Tenho uma dúvida genuína: será que o CD se beneficiaria de largar suas tarefas e ser livre com menos status? Mesmo supondo que ele conseguisse se livrar da dependência adquirida pelos luxos, e voltasse a ter a mesma dose de prazer com coisas simples, ainda ele é muito convincente ao exprimir o quanto o status lhe faz bem e é proveitoso. E ele pode estar muito certo.

A questão é que, se eu consigo vislumbrar uma vida plena sem status, é graças à todo o resto das coisas estranhas que eu valorizo com força: relações sinceras num grau absurdo, sexo e paixão e amor abertos e afetuosos de todas as partes envolvidas (ou, no lugar disso, amores platônicos e unilaterais da melhor qualidade e compreensão da parte “não romanticamente envolvida”), idealismo apaixonado por causas intelectuais, etc, etc, etc. Sem tudo isto, duvido que abrir mão do status seja viável – e não sei medir o quanto destes valores são idiossincrasias minhas, embora eu esteja francamente aberto à possibilidade de que nenhum deles o seja! Ou de que a maioria seja…

*****

Outra: o Diego frisa que ainda existe uma “moral do trabalho”, e a sociedade odeia um tipo como eu, que consegue ser feliz sem se esforçar num emprego pra isto – é como se eu não merecesse. A mesma raiva, o Diego supõe, causa a aversão às drogas: você gera um enorme prazer mental de forma mecânica, ingerindo um estimulante, sem fazer nada pra merecer o prazer.

Conclusão entusiástica do Diego: “o Lauro e as drogas são a mesma coisa!”.

Haha… ¬¬

Mas eu considero este argumento muito “sociologista”.

Minha alternativa é esta: o que se valoriza na sociedade é status financeiro, e este só é conseguido através do trabalho; logo, quem não trabalha é obviamente vergonhoso (vergonha é o sentimento de perder status). Por isso a hostilidade contra os ociosos – é como se eles fossem babacas: “se você não trabalha, você é um perdedor, um fraco que escolheu a derrota”. É assim que sentem!

Arrisco mais: os ociosos incomodam também por fazer com que os trabalhadores sintam que, no fundo, todo o seu esforço pode ser vão. Que há quem consiga ser feliz e ter sucesso pessoal sem perder tanto tempo. É uma inveja e um medo de estar se esforçando à-toa (e a resultante hostilidade contra quem causa este sentimento), mas não uma condenação moral. Trabalhar é difícil e penoso para a maioria, e acreditar que há enorme sentido neste sofrimento é, sem dúvida, a melhor forma de suportá-lo. A existência de ociosos felizes mina esta crença.

Mas meu argumento foi assimilado como algo que pode coexistir com o ponto do Diego. Bem, talvez. Uma versão light da “moral do trabalho” sem dúvida é verdade.

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6 Respostas to “IEI 4 (Anti-trabalho)”

  1. Jonatas Says:

    Bom, estou cursando economia na faculdade (apesar de me considerar ainda bastante leigo no assunto). Há que se definir “trabalho”. Não pode o ócio produtivo a que se refere Russell e Diego levar a um tipo de trabalho, o trabalho intelectual? Trabalho é a ação que gera um benefício dado em valor de mercado; valor de mercado é aquilo que os outros estão dispostos a pagar, a dar em troca, por esse trabalho.

    O trabalho, se vc abstrair para fora o dinheiro, é um benefício à comunidade em geral. Quanto mais trabalho feito, de mais benefícios desfruta a comunidade. O dinheiro entra nessa equação como um meio de troca, pelo valor de mercado. É uma invenção muito útil, mas sujeito a incompreensões. Alguém faz um trabalho gerando um benefício à comunidade quantificado em valor de mercado, e recebe o direito a um benefício equivalente em valor de mercado. Há também complexidades adicionais como impostos, doações, roubo, etc., mas o princípio é esse.

    Sabemos a diferença que há em efeito entre uma situação em que ninguém trabalha e uma situação em que se trabalha muito. Na primeira há escassez, na segunda há riqueza. A riqueza de uma pessoa deveria ser (teoricamente) proporcional ao benefício gerado à sociedade por ela, quantificado em valor de mercado. Algumas pessoas tem maior capacidade de gerar benefícios ao mercado que outras.

