3EI 4 – A Razão

A NATUREZA DA RAZÃO

Pra começar, existe uma ironia aqui. CD, Di e Vic são os que defendem que a razão não é tudo isso, isto é, que não é a fonte de autoridade universal que eu queria que fosse. E, no entanto, eles estão absolutamente certos disso. CD e Vic consideram francamente ingênuo, “vício de pensamento”, que eu ainda mantenha tal confiança na razão. Se a razão é tão insegura, eles não deveriam estar menos convictos? Eu pelo menos reconheço a força dos argumentos deles, embora – é óbvio, já que discordo – pense ver erros que eles não estão vendo.

O pomo da discórdia é facilmente esclarecido ao analisarmos o óbvio princípio da não contradição (PNC), segundo o qual é impossível algo ser A e não-A ao mesmo tempo – é impossível estar vivo e morto, por exemplo. Mas e então, como sabemos disso? Melhor: que razão temos para acreditar no PNC?

Aqui a divergência é colossal. Penso no PNC em termos de verdade, realidade e ontologia universais, independentes da mente humana. Já os demais pensam nele em termos de uma verdade local, criação humana, tanto quanto é verdade – num sentido broxante – que a passagem de metrô está custando R$ 2,55 ou que se a bola sair pela linha de fundo, no futebol, é escanteio: os sistemas lógicos são nossas criações, tanto quanto o sistema de regras do futebol ou da economia. O PNC, por exemplo, só é verdade dentro do nosso sistema formal de lógica clássica.

Eu sei do que estão falando. E eles sabem do que estou falando. Mas eu acho que eles estão falando de criações humanas arbitrárias e irrelevantes para a questão do fundamento da razão. Mesmo o sistema formal da lógica clássica, enquanto mero jogo sintático de regras postuladas, nada tem a ver com a lógica real. Mas, claro, eles por sua vez acham que eu estou falando de uma metafísica irreal, platônica, absurda.

Então voltemos ao PNC. CD diria que é graças aos axiomas da lógica clássica que o PNC é válido – e válido só dentro dela, diga-se. Os axiomas em si, é claro, são apenas convenções humanas. Ao contrário, eu diria que o PNC sobrevive intacto sem quaisquer axiomas por trás dele. Não existiam humanos e nem linguagem, e já era impossível que os planetas fossem esféricos e cúbicos. Ou seja: as necessidades lógicas não tem nada a ver com “sistemas de regras” criados por humanos. O que é impossível é impossível, ponto. Resta-nos perceber isto e nos conformarmos.

Neste ponto, vem a invectiva de CD: “prove logicamente que o PNC tem que ser verdadeiro”. Aqui não sei se estamos falando a mesma língua. CD só reconhece como “prova lógica” algo que seja baseado em regras, e pensa que só existem as regras humanas. Mas neste caso sou eu quem não vê uma prova lógica (poderosa, majestosa, irrefutável) aí, mas somente regras arbitrárias que afinal nada significam. Mas se o CD estiver falando minha língua e pedindo uma prova como eu a concebo, isto é, indubitável, objetiva e universal, então me parece óbvio que a impossibilidade do PNC ser falso seja, em si, argumento suficiente.

Claro, CD repete: “prove que é impossível o PNC ser falso – apenas afirmar isto de nada adianta!”. Ah, agora chegamos no horizonte de eventos do buraco negro! Pois eu acho que a razão – no que toca ao saber – é o meio lógico de distinguirmos o objetivo (realidade exterior) do subjetivo (realidade interior, do sujeito, do eu) e, por isso, digo que a falsidade do PNC é, mesmo enquanto possibilidade lógica, totalmente inconcebível para o sujeito e, tudo indica, objetivamente impossível – não só sabemos que pensamos, mas sabemos que pensamos corretamente, quando o fazemos.

Mas CD pensa que a razão é, na verdade, um sistema formal de regras criado pelo ser humano. Neste caso, o fato de ela endossar a validade do PNC não impede que outro sistema formal, diferente, trabalhe sem o PNC. Ou seja: o PNC é válido para a razão, mas a razão é só um sistema humano. Não faz sentido dizer que o PNC é válido para todos os universos e sistemas possíveis.

E, claro, todos me dizem em coro: quem disse que se algo é inconcebível pra mim, estou justificado em pensar que, por isso mesmo, é impossível? Talvez seja só o meu cérebro de primata me pregando peças. Talvez seja só meu tipo de pensamento, e meu tipo de lógica (humana, local), que são limitados demais para compreender a possibilidade de seres vivos e mortos. Afinal, como posso ter certeza de que não?

