3EI 6 – Kripke

KRIPKE: JOGO DE PALAVRAS?

Numa apresentação complexa e confusa, mas ainda assim interessante, Diego expôs a tese do filósofo e lógico Saul Kripke, segundo a qual existem tanto verdades contingentes a priori, quanto verdades necessárias a posteriori. Ãh?!

É suficientemente simples, vejamos:

Em filosofia, a verdade é classificada de dois modos:

Primeiro, quanto à sua natureza: as verdades podem ser contingentes, o que se dá quando algo é verdade, mas poderia não ter sido – por exemplo: “Nietzsche escreveu livros” (mas poderia não ter escrito); ou podem ser necessárias, por ex., “quadrados são simétricos”, proposição cuja falsidade é algo impossível – é verdade, e não poderia deixar de ser verdade.

Segundo, quanto ao modo de ser conhecida: a verdade é a posteriori se só pode ser conhecida através da experiência – como em “cavalos existem” (já que para saber disto é preciso ver cavalos ou ouvir falar deles); ou é a priori, significando que pode ser conhecida pelo puro pensamento, sem a ajuda da experiência: “a soma dos ângulos internos de um triângulo é sempre de 180º” é um exemplo clássico.

Por muito tempo se pensou – muitos continuam pensando, diga-se – que todas as verdades necessárias (que não pode ser falsas) são a priori (podem ser conhecidas pelo pensamento puro); e que todas as verdades contingentes (que poderiam ter sido falsas) são a posteriori (só podem ser conhecidas através do contato direto ou indireto com elas, pela experiência).

Parece óbvio: não é exatamente por algo não poder ser falso (necessário) que você pode descobrir isso pelo pensamento (a priori)? – pois o que você descobre é que não pode nem pensar em sua falsidade. Por outro lado, o fato de que algo poderia não ter sido verdade (contingente) não está na raiz do fato de só poder ser conhecido pela experiência (a posteriori)? Afinal, não dá pra “adivinhar”, pelo pensamento, que algo é verdade, se é possível que não fosse.

Bom, na filosofia tudo isto eram obviedades até aparecer Kripke.

Ele defende a possibilidade tanto de verdades contingentes a priori, isto é, que podem ser conhecidas pelo pensamento puro, apesar de que poderiam ter sido falsas, quanto de verdades necessárias a posteriori, isto é, que jamais poderia ter sido falsas, mas que mesmo assim só podem ser conhecidas através da experiência.

Como o argumento de Kripke é complexo, e depende de uma confusa abstração sobre “mundos possíveis”, vou me deter em um exemplo simples de verdade que supostamente é contingente a priori, exemplo que deriva da teoria. Se a teoria está certa, o exemplo também está. Aqui, vou me limitar a analisá-lo.

O exemplo nos leva para a barra que foi utilizada para definir a medida oficial do “metro”. Isso ocorreu na França e, por acaso, a (vou chamá-la de) “barra F” possuía 39’37 polegadas de comprimento. A partir dali, o tamanho da barra F era o padrão oficial para o metro. Aí entra o exemplo, sem dúvida capcioso:

“A barra F tem um metro de comprimento.”

Kripke pretende que esta seja uma verdade contingente a priori. Ou seja: uma verdade que poderia ter sido falsa, mas ainda assim uma verdade que poderíamos conhecer sem ajuda da experiência, pelo pensamento puro. Como pode ser?

O argumento é que a barra F poderia ter um tamanho diferente daquele que de fato tinha: em vez de 39,37 polegadas, poderia ter tido 45 polegadas, por exemplo. Neste caso, ela não teria um metro de comprimento, pois sabemos que um metro possui 39,37 polegadas. Então é verdade que ela tinha um metro (39,37 polegadas), mas poderia não ter tido (caso tivesse 45 polegadas). Esta é, portanto, uma verdade contingente.

Por outro lado, essa barra foi usada para definir o comprimento que, doravante, seria canonizado como “metro”. Fosse qual fosse seu comprimento, nós já sabemos que seria um metro. Era impossível ser diferente (ops! Então era necessário?). De maneira que não precisamos nem ver o tamanho específico da barra pra saber que, seja qual for, tem de ser um metro. É uma verdade que podemos conhecer a priori.

Uma verdade contingente e a priori, portanto.

Mas não aceito isso e vou direto ao ponto:

“A barra F tem um metro de comprimento.”

A frase é ambígua. A expressão “um metro” tem dois significados possíveis: pode significar tanto “39,37 polegadas”, isto é, uma medida fixa, quanto “comprimento da barra F, seja qual for este“, isto é, uma medida coringa. Em um deles, a frase é contingente, mas não é a priori; no outro, é a priori, mas não é contingente.

Vejamos:

“A barra F tem um metro [39,37 polegadas] de comprimento.”

Esta é uma verdade contingente a posteriori, claro: a barra bem poderia ter 45 polegadas, e é preciso vê-la e medi-la para saber que ela possui 39,37 polegadas.

“A barra F tem um metro [por definição] de comprimento.”

E aqui temos uma verdade necessária a priori. Sabemos que, se somos nós que vamos determinar o comprimento designado pelo termo “metro”, qualquer barra que tomemos como padrão medirá, por isso mesmo, um metro. É impossível ser diferente. Não é uma verdade contingente, portanto, e sim necessária. E é por isso que podemos ter o conhecimento a priori dela. Não vejo como não seja assim.

