O Que Será da Música?

A coisa é sombria: Allan faz questão de me apresentar aos independentes The Feitos, Ultraleve, StereoScope; Carlos Daniel me envia seus jazz do Flamenco Sketches, John Petrucci, e instrumentais do Enya, ou progressivos do Dream Teather; Fabrício chega aqui entusiasmado com a coleção inteira do rock do Muse; Júnior me fala da redescoberta de Elvis e do espírito rock original; Léo despeja do pen drive uma penca de hardcores de extrema direita, com gritos incompreensíveis mesmo em português; Letícia, assim que pode, deixa Lily Allen, Rosario ou Toploader ecoando pela casa; Maíra às vezes quase desiste, não sem heróicas tentativas, de me mostrar as maravilhas de Caetano e Cazuza; Paulo me apresenta o DVD do show histórico do Pink Floyd.

Todos aí vão às nuvens com suas respectivas músicas favoritas, e adorariam compartilhar comigo sensações tão boas. E eu, por minha vez, também adoraria compartilhar com eles, não os meus gostos, mas os gostos deles. Pelo visto vontade não basta, é o que percebi. Não é difícil se solidarizar comigo! Veja por si, leitor, tenha você sido ou não citado acima, qual a sua chance de gostar de tantos estilos diferentes?

Escutei com atenção a maioria das demandas. Pude identificar méritos, entrar um pouco na mente de quem gosta de cada música. Mas gostar como eles… Não digo que fosse impossível, mas seria preciso dedicação: é como mudar de clube de futebol, e quem já o fez sabe que, nos primeiros dias ou semanas, você se pega torcendo pro time antigo, e vê algo de insosso no clube novo.

Deixe-me fazer um teste (respire fundo):

Pois bem, os independentes são toscos e pretensiosos; o jazz instrumental é melodia religiosamente tediosa; o rock do Muse é monótono e estridente; Elvis e o rock original são constrangedoramente ingênuos, são o funk dos anos 50; o hardcore é insuportável como uma matraca; Lily Allen, Rosaria, Toploader: melosos de enjoar no meio da primeira audição; Caetano é um nonsense metido a gênio, Cazuza é bonzinho, mas há tantos tão melhores no que ele faz; o Pink Floyd é puro parnasianismo exibicionista.

Fui sincero aí acima. E que tal, leitor? Furioso? Você foi atingido em algum ponto? Ok, exagerei um pouco. Provoquei. Mas a chance também é boa de você ter concordado entusiasticamente em outros pontos. Seja como for, não se preocupe. Como todo mundo, meu cérebro tem uma segunda opinião.

Modo “mente aberta” ON. Vamos lá:

Os independentes mostram uma liberdade de estilo admirável, sem dúvida; o jazz, prestando mais atenção, é sublime, doce, eloqüente sem palavras, grandioso!; o Muse, se ouvido com mais atenção, certamente vai revelar suas sutilezas melódicas, e a estridência se tornará alto impacto; Liliy Allen e cia., certas vezes, são bem agradáveis, e evocam (e causam!) uma alegria simples, que melhora o dia; Caetano é sutil, e uma audição dedicada revela, como já vi, profundidades até do nível de um Chico Buarque (e Cazuza tem seu modo inimitável, e imperdível, de protestar e declamar o gosto pela vida); e o Pink Floyd é essencialmente original, nos dando a chance rara de sentir todo um mundo paralelo, todo um ethos, estranho e maravilhoso.

Também fui sincero aí, creiam-me.

Mas fica claro que, mesmo fazendo força, não é fácil gostar do que os outros gostam – ainda mais gostar na mesma intensidade. A tendência, na verdade, é antipatizar completamente com um som diferente. E isto porque melodias funcionam como o paladar: você gosta daquilo que seu grupo gosta – seja lá o que for. Em geral, esse grupo ou é o ambiente familiar, ou o escolar. E os adultos trarão consigo essa herança.

Isso não era tão ruim quando apenas poucas músicas tocavam no rádio e TV. Com poucas opções, era fácil acharmos pessoas que curtissem o mesmo som que nós. E a amizade saía ganhando. Mas hoje a música se tornou um fator separatista, criador de antipatias. Pra cada capricho e nuance do gosto humano, há uma torrente de músicas saltando a vista, em todas as direções. Já nem dá tempo de conhecer a maioria delas, que dirá tempo para absorvê-las, dar-lhes atenção, se acostumar. Ou você gosta de cara, ou parte pra próxima!

O resultado, a meu ver, é péssimo: há tantas músicas disponíveis que é quase impossível topar com alguém que goste das músicas que você gosta. E se você for ao orkut, procurar diretamente por elas, descobrirá que, além da semelhança no gosto musical, elas não se parecem com você em praticamente mais nada. Então, parece que as músicas se tornaram um fator de distinção pior, embora não tão estúpido, quanto os clubes de futebol. Eu, pelo menos, perco mais da metade do entusiasmo pelas músicas de que eu gosto, se descubro que, praticamente, vou ter que gostar delas sozinho (aliás, qual a graça de ser palmeirense se, amanhã, todos os outros torcedores do Palmeiras se tornassem corintianos ou são-paulinos?). Esta acaba sendo, a meu ver, a diferença entre arte (que se pode compartilhar e, portanto, viver) e meros hobbies (que até nos dão prazeres interessantes, mas fugazes e sem significado).

Na era do mp3 e da Internet, o excesso está fazendo com que as músicas deixem de ser arte, como a boa literatura e o cinema, e se tornem apenas distrações divertidas, como ver futebol ou receber massagens.

*****

P. S.: escrevi o texto acima em 11.06.08. Foi mera preguiça só o ter publicado agora, rsrsrs.

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Uma resposta to “O Que Será da Música?”

  1. Jonatas Says:

    Concordo. Eu mesmo consigo gostar de varios estilos de música diferentes como rock, pagode, techno/dance, indie, metal, clássica, japonesa, francesa, jazz, funk, mpb, etc., porém só gosto de algumas músicas desses estilos, e enjoo muito facil, sendo que as músicas que ouvia há um mês atrás talvez não me interessem mais.

    É realmente chato quando alguém acha que outros vão ter o mesmo gosto musical que o seu e põe suas músicas idiossincráticas num volume alto em um ambiente público.

    Mas às vezes isso funciona. Acho que em casas noturnas, e em academias, as músicas costumam ser agradáveis à maioria das pessoas, e aceitáveis pelo resto.

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