O Sonho Onde Virei Dois

Este é um inesperado post sobre o mistério da consciência.

Começa com um sonho meu.

Neste sonho, que tive há duas semanas, eu de algum modo me dividia em dois. Se bem me lembro, um de mim estava parado em uma sala, enquanto o outro de mim caminhava ao longo de uma rua: poderia até ser em um país diferente. Mas entenda: não era como se eu ficasse aqui e visse a minha “cópia” sair andando. Não havia “cópia”. Eu era eu, mas era também o outro. Eu estava na (era a!) mente de ambos. Eu estava consciente dos meus dois “eu” ao mesmo tempo. E, sim, eu possuía duas perspectivas de “primeira pessoa” em conjunto!

Agora que contei o sonho, estou devendo esclarecimentos…

Você deve estar querendo saber como é estar consciente de dois pontos de vista!

No meu sonho, o efeito era parecido com a “visão discordante” dos olhos, quando o olho esquerdo vê uma coisa e o direito, outra. Por exemplo, quando colocamos aqueles óculos de lentes com cores diferentes, ou quando algo fora da janela só aparece pra um dos olhos. O resultado é ou uma estranha alternância das duas imagens ou, quando possível, uma espécie de “mescla” entre elas. O fato é que, de algum modo, você consegue ver as duas coisas ao mesmo tempo.

Foi deste modo que eu pude sentir simultaneamente que caminhava (num corpo) e estava parado (no outro), que via uma rua passar por mim (num corpo) e via uma sala com móveis (no outro).

Um sonho fascinante, sem dúvida!

Mas acordei pensando que algo assim seria, mesmo em princípio, impossível. Seria o equivalente de uma transmissão mágica de informação e, pior ainda (para a relatividade de Einstein), uma transmissão instantânea! Se o Lauro A estivesse no Brasil parado, e o Lauro B estivesse namorando uma japonesa em Tóquio, então o Lauro A saberia instantaneamente disso e, de todo modo, de forma mágica (sem qualquer meio físico de transmissão) – e provavelmente se excitaria igualmente, por “estar na” ou “ser a” mente do Lauro B.

Além do mais, já cortaram um cérebro humano ao meio (por razões cirúrgicas, não experimentais!). As duas metades permaneceram conscientes, mas uma não tinha consciência da outra! Depois, reconectaram as duas metades do cérebro, e a consciência voltou a ser uma só. Eu adoraria saber o que o indivíduo (?) que passou por esta experiência tem a dizer…

*****

Eu poderia, agora, seguir indefinidamente especulando sobre as nuances do mistério da consciência. Por exemplo, desisti de escrever que “No caso da cirurgia acima, imagino que as duas “metades” da consciência eram, afinal, continuações íntegras e legítimas da consciência original – aposto que elas se sentiam assim, e é isto o que importa.” Mas vou apenas deixar no ar a idéia mais significativa que tive sobre o assunto recentemente – e a tive graças a um insight inesperado durante um debate teológico (!) e, por feliz coincidência, ter encontrado quase a mesma idéia ontem, lendo o (novo) último capítulo da nova versão de O Gene Egoísta, de Richard Dawkins (como vêem, não resisti traçar a genealogia estranha da minha idéia!).

Basicamente, a idéia é esta: a “identidade” é algo que só existe através de objetivos. Ou seja, o “eu” só existe na medida em que existe uma miscelânea de padrões que, tomada em conjunto, apresenta uma integridade de objetivos e propósitos. Essa idéia me veio, primeiramente, quando pensei que o Deep Blue, o famoso computador genial no xadrez, só pode ser considerado uma “entidade” porque é o Deep Blue inteiro, e não qualquer um de seus componentes (bits, chips, sub-rotinas, o que for), que possui o objetivo de vencer a partida de xadrez e, portanto, trabalha consistentemente nesse sentido, como um todo integrado.

Foi aí que, duas semanas depois (ontem), vi Dawkins argumentando que só faz sentido pensarmos nos animais como entidades individuais (e não confederações de células ou grupos de genes) porque eles, como um todo coordenado, é que buscam objetivos ativamente, de um modo que nenhum gene ou célula faz – estes executam apenas padrões cegos.

Pode-se argumentar que isso é uma boa definição para saber quando um grupo (de células, por exemplo) se torna coeso o suficiente para ser promovido a “indivíduo”, mas não para o tipo de “identidade holística” que a consciência, ou a mente, possui. Bom, é apenas uma idéia virgem que acabei de ter. Dá o que pensar.

O tempo dirá que frutos saem daí.

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4 Respostas to “O Sonho Onde Virei Dois”

  1. Jonatas Says:

    Você já deve ter uma idéia do que eu penso a respeito. Concordo que o indivíduo é definido pela sua unidade funcional… Se está num sistema de funcionamento uno pode ser visto como uma unidade em função desse sistema.

    De alguma forma tenho a impressão de que o “haver experiência consciente” é o que define a minha existência, sou a minha experiência consciente; se houver a minha experiência consciente existirei, e se não houver, não existirei. No entanto, tenho a impressão de considerar a estrutura em particular no mundo que causa a minha experiência consciente como arbitrária e externa a mim (seguindo a definição prévia), de modo que o mesmo eu seria causado de maneira indistinta qualquer que fosse a estrutura que o causasse.