    Para mim a questão levantada da moral do trabalho é toda uma ilusão (aqui concordo com seu amoralismo, em termos práticos, não-nominais), uma moral ilusória. Não há base para vergonha e orgulho na realidade. É verdade, porém, que o trabalho pode trazer mais benefício em termos de felicidade que o ócio, em alguns casos, e portanto ser utilitariamente bom, correto. Não vejo qualquer base para o status, exceto na percepção de mentes menos afortunadas, por isso vou evitar a questão de inteiro.

  2. Diego Says:

    Muito bom esse resumo lauro. vou copiá-lo no meu PC para reflexões futuras.

    “Trabalhar é difícil e penoso para a maioria, e acreditar que há enorme sentido neste sofrimento é, sem dúvida, a melhor forma de suportá-lo. A existência de ociosos felizes mina esta crença.”

    Acho esse argumento verdadeiro e bastante responsável pela revolta com o ócio.

    “eu deveria trabalhar para obter status?”
    Duvido que o CD defenda isso, se defende, ele é ignorante da dificuldade de trabalhar.

    “o que se valoriza na sociedade é status financeiro, e este só é conseguido através do trabalho”

    Sua tese está obviamente errada. Status financeiro se consegue em quase metade dos casos através de casamento, herança ou algo do gênero, trabalho é apenas uma forma de conseguir dinheiro.

    O que é um forte argumento a favor da minha tese de que o que é desvalorizado é o ato de não trabalhar e não o ato de não ter dinheiro.

    Você pensa em Status financeiro. Eu digo que existe também o Status Lavoro. O Status advindo do trabalho, da moral do trabalho.

  3. Paralelo Says:

    Jonatas,

    durante seu curso de Economia, tente se preocupar com a seguinte questão:

    “É economicamente plausível e viável uma sociedade que sustente ociosos? Por exemplo, caso todas as pessoas ganhem um salário mínimo de forma gratuita (e que seja possível viver com isso, da forma mais singela possível, contudo garantindo a opção de não trabalhar)?”

    Esse foi um ponto de debate no IEI, mas acredito que somente um economista possa dar uma palavra segura sobre isso.

    Obviamente, a primeira idéia é que, se todos ganham dinheiro grátis, os preços no comércio vão subir de modo a compensar o benefício. O Diego disse ter ouvido de economistas que não será necessariamente assim.

    *****

    Diego,

    o CD defende justamente que trabalhar vale à pena quando o trabalho é prazeroso. Só que aí eu digo: “e quando é isso?!” rsrsrsrs

    E, sim, minha tese está errada: “o que se valoriza na sociedade é status financeiro, e este só é conseguido através do trabalho”. Mas melhor para o meu ponto, não?

    Pois a verdade é que as pessoas que tem status financeiro puro e simples, sem trabalhar (como herdeiros de fortunas, esposas de ricaços, etc.), têm tanto prestígio social (ou até mais, dependendo apenas de QUANTO dinheiro têm) quanto os que conseguem status com base no trabalho.

    Isso parece mais indicar que não há esse “status lavoro” – não de forma muito relevante, pelo menos. Um gari de rua simplesmente têm mil vezes menos status do que um possível filho fútil e bon vivant do Bill Gates teria.

    E ainda posso manter meu ponto. Uma coisa é não trabalhar já tendo status; outra é não trabalhar mesmo não o tendo. Só neste último caso a pessoa é hostilizada, ou seja: “se você não trabalha, você é um perdedor, um fraco que escolheu a derrota”.

    Acho que o status financeiro é tudo nessa história.

    Deve existir um “status lavoro” básico, já que a maioria trabalha e a tendência é tornar isso sagrado. Mas o trabalho é tão obviamente um mal necessário (e talvez nem isso!), que esse “status lavoro” não deve ser mais forte do que a moral do “não fume”.

  4. Jonatas Says:

    “É economicamente plausível e viável uma sociedade que sustente ociosos? Por exemplo, caso todas as pessoas ganhem um salário mínimo de forma gratuita (e que seja possível viver com isso, da forma mais singela possível, contudo garantindo a opção de não trabalhar)?”