Confrontado com isso, Diego me deu uma definição não ambígua de “metro”. O termo significaria, na verdade, “comprimento da barra F no mundo A” (mundo A é o mundo real; outras Terras possíveis são as Terras B, C, D, e assim por diante). E este conceito de “metro” deveria fazer com que a frase fosse a priori, embora só no nosso mundo. Mas como?

O efeito é obtido, em tese, por estarmos no mundo A ao dizer:

“A barra F tem o comprimento da barra F no mundo A.

Agora que incluímos os mundos possíveis explicitamente, temos um festival de ambigüidades ocultas! Mas, para simplificar, vou tomar o atalho de apontar apenas uma das ambigüidades: o primeiro termo, “barra F”, fica ambíguo. Enquanto dizer “comprimento da barra F no mundo A” é o mesmo que dizer “39,37 polegadas” (é? estou evitando outra ambigüidade, err…), dizer “barra F” não explicita se é a nossa barra F, isto é, a do mundo A, ou se é a barra F em qualquer mundo possível. O truque é fazer crer que se torna a nossa barra quando nós usamos o termo ambíguo. Isto funciona? Não consigo ver como.

“A barra F no mundo A tem o comprimento da barra F no mundo A.”

Como a tautologia que é, esta é uma verdade que pode ser conhecida a priori. Mas, por isso mesmo, é necessária. Se estiver na boca dos filósofos do mundo B, ainda será verdade. Também nos sabemos, inutilmente, que “A barra F no mundo B tem o comprimento da barra F no mundo B”.

“A BARRA F tem o comprimento da barra F no mundo A.”

Bom, não é uma propriedade intrínseca da barra F ter o comprimento que ela tem no mundo A. No mundo B, ela possui outro comprimento. Portanto, isto nem chega a ser uma verdade contingente. É uma mentira! Não se pode nem dizer “no nosso caso, é verdade”, porque o termo se refere à barra F em geral, não à nossa. Assumir que é nossa barra F é cair na interpretação anterior.

Os defensores sentem estar vendo algo mais quando percebem que o contexto epistêmico (a priori ou a posteriori) pode tomar por base só este mundo, enquanto que o contexto ontológico (necessário ou contingente) toma por base todos os mundos possíveis. Então, enquanto em relação a todos os mundos a proposição pode ser algo contingente, pois só é verdadeira em alguns deles, ela pode ainda ser a priori, num certo mundo, para os filósofos (seres epistêmicos) de tal mundo. Detendo-se nesta visão, os defensores pensam estar vendo o que os demais não vêem. Mas será assim?

Penso que qualquer filósofo de qualquer mundo possível ainda precisa decidir se, quando fala em X, está se referindo ao X de seu mundo, ou ao X em geral – não pode apenas dizer “X” e esperar que seu mundo complete o sentido da frase ambígua!

Parece-me, pois, que sempre estamos às voltas com ambigüidades. Desde que as retiremos, a aparência de verdade contingente a priori se desfaz.

O tema é complexo e (ao contrário do que fizeram parecer no III-EI) bastante polêmico na comunidade filosófica. Kripke bem merecia se chamar “Kriptke”, tão difícil de destrinchar sua tese é. Há outras críticas por aí. Mas é impossível abordar tudo aqui. Contento-me com esta crítica meio improvisada. Aqui há outra.

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3 Respostas to “3EI 6 – Kripke”

  1. Jonatas Says:

    Dizer que é uma verdade contingente a priori é um tanto relativo.

    A priori em relação a que? Primeiramente, vendo o exemplo da barra, vc precisa de linguagem para que ele faça sentido, então já não é a priori em relação à linguagem. Vc só pode definir a barra e o seu comprimento em relação a outras coisas: o que é a barra? a barra é um objeto cilíndrico e comprido, que tem 39,37 polegadas: o que é objeto? o que é comprido? o que é 3? e 9? e 7? e o que é uma polegada? Cada um desses é baseado em conceitos sensoriais, e conceitos sensoriais são de certa forma a posteriori.

    Se vc tem um conceito para 1, e cria um conceito para 2 como sendo “1 e 1”, isso é uma verdade contingente a priori? O que significa dizer isso? O exemplo é passível da mesma crítica, pois o número 1 é um conceito verbal a posteriori da sua experiência sensorial.

    Vc poderia inventar um conceito vazio e novo, um “Kripceito”, que não é uma “casca vazia”, e um outro, um Kriptingente, definido como igual ao Kripceito. O que seria dizer que um é uma verdade contingente a priori do outro? Seria um joguinho linguístico sem qualquer base real.

    Qual a utilidade de tais constatações de Kripke?

  2. Diego Caleiro Says:

    “O que seria dizer que um é uma verdade contingente a priori do outro?”

    PÈÈÈ`EÈ alarme analítico, alarme analítico.

    Ler o primeiro principio de——-> http://brainstormers.wordpress.com/2008/04/10/guioes-do-bom-pensador/

    O que se pode dizer é que um é idêntico ao outro contigentemente e a priori.

    Isso é, que a afirmação

    “Casca vazia é kripceito ” é uma afirmação contingente a priorii.

    Isso fica evidente pelo fato de que foi assim que se definiu kripceito.

  3. Paralelo Says:

    Bom, também ignorando meu post, rsrsrs…

    Jonatas, o termo “a priori” é relacionado ao conhecimento de um conhecedor (agente epistêmico)… Se uma verdade é a priori, o é em relação a determinado conhecedor.

    Ah, fico por aqui, rs. Tema complexo dos diabos!

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