    Por isso me importo em como será o mundo depois que o meu corpo morrer, já que, segundo a definição que dei de “eu”, ainda haverá “eus” formados por estruturas corporais diferentes. (Li seu artigo sobre porque não sou um ambientalista, estou pensando onde posso responder)

  2. Paralelo Says:

    Jonatas,

    concordo com você na maior parte, sobretudo nessa “independência de mídia”. Assim como uma música é a mesma música quer esteja num CD, ou num vinil, também a consciência há de ser a mesma quer esteja num cérebro, quer num HD. Mas ainda não há meios de colocar o padrão cerebral num HD hoje, ou em outro cérebro. Quando morremos, fim.

    É por isso que não há razão (egoísta) de se importar com os outros após sua morte. Se sua consciência não for “transferida” ou “copiada” a tempo, você deixará de existir. Os outros cérebros implementam outros padrões e, portanto, são consciências distintas, completamente independentes da sua.

    Se você considerar a hipótese, pra lá de extravagante, segundo a qual o “fio” da consciência ainda permanece, de algum modo… Então eu insisto no meu ponto. Sem dúvida, sua memória biográfica vai se perder no processo. Já não será você a colher os frutos do futuro. Você terá deixado de existir e, do seu ponto de vista (que não existirá, rs), tudo será indiferente.

  3. Jonatas Says:

    “Se você considerar a hipótese, pra lá de extravagante, segundo a qual o “fio” da consciência ainda permanece, de algum modo… Então eu insisto no meu ponto. Sem dúvida, sua memória biográfica vai se perder no processo. Já não será você a colher os frutos do futuro. Você terá deixado de existir e, do seu ponto de vista (que não existirá, rs), tudo será indiferente.”

    Então, acho que eu insisto. Não é necessariamente um fio, tanto quanto o fio se corta durante o sono profundo. Suponho que vc ja sabe disso.

    O que sobra ao fio entao? Com fio ou sem fio nao há diferença, de toda forma é como se houvesse fio… é wireless

    Vc pode considerar sua memória biografica, como disse, como sendo VC. Mas a definicao que eu dei foi que eu sou simplesmente “haver experiência consciente”. Vc disse: “concordo com você na maior parte, sobretudo nessa “independência de mídia”.” A memoria biografica faz parte da estrutura externa, da midia, poderia mudar cada parte da minha memoria biografica ou da minha estrutura que nao eliminaria minha existencia como “haver experiência consciente”. O resto, como o que eu considero meus gostos e preferencias, minhas memorias, que definem minha personalidade, sao detalhes irrelevantes à questao. Tudo isso pode ser mudado com o tempo sem que a minha existencia seja eliminada.

    “Já não será você a colher os frutos do futuro. Você terá deixado de existir e, do seu ponto de vista (que não existirá, rs), tudo será indiferente.”

    Entao, os meus dados biograficos sao vistos como exteriores a mim, apenas moldando minha experiencia, a diferenca da experiencia é irrelevante para a existencia ou nao da experiencia em si.

    De fato, o ponto é que tudo pode mudar sem que a existencia, como definida, seja alterada, o que torna ela completamente independente de fatores alteraveis e da estrutura externa aleatoria. Por isso acredito que, a menos que eu esteja vivendo numa simulação de realidade virtual e seja a única consciencia deste mundo, como um matrix, mas sem condições de entender o mundo de verdade, devo supor que esta experiencia aqui não é minha única (eu, novamente, sendo definido como “haver experiencia consciente”), e me preocupar de verdade com os malucos da África e com as pessoas futuras (da mesma forma, acredito que um eventual transhumano, que está para nascer e terá uma vida maravilhosa, será igualmente uma estrutura externa aleatoria que causa o mesmo efeito de sempre, “haver experiencia consciente” = eu).

  4. Diego Caleiro Says:

    A idéia de que é necessário ter objetivos (conscientes) para se ser uma entidade é uma idéia muito perigosa. A esmagadora maioria do comportamento animal, e boa parte do humano é comportamento que não é auto-consciente…..
    Um passaro que finge estar com a asa quebrada por exemplo (para roubar o ex do Dennett) não tem nenhuma consciência do que está fazendo. No entanto ele consegue se fazer de isca para que predadores não ataquem seus ninhos.

    A nossa capacidade de ver parte de nossos objeticos (e eu diria que é uma pequena parte) é algo que só existe nos humanos, que podem refletir sobre suas ações….

    E mesmo em nós, é bem pequena. Então acho difícil sustentar que a identidade de um pato por exemplo seja o pato ter tais e tais objetivos…..

    A não ser que estejamos falando de objetivos no sentido de ‘coisas que, como estratégia de previsão do comportamento, parecem objetivos’ aí nesse caso tudo bem.

    Mas se falarmos dessa maneira, usanto a intentional stance, não estamos mais comprometidos com nenhuma unidade do eu, porque não existe nenhum “eu” consciente de seus objetivos como um todo. Muitas vezes, por exemplo, um psicólogo sabe melhor os objetivos de um paciente do que ele, e hoje em dia até um neuroscientístta ou um etólogo periga saber mais do que o João médio sobre o que o João médio deseja………

    abraços

    Di

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