    Esse dinheiro terá que sair de algum lugar. Será ele apreendido, como imposto, das pessoas que trabalham, e redistribuído pelo governo, da forma como o nosso governo faz com o Bolsa-família, etc.? Nesse caso não haveria inflação (especificamente por causa disso).

    Supondo que ninguém trabalhe e todos ganhem um salário mínimo: depois que as pessoas gastam esse salário, para onde vai o dinheiro? Para o governo, que depois o redistribui? Nesse caso não haverá inflação também (por isso especificamente), supondo que a oferta de bens cresça na mesma proporção que a população.

    A inflação ocorre quando há um crescimento na quantidade de dinheiro em relação à quantidade de bens à venda (sejam produtos, serviços, etc.). A deflação ocorre quando há o inverso, um crescimento na quantidade de bens à venda em relação à quantidade de dinheiro.

    Crescimento na quantidade de dinheiro não quer dizer necessariamente que o governo esteja emitindo dinheiro novo para se auto-financiar, embora em grande parte dos casos seja isso. Pode significar também um aumento de crédito, quando os bancos cobram menos para emprestar dinheiro, e o dinheiro é “duplicado”: o mesmo dinheiro que as pessoas têm no banco é usado pelas empresas, por empréstimo, para investir em melhorias. Dessa forma há como um aumento na quantidade de dinheiro, e na falta de um aumento semelhante na oferta de bens haverá, teoricamente, inflação.

    O valor nominal dos preços é pouco importante, o que conta é que haja para cada pessoa com dinheiro na mão uma quantidade correspondente de bens produzidos que ela possa comprar com esse dinheiro.

    Se o trabalho é todo realizado por cyborgs, e aproveitado pelas pessoas, conforme cotas de dinheiro, cada pessoa poderá ter uma parcela dos bens produzidos. Se a relação entre o dinheiro e os bens tender para um lado haverá inflação, para o outro, deflação.

    Era isso, ou não tem nada a ver?

  5. Diego Says:

    Não necessariamente um dinheiro emitido gera inflação. Suponhamos que a oferta de um certo bem exceda a procura. Assim sendo, existe produto sobrando, e ele fica em estoque, ou é jogado fora, queimado, etc…. Quando se emite dinheiro, as pessoas aumentariam a procura desse produto, que não teria seu preço diminuído. Um bem que não estaria sendo aproveitado por ninguém apenas teria sido redistribuído.

    Outro caso. Suponhamos que um produto foi produzido excessivamente (o que acontece com quase tudo), no sentido de que existe menos gente que pode comprá-lo do que a quantidade de produtos a serem vendidos. Isso gera desvalorização do produto, porque existe excesso de oferta no mercado, e as pessoas que podem comprá-lo podem escolher entre um e outro. Se, no entanto alguns desses produtos fossem dados a outras pessoas, que não estão na faixa do poder aquisitivo necessário, o preço do produto poderia ser mantido, a fabrica não faliria, aquele que tem poder para comprá-lo compra-lo-ia, e alguém o ganharia de brinde.
    Isso é o mesmo que o governo emitir vales para compra de produtos em excesso.

    Dinheiro não é um vale de produtos específicos, é um vale genérico, mas poder-se-a sustentar mais empresas se ele fosse emitido independentemente do trabalho, numa era na qual a oferta sempre pode ser maior do que a demanda.

  6. Jonatas Says:

    Vc está supondo que a oferta é maior que a demanda. Nesse caso haveria deflação. No Brasil há o contrário, inflação.

    Teoricamente, a quantidade total de dinheiro deve corresponder à quantidade total de bens e serviços, não importando o valor nominal do dinheiro. Assim, uma fração da quantidade total de dinheiro compra uma mesma fração da quantidade total de bens e serviços.

    O dinheiro não tem valor em si, ele representa os bens e serviços. Se a quantidade total de dinheiro cresce 4 vezes enquanto que a quantidade total de bens e serviços cresce 2 vezes, o preço dos bens e serviços individuais duplicará para acompanhar o crescimento da quantidade de dinheiro (inflação).

    Se um produto fica sobrando ele vai em liquidação, ou seja, o preço baixa: isso causa deflação. Deflação, que eu saiba, é muito raro, só conheço o caso do Japão.

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