3EI 10 – Outros Tópicos

OUTROS TÓPICOS
Memes. Teleologia. Dualismo de Chalmers. Penrose. Mente Encarnada.

Fiz uma apresentação criticando toda idéia de memes e memética – você sabe: as supostas “entidades culturais replicantes” que fundamentariam um processo cultural de seleção natural, que seria a verdadeira explicação da cultura. Pretendo lapidar esta apresentação para torná-la uma matéria do site. Em breve. Aqui o tema seria extenso demais. Basta dizer que todo o meu argumento estava fundamentado na idéia de uma “interferência teleológica” que as mentes humanas, com seus desejos e objetivos, vão causar em qualquer processo de seleção natural que se inicie – do mesmo modo que a intervenção divina, num certo ponto, acabaria com a seleção natural biológica, ficando apenas o design inteligente dos criacionistas em seu lugar.

Pelos posts anteriores, você já deve adivinhar o que houve com uma tese que se baseava na existência de objetivos presentes em mentes humanas: foi recebida como uma afirmação de que almas imateriais embaralham o processo físico. O clima estava mesmo propício pra este tipo de rejeição. Mas Jonatas, que quase participou do encontro, concordou com minhas idéias. Imagino se foi por não estar impregnado do fisicalismo morto dos demais. De minha parte, só fico intrigado com como alguém, em sã consciência, pode negar que possui objetivos reais em sua mente.

Este é, precisamente, o tema da teleologia, várias vezes ressurgido no III-EI. É verdade que a seleção natural só parece ter objetivos. Mas será verdade que até nós, humanos conscientes, “só parecemos” ter objetivos, sem tê-los de fato? Acho isto tão absurdo quanto negar a existência da dor e do vermelho. E não me custa nada pensar que o processo evolutivo deu origem a um cérebro capaz de objetivos reais. Duvido que se possa admitir que os objetivos são “funcionalmente reais” sem admitir, por isso mesmo, que sejam objetivos reais a pleno título.

De todo modo, basta-me que sejam “funcionalmente reais” para sustentar a tesa contra os memes. Como? A tese, em si, vou publicar no site.

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JôLou, mesmo sendo monista, fez uma apresentação ótima sobre o dualismo de Chalmers. Sem entrar em muitos detalhes, o crucial é que, para Chalmers, o que é concebível é, necessariamente, possível. E é concebível que a mente exista separada do cérebro (sim, é), portanto tem de ser possível que ela exista separada do cérebro, portanto ela não tem uma conexão essencial com o cérebro, portanto ela é algo independente do cérebro, ontologicamente.

Bom… Se for assim mesmo, então não precisamos de uma mente para provar o dualismo. Uma música basta. Pois, sem dúvida, conseguimos conceber uma música separada do meio físico que a conduz. Portanto, a música é algo independente de todo meio físico. Só pode ser uma substância não física.

E, como essa conclusão é ridícula, a de Chalmers também é.

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JôLou também nos explicou o argumento de Penrose a favor de algo que, muito facilmente, levaria ao dualismo. Fora todas as complexidades que eu realmente não compreendi, o importante ali é que o Teorema de Gödel mostrou que é impossível provar certas verdades matemáticas dentro do próprio sistema de axiomas que as produz. E daí? E daí que, se é assim, não há nenhum algoritmo ou programa possível que, por si, possa provar tais verdades. E, no entanto, nós humanos vemos que tais verdades são verdades assim mesmo. Conclusão? Não pode ser um mero programa que roda no nosso cérebro, pois ele não poderia fazer isso.

Considerando as opções “não algorítmicas” do processamento físico de dados, o argumento de Penrose facilmente leva ao dualismo.

Nessa, estou com Dennett: nenhum algoritmo pode provar algumas verdades, tampouco o algoritmo que “roda” em nossos cérebros. Afinal, nem o mais exímio dos matemáticos humanos consegue provar alguma destas verdades. O que Penrose está chamando de nossa capacidade de “ver” que são verdades não é, em absoluto, uma prova de que são mesmo verdades – muito menos uma prova formal, que é o tipo de prova declarado impossível pelo Teorema de Gödel.

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Vic nos apresentou sua idéia de como o fato de nossa mente ser encarnada deveria nos alertar para as limitações da mesma. Foi basicamente uma versão do velho argumento cético, geralmente referido como falácia genética: a origem “impura” de um pensamento como uma razão suficiente para refutá-lo. Claro, Vic não foi tão longe assim. Mas não ficou exatamente muito aquém disto. Falou como se o simples fato de sermos fruto de um processo cego – a seleção natural – fosse, por si, razão (?) para pensarmos (?) que nossos raciocínios têm, muito provavelmente, uma tendência a serem corrompidos, enviesados e limitados.

Conquanto Vic tenha argumentado, na linha de Pinker, que nos servimos de certas “metáforas atômicas” na base de nossos pensamentos, metáforas sobre causas, relações espaciais, hierarquia e outras coisas que, pelo visto, nada garante que façam parte da realidade, isso por si não deveria ser assustador. O fato de que a grama nos seja verde e, para um morcego, seja algum “matiz de áudio”, não torna ilusória e nem distorcida quer a nossa visão, quer a dele. É apenas um modo de traduzir os dados da realidade que, a princípio, pode ser perfeitamente fiel. O mesmo podem fazer nossas “metáforas atômicas” por nós. Pelo menos, não há porque duvidar a priori disto.

E há até porque ser otimista:

Quis argumentar, outra vez seguindo Dennett, que o processo evolutivo é, ao contrário, perfeitamente compatível com nossa capacidade para pensar corretamente: afinal, no mais das vezes a ilusão era fatal. E fui além: o mesmo tipo de raciocínio que nos permite raciocinar sobre o mundo em nossa escala, nos permite ir além. A lógica a que o mundo visível está submetido é a mesma à qual o resto da realidade precisa estar. Mas, claro, isto já outra vez me faria ser acusado de dualista.

Que “lógica” é essa que está voando por aí, além da matéria, afinal?

O que nos leva ao debate, já exposto, sobre a natureza da razão.

E fim do ciclo! =)

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