3EI 8 – Ontologia

DISCORDÂNCIAS SOBRE O SER
Monismo Escadal v. s. Fisicalismo Morto ou Dualismo

O que realmente existe? Responda isto e você terá uma ontologia. Os primeiros filósofos gregos pensavam que só existia uma substância, a physis. Ou seja: tudo o que existia era físico. Até que Platão tirou da manga uma segunda substância, que não era física, mas metafísica: alma, pensamento, a pura Idéia – estes existiam, segundo ele, mas não eram físicos. E quem, como Platão, pensa existirem duas substâncias básicas na realidade, é dito dualista. Quem só vê uma, é monista.

Este é um debate que sempre ressurge nos EIs.

Conde Di já virou a casaca umas três vezes: monista, dualista, monista.

CD e Vic são monistas xiitas.

Sir Pi e JôLou parecem estar em cima do muro.

Eu sou um monista suspeito, acusado de dualismo enrustido.

Por que o debate é empolgante? Porque todos se vêem entre a cruz e a espada. Defender o monismo se aproxima perigosamente de negar a consciência – e esta é evidente por si! Não se pode honestamente negar que a dor existe, quando ela dói. Mas tampouco se pode afirmar que a dor, em si, é algo físico. Por outro lado, ser dualista beira o misticismo: trata-se de postular uma substância invisível, de se aproximar da bizarra ontologia cristã e se comprometer com um misterioso mundo de formas e “sopros” intangíveis.

A segunda opção é claramente menos atrativa para os rapazes aí.

Tanto que, quando estou defendendo meu monismo, sou a toda hora acusado (essa é a palavra!) de ser dualista – como se isto fosse alguma forma de alta traição intelectual, ou até uma mostra irrefutável de que perdi a razão. Ok: também não gosto da posição dualista, nem um pouco. Mas não iria tão longe em minha desaprovação.

Por outro lado, não consigo levar a sério o tipo de monismo deles! Normalmente referido como fisicalismo reducionista, este tipo de monismo radical parece ser fruto de uma ânsia que Thomas Nagel identifica na seguinte passagem:

“Suspeito que existe uma arraigada aversão, na ‘desencantada’ modernidade, por quaisquer princípios últimos que não estejam mortos – isto é, destituídos de qualquer referência à possibilidade de vida ou consciência.”

A Última Palavra, p.155-156

Por isso prefiro chamá-lo de “fisicalismo morto”. E nenhum filósofo expressou esta posição de forma mais sucinta e clara do que Demócrito, lá por 400 a.C., ao dizer que “não existe nada além de átomos e espaços vazios. O resto não passa de opinião”. E este é o problema: para o fisicalismo morto só existem os componentes mais básicos da matéria (ou do que quer que “componha” a matéria). Qualquer estrutura composta de tais tijolos básicos não existe, a não ser como abstração humana. Falando de uma maneira escandalosa, a meu ver, não existem Igrejas ou navios, apenas átomos.

A implicação colossal deste reducionismo ganancioso só pode ser apreciada com exemplos: não existe dor, só átomos. Do mesmo modo, não existem cães, só átomos. Não existem escolas, nem amor, nem objetivos ou desejos, nem galáxias, nem futebol, nem Internet, nem a II Guerra Mundial – apenas átomos. A bem da verdade, tudo não passa de um conjunto de átomos em interação complexa, e nada mais – isto é tudo. Declarar a existência de qualquer outra coisa é fazer metáforas, poesia!

Não aceito esta posição. Não consigo conceber nem mesmo que um mero cristal seja apenas um conjunto de átomos cercado de mais átomos, e que isto esgote a verdade a respeito dele. Penso que um cristal é ontologicamente distinto do meio não cristalino que o cerca – não por ter “propriedades cristalinas” que o ar ao redor não possui, mas apenas por ser padronizado de um modo que os átomos ao redor não são. Tudo está nos padrões, e eu discordo que estes sejam meros “recortes epistêmicos” dos observadores, isto é, modos arbitrários de os observadores conhecerem a cena.

Isto é um modo de dizer que a única substância existente é, no entanto, capaz de erguer novos níveis de ontologia conforme seus tijolos básicos interajam formando padrões complexos. O ponto é que tais padrões, uma vez surgidos, são coisas que existem, ganhando propriedades e poderes causais que nenhum dos tijolos básicos, isoladamente, possui. Meu monismo é uma escada que vai ganhando degraus. Por isso o chamo, aqui, de forma improvisada, de “monismo escadal”.

