Tragédia Monogâmica

Existem muitos motivos para o fim da monogamia ser algo positivo. Dia desses, do nada, me veio à mente outro deles, na belíssima canção de Gilberto Gil, Domingo no Parque. A letra fala por si:

O Rei da Brincadeira (ê José!)
O Rei da Confusão (ê João!)
Um trabalhava na feira (ê José!)
Outra na construção (ê João!)

A semana passada, no fim da semana
João resolveu não brigar
No domingo de tarde saiu apressado
E não foi pra ribeira jogar

Capoeira, não foi pra lá
Pra ribeira foi namorar

O José como sempre, no fim da semana
guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo um passeio no parque
lá perto da boca do rio

Foi no parque que ele avistou
Juliana foi que ele viu

Foi que ele viu… Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
Juliana, seu sonho, uma ilusão
Juliana e o amigo João

O espinho da rosa feriu Zé
e o sorvete gelou seu coração

O sorvete e a rosa
A rosa e o sorvete
Oi, girando no peito
do José brincalhão

O sorvete e a rosa
A rosa e o sorvete
Oi, girando na mente
do José brincalhão

Juliana girando (oi, girando!)
Oi, na roda gigante (oi, girando!)
Oi, na roda gigante (oi, girando!)
o amigo João

O sorvete é morango (é vermelho)
Oi, girando, e a rosa (é vermelha)
Oi, girando, girando (é vermelha)
Oi, girando, girando…

Olha faca… (Olha a faca!) olha o sangue na mão (ê, José)
Juliana no chão (ê, José)
Outro corpo caído (ê, José)
Seu amigo João (ê, José)

Amanhã não tem feira (ê, José)
Não tem mais construção (ê, João)
Não tem mais brincadeira (ê, José)
Não tem mais confusão (ê, João)

Não vou dizer que a solução seria um triângulo amoroso. Este sem dúvida seria a melhor solução, se ao menos pudesse acontecer. Mas quem sabe se Juliana, mesmo estando livre da monogamia, estaria interessada em José? Se sim, a monogamia leva toda a culpa pela tragédia. Se não… a vida é complicada…

Mas quero frisar o poder da amargura de ser rejeitado, e ter que contemplar de fora a felicidade egoísta de um casal. Gil foi genial quando colocou o crime nas mãos de José, “o brincalhão”: não é preciso ter uma índole violenta para perder o controle de si numa situação tão insuportável. A alegria do amor é o sentido das vidas humanas, ou de longe a maior parte dele. A imposição social da monogamia causa uma verdadeira tragédia ao piorar o que já é difícil: conquistar este amor.

Então, apenas para poupar os ciúmes da pessoa amada, deixa-se os de fora na completa amargura, na solidão, naquilo que é um dos piores estados psicológicos em que alguém pode se encontrar – talvez perdendo somente para o luto de perder uma pessoa amada.

Como diz Robert Wright, em Não-Zero, “o amor é, por natureza, uma emoção detestável”, e continua:

“O problema não é apenas que o amor seja estendido de maneira seletiva, em geral parando de súbito nos limites familiares. O problema é que o amor costuma ser estabelecido em detrimento ativo das pessoas de fora da família. Afinal, o mundo lá fora é uma selva e queremos que nossos entes queridos triunfem.”

Na monogamia, absurdamente, a pessoa que ama quem você ama é, não uma grande aliada ou amiga, mas uma rival. E não é nada incomum que, além de ela – a pessoal rival – perder seu sonho, ainda seja alvo de provocações, seja do próprio casal, seja dos circundantes. Eu já vivi a monogamia. Tentando “demarcar terreno”, minha namorada fez questão de parar comigo na frente da outra e, na cara dela, me beijar na boca – e todo aquele ar de “fique no sonho, perdedora”. De minha parte, ou eu aceitava a situação, ou teria problemas conjugais. E a “rival”? Pro inferno, não? O amor é péssimo.

E, é claro, eu me envolveria facilmente com aquela outra moça, se pudesse. Eu gostava dela.

Muita infelicidade e sofrimento são causados não pela falta de amor recíproco, mas pelo simples fato de que, se pudesse, a pessoa que você ama estaria com você. Mas ela não pode: ela “já tem outra”.

Às vezes, é claro, não amamos quem é louco por nós. Isto, em si, já é tragédia suficiente. Mas a verdade é que, na maioria das vezes, não ficamos indiferentes. Alguém nos amar é algo raro e valioso e, se estivermos livres, é natural que isso nos toque profundamente. E, com “livres”, não quero dizer “solteiros”. Mesmo as pessoas solteiras, sendo monogâmicas por princípio, sabem que estar com alguém será deixar de estar com todos os outros. O solteiro monogâmico, portanto, não é livre: ele pode evitar o amor de certas pessoas não por não corresponder, mas pelo simples fato de que, se é pra ter só uma, que seja a melhor possível.

Mas o amor poderia ser bem mais do que este disseminador de tragédias. A verdadeira liberdade nos daria isto. Havendo amor e interesse (e, na liberdade, raramente não há), pra quê fazer isso com os outros? Por quê espezinhá-los com frustração e amargura, quando aquele que você ama gosta deles (ou, pelo menos, diria que gosta, se tivesse permissão)? Só por causa de ciúmes?