É exatamente neste ponto que os relativistas se detém, alegres.

Esquecem-se de que toda a cadeia de raciocínio que leva a esta conclusão é, ela própria, uma admissão implícita de que a razão é absoluta. Afinal, por que eu deveria concordar com o argumento de que meus raciocínios podem ser globalmente furados? Se não posso confiar em nenhum deles, não posso confiar na argumentação que me diz que eles podem não ser confiáveis… O argumento é inócuo e se auto-refuta. Sua conclusão, analisada a fundo, é ininteligível.

Como posso acreditar que a razão e a lógica não passam de um conjunto de regras formuladas por seres humanos? Com que espécie de raciocínio o CD pretende me convencer disto? Ele não pode me dizer que seu raciocínio é “perfeitamente lógico” e esperar que isto me seja persuasivo – pois ou “perfeitamente lógico” significa algo universal e irrefutável, e neste caso quem tem razão sobre a natureza da lógica sou eu, ou “perfeitamente lógico” significa “segundo certas regras humanas”, e neste caso a conclusão não é necessária – a não ser que, por acaso, as “meras regras humanas” sejam também absolutamente válidas. Mas aí, outra vez, eu teria razão.

Tudo isto significa, claro, que é impossível argumentar que a razão ou a lógica sejam meras contingências ou caprichos humanos, em qualquer sentido. Um raciocínio lógico correto é, por definição, algo universalmente verdadeiro. Se houvesse exceções, o raciocínio não seria correto, ponto. Argumentos e afirmações pressupõem razão e lógica – e não se trata de uma razão ou de uma lógica fundadas em “sistemas formais criados por humanos”, pois tais sistemas seriam por definição contingentes: se fossem necessários, seriam sistemas formais descobertos por humanos, e não criados.

Neste ponto o CD seria forçado a dizer: então razão e lógica não existem; só existem os sistemas formais humanos, contingentes e locais. Mas agora é pior: ele não poderia dizer nem mesmo isto! E não apenas porque é uma afirmação (portanto uma afirmação que pretende ser verdadeira e objetiva), mas também porque se razão e lógica (absolutas, não contingentes, universais) não existem, então todo o cimento que cola os tijolos sintáticos dos sistemas formais derrete e a casa cai. Pois até num sistema de regras arbitrário como o do futebol, ainda precisa ser verdade absoluta que, se decidimos que quando a bola sair pela linha de fundo será escanteio, então será escanteio – é logicamente impossível que não seja, dados os axiomas e as regras.

Diego ainda tentou me escamotear este ponto, dizendo que axiomas não geram “implicações lógicas” nem qualquer espécie de conseqüência ou decorrência. Que na verdade só existe o sistema formal inteiro, frio, com todas as suas “conseqüências” fazendo imediatamente parte do sistema. Mas isto não muda o ponto. Continua sendo impossível, e quero dizer logicamente impossível, que um trecho do sistema entre em contradição com outro trecho do sistema. Conde Di dá outro passo atrás: “neste caso, não seria o mesmo sistema; você saiu do jogo”. Mas agora é o abismo. Outro passo atrás e ele cai. Estou afirmando que, apesar da lógica utilizada por Di e CD, é possível que o sistema formal do futebol inclua cestas e aces, em vez de gols, sem deixar de ser o sistema formal do futebol conforme nós humanos o concebemos aqui na Terra. É verdade que somos muito limitados pra perceber como isto seja possível… Mas posso jurar que o povo Zon (raça alienígena inimiga dos Zin, que o Di aprecia) jogam o nosso futebol de tal modo que há cestas e aces nele. Fica bem mais emocionante, aliás!

Caindo no abismo: CD me diz que “a história dos Zon é impossível porque está na definição de ‘futebol’ que não haja cestas e aces”. Sim, claro. Mas eis o ponto: os Zon, muito mais evoluídos que o CD, sabem que é perfeitamente possível um conceito contradizer sua definição. Simples assim. Não vá o CD, só por fé, insistir que a relação analítica entre o conceito e sua definição é absolutamente certa e válida. Vai cair na mesma metafísica que julga tão excessiva e gratuita.