Dito isso, não aceito nenhum comentário debilitante que tente reescrever como “meramente epistêmica” a existência dos padrões. Diria mesmo que, se os padrões não existem ontologicamente, então não há modo algum de serem “conhecidos” – mesmo com as aspas.

E apesar de ser um argumento meramente epistêmico, até onde sei, penso que a distinção de Dennett entre as posturas física, de design e intencional é sobre algo mais do que meras “posturas” do conhecedor: trata-se de comentários substantivos sobre a natureza da realidade. Afinal, Dennett já mostrou que, em certas situações, simplesmente não existe (!) explicação meramente física de o que está acontecendo. Você poderia detalhar 100% dos eventos microscópicos e, ainda assim, não saber por que o evento macroscópico está ocorrendo do jeito que ocorre – poderia ocorrer de um modo completamente diferente, e não estaria no nível físico a explicação da diferença.

Obviamente me perguntarão: mas como se dá essa criação ontológica de novos degraus? Num certo sentido, acho que se dá de forma óbvia – óbvia demais para gerar o tipo de explicação estrutural pela qual um fisicalista morto esteja ansiando. Sem me perder em tentativas fúteis, mudo de tática: admito, por hora, que não sei como. E acrescento que, mesmo assim, ainda estou melhor que o fisicalista: eu ainda tenho ao menos a perspectiva plausível de descobrir como, um dia; já ele, se pressionado da maneira certa, deverá admitir que não tem como explicar os fenômenos conscientes com base no seu modelo – a dor simplesmente não é um conjunto de átomos – e, pior ainda, também não tem como negar a existência destes mesmos fenômenos.

Agora, como diabos eu não sou dualista, depois de tudo isso?

Sim, nego que a dor seja um conjunto de átomos. Nego até mesmo que seja imediatamente física, em qualquer sentido. Mas, ao contrário do que pensam, isto não me obriga a declarar que a dor é, portanto, algo positivamente não físico. Nego que a dor seja física apenas no mesmo sentido em que nego que a Internet seja física. Pois pegue qualquer conjunto de zilhões de partículas, incluindo as que compõe ondas no ar, sinais elétricos, hardware de satélites, cabos de fibra óptica, o que for: você jamais terá, apenas com tais partículas na sacola, a Internet. A Internet é um padrão dinâmico formado por partículas, e não o próprio conjunto destas. A dor – conquanto de forma obviamente mais misteriosa – provavelmente também é um padrão dinâmico no cérebro: algo que emerge, e emerge ontologicamente, da interação de partículas no cérebro. E, no final, não é uma “segunda substância” que esteja “interagindo” com o mundo físico – é só a própria decorrência do mundo físico, com seus padrões.

Suspeito, aliás, que haja algo de extrema importância ocorrendo quando a matéria se organiza de um modo tal que seja capaz de processar objetivos. Isto cria um sistema teleológico (de telos, objetivo, meta, finalidade) capaz de lançar um olhar para o futuro e agir, doravante, com base em razões – e fica a dúvida de o que diabos isto significa no nível meramente físico que, sem dúvida, é neutro e cego para coisas tais como objetivos e razões.

Ok. Já foi heresia demais contra a filosofia ortodoxa pra um post só.

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6 Respostas to “3EI 8 – Ontologia”

  1. Jonatas Says:

    Ok, muito interessante seu post.

    Vejo a possibilidade de, de alguma forma, os “átomos” se organizarem num padrão que possui, informacionalmente, uma personalidade e uma atenção ao que ocorre, e isso ser funcionalmente uma consciência subjetiva, e tudo o que há para ela.

    Aí vem o ponto de dúvida: será que isso poderia explicar tudo o que há para a consciência?

    Se não puder, qual a alternativa? Existe algo que possamos conceber que cumpra o papel de fornecer uma consciência qualitativa? Talvez a nossa própria concepção esteja limitada a desenhar mecanismos físicos para cumprir funções. Ainda restaria, além disso, postular uma propriedade misteriosa e funcionalmente inexplicável que simplesmente dê o que há de qualitativo para a experiência consciente.

    Como seria essa propriedade, se existisse? Por redução e eliminação, veríamos que o cérebro cobre funcionalmente toda a consciência, de modo que restaria a essa propriedade apenas aquilo que talvez faltasse num mundo só de “átomos” e seus padrões. Essa propriedade do universo seria não uma consciência mas uma protoconsciência, algo ou quase vazio ou inexistente.