Os ciúmes podem ser ruins e péssimos, sobretudo quando se acredita cegamente em três mentiras: 1) que amar uma segunda pessoa é deixar de amar a primeira; 2) que ser vítima de “traição” é ser socialmente humilhado; e 3) que deixar seu parceiro livre é aumentar o risco de perdê-lo. Estas três crenças são três litros de gasolina despejados no fogo dos ciúmes. Mas crenças são passíveis de mudança (sobretudo as obviamente erradas).

Então, como eu dizia, ciúmes podem ser péssimos, mas não são nada comparados com a frustração e amargura de ser deixado pra trás, como o caso do José da letra. É verdade que os ciúmes, nos EUA pelo menos, são a maior causa de homicídios. A frustração do Zé, contudo, é a maior causa de suicídios – apesar da direção que a letra toma.

É preciso sabedoria para controlar os ciúmes, mas o lucro é alto.

Como cantou Paula Toller, em Poligamia:

Abastece de óleo os neurônios
Esquece o monopólio de hormônios
Prazeres já temos de menos

Ciúmes já temos demais

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7 Respostas to “Tragédia Monogâmica”

  1. Alguem Says:

    Sem a monogamia Goethe não teria a menor graça.

  2. Paralelo Says:

    Bom, espero que não seja o caso de sermos monogâmicos por causa da qualidade dos romances e da poesia… Isso que seria heroísmo literário! ¬¬

    *****

    Acho que este é o tipo de post que muitas pessoas adorariam comentar, mas simplesmente não podem ou não ficam à vontade… rum rum…

  3. Thaís Says:

    Eu tinha parado novamente de dar atenção ao meu blog, mas decidi voltar e comentar aqui no seu blog “novo”. É muito bom ter esse contato com outros pensamentos, muito bom mesmo, porque eu nunca tinha parado para pensar nesse modo no assunto que você está falando nesse post, a monogamia.
    Nós crescemos com esse pensamento limitado de que fulano só pode ter uma única pessoa para amar e seguir na vida, que é POSSÍVEL amar apenas uma única pessoa na vida. Mas será que o amor é algo expansivo? Será que é possível amar mais que uma pessoa na vida, e no mesmo momento?
    Será isso uma banalização, ou uma manifestação maior do amor?
    Acho que a maioria das pessoas, responderia, de acordo com essa estipulada cultura, que é uma banalização do amor. Mas sempre achei que o amor é algo que deve se ampliar, deve ser distribuido e não selecionado. Só que neste modo que você colocou, não tinha pensado ainda.
    Então a poligamia, talvez resolveria muitos problemas.

    Beijos.

  4. Paralelo Says:

    Thaís do O Grito! 🙂

    Na troca de micro, e não podendo mais acessar os posts antigos do blog antigo, perdi teu blog em algum momento! Grata surpresa te ver aparecer por aqui.

    Sobre o poliamor, o que digo é: é bom considerar esta possibilidade. Às vezes tenho pra mim que a maioria não seria daria muito bem com ela, nem com mil anos de empenho. As vezes penso diferente. Mas no mínimo, estou certo de que a pessoa monogâmica faria bem em abandonar sua escolha dogmática mesmo que, depois, fosse reabraçar a monogamia: aí seria de forma consciente e deliberada! Ela seria bem mais feliz agora.

    Beijos, Thais! Vou passar no teu blog semana que vem (agora estou às pressas, vou viajar)!

  5. Elaine Cristina Says:

    Muito bom o blog! Estava procurando algo sobre monogamia e poligamia e encontrei seu texto. Acabei me interessando por quase todos os textos. Ainda estou pensando sobre o assunto, mas a monogamia para mim é algo bem relacionado com o fracasso dos relacionamentos atuais… e sentimos isso na pele.

  6. diegocaleiro Says:

    Não li o tópico. Só quero avisar o paralelo que o site da suastica azul tá redirecionando para o blog antigo e desativado. E quem vai saber quantos memes fundamentais estão se perdendo na história futura do planeta, sob essa égide.

  7. diegocaleiro Says:

    Li o tópico.

    Vantagens e desvantagens da monogamia: É importante entender e poder, tanto quanto possível, experienciar as emoções que estão embebidas num goethe. Também é importante entender e poder tanto quanto possível experienciar as emoções de tocar uma guitarra como Jimmy Hendrix. Pode ser mais controverso, mas também considero muito importante poder experiênciar as emoções de matar a florzinha e pular na última tartaruga e pegar a peninha sem cair na lava no castelo do Bowser.
    O que une essas três experiencias é que de alguma maneira elas involvem algo que, dadas as condições atuais socio-culturais do mundo, não pode ser vivido em seu nível absoluto. As vezes para evitar riscos (você não quer realmente cair na lava se não apertar o B…. ) as vezes para ampliar a liberdade alheia (O guitar Hero serve para que todos se sintam mais hendrix…. e a poligamia para que todos possam ter mais amores)

    Há um preço, e alguns matizes do amor são perdidos.

    No entanto, já se disse que todas as cartas de amor são estúpidas. Isso porque já se escreveu muitas.

    Mas ainda não é verdade que todas as cartas de poliamor são estúpidas. Há emoções e prazeres inexplorados nesse ambito.

    A quem considere essas idéias interessantes, sugiro uma visita ao nosso blog http://brainstormers.wordpress.com/2008/07/30/the-starting-gun-2/

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