(Afinal, a relação entre o conceito e sua definição [isto é, suas partes] é a mesma relação logicamente dedutiva entre o todo e suas partes, ou ainda a relação matemática entre o conjunto e seus elementos: se A contém B, então B está contido em A. Isto não é mais nem menos garantido que o PNC – é apenas totalmente garantido e auto-evidente, claro, mas isto é o que eu afirmo, não CD ou Di, rs)

É minha vez de, com Thomas Nagel, usar o Teorema de Gödel:

“A verdade matemática não pode ser reduzida àquilo que é provável [passível de ser provado] num sistema axiomático, porque, primeiro, o fato de uma sentença ser ou não ser provável, em um dado sistema axiomático, é em si uma verdade matemática (de modo que o discurso reducionista pressupõe, em si, uma idéia precedente de verdade matemática)…”.

A Última Palavra, p.88

Fim da linha.

Talvez eu não tenha mostrado que a razão universal e absoluta existe – isso me exigiria outra linha positiva de argumentação, e aqui não é o local pra isso. Mas sei ter mostrado que não há substitutos plausíveis. É tudo ou nada aqui. Afirmar que a razão absoluta é uma ficção é algo ininteligível, pois esta própria afirmação é, em si, uma alegação de razão absoluta – isto é, pretende que é absolutamente certo e sem falhas o argumento que conduz à conclusão de que a razão absoluta é ficção. O único modo de desistir da razão é desistir de afirmações, de crenças, de pensamentos – ou fingir pra si que meras paródias podem fazer o trabalho, enquanto se usa a razão absoluta de forma oculta para apoiar as mesmas paródias.

Mais Thomas Nagel:

“O verdadeiro caráter da razão não se localiza na crença em um conjunto de proposições ‘fundantes’, nem tampouco em um conjunto de procedimentos ou regras para extrair inferências, mas antes em todas as formas de pensamento para os quais não há alternativa. Isso não significa ‘não há alternativa para mim’ ou ‘para nós’. Isso significa ‘não há alternativa’, ponto. Isso implica validade universal”.

A Última Palavra, p.82-83

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4 Respostas to “3EI 4 – A Razão”

  1. Diego Caleiro Says:

    Eis aí uma defesa (e porque não dizer, uma ótima defesa) da “razão absoluta”

    Acho que o Lauro gosta de mais da razão para que eu possa brincar ainda mais nesse terreno. Então vamos brincar de absoluta!

    O que faz uma coisa ser absoluta?

    Digamos que alguém diga: “Ora, vale para todas as coisas do mundo”
    Eu: Inclusive para a matemátca?
    Ele: Principalmente para a matemática!
    eu: Inclusive para os sistemas de símbolos que representam a matemática
    ele: Tudo é tudo, entendeu, tu-do.
    Eu: Interessante porque eu sei que existe um sistema simbólico inventado por um sujeito em santa catarina que não obedece o princípio de contradição.
    Ele: Mas a razão vale para tudo
    Eu: Então o princípio da não contradição não vale para a razão.
    Ele: Mmmmm… isso me soa suspeito. Talvez para que algo seja absoluto na verdade eu precise que seja válido para todas as coisas físicas do mundo, não todos os sistemas de símbolos.
    Eu: Certo, então a absolutidade não alcança sistemas simbólicos?
    Ele: Não existe ‘alcançar’ sistemas simbólicos…… todas as coisas físicas funcionam assim, e pronto.
    Eu: Ok.

    Eu: Sabe, pra algo ser conceitualmente possível, eu só preciso conseguir conceber. Então um sistema simbólico é conceitualmente possível, mesmo se for metafisicamente impossível.
    Ele: Sussa, você não abala meu absoluto, a razão ainda é absoluta.
    Eu: Ótimo, estamos de acordo e podemos encerrar essa discussão. Todas as coisas físicas estão de maneira absoluta sob a égide da razão, mas nem todos os sistemas de símbolos concebíveis se enquadram no mesmo sistema.

    Fim

    Gostou? tem mais no site no link acima.

  2. Jonatas Says:

    Não entendi nada… kkkkk

  3. Carlos Daniel Llosa Says:

    I said no such things.

  4. Paralelo Says:

    Todo o papo do Diego presume que, na lógica paraconsistente (ou em outras), há realmente algo que “não obedece (?) ao princípio da não contradição”. Precisamos dos detalhes, claro. Mas aposto que isso não passa de sensacionalismo em torno de algum fato mal compreendido – como, aliás, já vi ser defendido por pessoas que ENTENDEM a lógica paraconsistente.

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