    Qual a diferença prática entre postularmos uma protoconsciência ou a eliminarmos? Talvez, dependendo dela, surjam limitações práticas à criação de consciência (todo sistema informacional com uma certa arquitetura é consciente, ou apenas algo que se aproxime dos sistemas biológicos?).

    Ultimamente tenho tendido para o lado de negar a protoconsciência, aceitando a visão “monista morta” de Dennett, de que a consciência é puramente uma organização funcional de átomos.

    No entanto, convém lembrar que o universo não existiria realmente sem a possibilidade de consciência, pois existir parece significar existir para um observador, e algo que existe e não é observado é praticamente igual a não existir.

  2. Paralelo Says:

    Não consigo MESMO concordar com esse idealismo de “algo que existe e não é observado é praticamente igual a não existir”. Ao contrário, penso que ser observado é irrelevante para existir. Sem dúvida existem (!) galáxias até hoje jamais observadas por qualquer criatura.

    Não consigo ser “monista morto” porque é impossível negar a existência (!) do vermelho, e o vermelho, seja o que for, não é físico – mas espero que apenas do mesmo modo que o Windows XP não é físico, e por isso não sou dualista também.

  3. Jonatas Says:

    Sim, exato. A consciência é física assim como o Windows XP, ela é representacional, e assim ela consegue representar coisas que vão além do limite das manifestações do mundo físico (claro a representação é parte do físico, mas num desenho se pode desenhar coisas que não existem).

    Se uma galáxia jamais observada existe, existe como? ela não tem aparência, não tem nome, não tem som, não tem beleza, não tem informação, ela é igual a nada sem um observador. O mesmo se poderia dizer da natureza terrestre sem o ser humano, quem sabe… as flores não têm beleza alguma sem um ser humano para as apreciar.

  4. Jonatas Says:

    É verdade, no entanto, que aquilo (por exemplo, uma galáxia) que não foi observado existe como um potencial de se tornar real, ao ser observado no futuro, assim como a natureza teria um potencial de existir realmente, mesmo sem seres humanos, caso um outro animal evoluísse mais tarde e se tornasse inteligente e significativamente consciente, e pudesse admirar a natureza.

    Acho que o tempo é um conceito psicológico falso, para o que na verdade é uma corrente causal, um grande relógio, que só adquire uma velocidade determinada quando alguém o observa… quando não há observador, o mecanismo e os ponteiros se movem tão rápido que seu movimento é atemporal, instantâneo (conservadas as devidas relações de causa e efeito, e de velocidade relativa entre os movimentos), por isso aquilo que não é observado, é como se não se manifestasse, não adquirisse existência real.

    Sobre a consciência, suponho que sejamos a construção interna cerebral de um ego, para o qual a consciência (como o Windows XP) é apresentada, de uma maneira representacional, que pode representar coisas livremente, inclusive os chamados qualia. Se um tal mecanismo é concebível em termos puramente funcionais, por que não seria consciente realmente? (não tenho certeza da resposta a essa pergunta, mas estou tendendo a achar que seria consciente).

  5. Paralelo Says:

    Jonatas,

    vou simplesmente dizer que aquilo que não existe não pode, mais tarde, ser percebido por seres conscientes como nós. Precisa existir para ser percebido, e não o contrário.

    Quando você diz:

    aquilo (por exemplo, uma galáxia) que não foi observado existe como um potencial de se tornar real

    Você está redefinindo “real” como “o que está sendo percebido”. Mas esta não é a definição de real. Real é o que existe, ponto (acho a expressão “existe ontologicamente” redundante). Se EXISTIA um “potencial de se tornar real”, então esse potencial já era real – se não fosse, não exisitiria. Mas se já era real, não era potencial “de se tornar real” – já era real, oras.

    Não há mistério algum nisso.

    Uma galáxia, sem observador, “não tem aparência, não tem nome, não tem som, não tem beleza, não tem informação”, o que são propriedades relacionadas a algum observador, claro. Mas a galáxia ainda possui, mesmo assim, peso, número de sóis, posição em relação a outras galáxias, velocidade de rotação, força gravitacional, etc. Isso está bom demais para ela ser considerada existente, rs.

    *****

    Sobre a consciência, só vou fofocar que li uma crítica de John Searle à idéia de que a consciência pode estar nas propriedades formais/funcionais do padrão de informação cerebral que me deixou de queixo caído, rsrsrs…

    http://www.filosofiadamente.org/images/stories/textos/mentes.doc

    =)

  6. liaima-online Says:

    Buen comienzo

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