3EI 9 – Relativismo

RELATIVISMO ● A NATUREZA DA CONSCIÊNCIA

No III-EI fiz uma crítica de todo improvisada contra o relativismo. Sendo assim, é claro que fiquei mais vulnerável do que devia à chuva de críticas que se seguiu. Ali eu esbocei três pontos a princípio desconectados. Um deles está esmiuçado no tópico sobre a razão. Os outros dois vêm a seguir, desembocando o segundo deles numa discussão sobre a natureza da consciência:

1) A abordagem relativista é capciosa e ininteligível:

Dada uma afirmação objetivista como “a religião faz mal”, a típica invectiva do relativista é acrescentar “pra você”. Ou seja: “a religião faz mal pra você, mas pra mim ela faz bem”. Sem dúvida, é isto o que se entende a princípio. Mas então esta não é uma colocação relativista, e sim uma discordância objetiva: a opinião de que a religião realmente faz mal (em geral) contra a opinião, discordante, de que ela realmente só faz mal para algumas pessoas, não pra todas. Isto não é relativismo.

Então o relativista, enquanto tal, deve estar querendo dizer outra coisa. Quando acrescenta “pra você”, ele entende que a proposição “a religião faz mal” pretende ser objetiva e geral, mas, em vez de discordar, apresenta um “metacomentário” indicando que isto deve ser apenas um achismo subjetivo do objetivista. Mas isto significa que o relativista, apesar de si próprio, está mesmo é discordando do objetivista: ou a religião faz mal pra todos, ou não faz. Ou o objetivista está certo, ou está errado. Se por acaso o relativista tiver razão e a afirmação do objetivista for somente afetação subjetiva, então isto implica que ela está objetivamente errada – e não que “sobrevive” enquanto afirmação subjetiva. Até porque, neste caso, o “relativista” é quem, objetivamente, terá razão. Outra vez, não temos relativismo – muito pelo contrário.

Por fim, resta ao relativista – se ele pretende mesmo ser um! – uma alternativa extrema e, até onde vejo, ininteligível (ou seja, não é uma alternativa, afinal): ele quer dizer que com “a religião faz mal” o objetivista está mesmo certo – embora certo de um ponto de vista relativo, e por isso o “pra você”. Agora, o que isto significa? Primeiro, que o objetivista não precisa mudar de idéia. Pra ele é verdade que a religião faz mal pra todos. Assim como, para outra pessoa, é verdade que a religião faz bem pra todos. E, apesar de tais verdades serem contraditórias, ninguém está realmente errado. A verdade é relativa. Cada um tem a sua.

Isto sim é relativismo! Mas parece pedir o impossível: que Saturno exista de verdade para os ocidentais e, também de verdade, não exista para os !kung-san. Isto parece pedir a existência de um universo paralelo pra cada opinião existente. Além do mais, ainda parece uma forma de discordar do objetivista, em vez de meramente relativizar sua postura: pois o objetivista quer dizer que sua opinião é absoluta, e não relativa. Parece que qualquer forma de relativizá-la é, inevitavelmente, uma forma de discordância objetiva.

Este argumento é apenas outra forma de sustentar a mesma idéia que defendo no post sobre a razão: o relativismo é ininteligível e a razão objetiva é inescapável.

A Crítica: Vic disse que meu exemplo – “a religião faz mal” – é capcioso. Não é bem isso: na verdade, eu pretendia tratar de vários tipos de afirmação objetiva, como as factuais, as de valor, as de gosto pessoal, etc,. e analisar como o relativista se sai ao tentar subjetivizar cada uma delas. Um dia completo este projeto.

2) A natureza da consciência fundamenta a objetividade:

Funciona assim: desde que eu defina “consciência” como “aquilo que é ou está consciente”, o que me parece uma definição obviamente justa, então decorre que não é possível a consciência se iludir a si própria. Se é que a consciência faz algo, ou é responsável por algo, não pode sê-lo sem ter, ela própria, consciência de sê-lo. Isto, por si, já refuta o solipsismo: é impossível que a consciência seja tudo o que existe, e ela pode saber disso. Como? Sabendo que não é responsável por certos conteúdos dos quais ela é passivamente consciente: pois se a própria consciência fosse a fonte destes conteúdos ou os tivesse produzido de algum modo, ela seria consciente de que o fez. Como este não é o caso, e ela sabe disso, então ela sabe que tais conteúdos possuem uma origem exterior a ela, uma origem não subjetiva, portanto uma origem objetiva.

Não vejo como redefinir o conceito de “consciência” de modo que este inclua estados inconscientes. Esta me parece uma confusão clássica da filosofia – a mesma confusão que Kant está fazendo quando supõe que a consciência, sem ser consciente disto, é quem produz ativamente espaço e tempo, agora concebidos como “modos subjetivos” de traduzir a realidade. Meu ponto implica que, seja o que espaço e tempo forem, não são subjetivos.

Claro que isto nos deixa, ainda, com a possibilidade exótica de que só exista um cérebro na realidade, ou coisa assim, cujas partes inconscientes estão, objetivamente, causando ilusões na consciência. Mas, se é assim, parece que teremos apenas outra resposta sobre qual é a natureza fundamental da realidade observada, e não uma declaração de que esta inexista, ou seja ilusão. Em vez de átomos ou supercordas, o que teremos na base é um “cérebro” gerando uma realidade da qual sou consciente. Espaço e tempo seriam reais, ainda assim. Abre-se a perspectiva de que as outras pessoas não sejam conscientes, e sim marionetes simuladas. Isto é ruim, claro. Mas penso que pode ser justificadamente declarado improvável, no mesmo grau em que é improvável um leão surgir a partir de uma porção de barro atingida por um trovão.

A Crítica: Diego falou na possibilidade de a consciência criar indiretamente a realidade. Mas isso não seria solipsismo. Uma vez que a consciência desse a partida no processo e este escapasse do alcance consciente, teríamos uma realidade objetiva aí surgida, igualmente. Claro que, antes disso, a consciência não poderia ser consciente senão de si própria, incluindo aí qualquer “estrutura” que uma consciência deva ter – se é que tem alguma: quem sabe objetivos ou capacidade de pensar?

Outro ponto, mais importante, é que minha definição de “consciência” ameaça evaporar-se num nada. Para resumir a consciência somente naquilo que é consciente, parece que devo excluir desde o corpo, até o cérebro, incluindo até mesmo sensações conscientes, lembranças, e todos os conteúdos da consciência. Afinal, eu a defini como aquilo que é consciente, e não como aquilo de que ela é consciente.

Sobra algo?

Bom, não sou um fisicalista eliminativista. Vou me dar o direito de analisar a minha consciência não de um ponto de vista objetivo, mas subjetivo mesmo – afinal, ela é a subjetividade e eu sou um sujeito. Não surpreende se eu tiver um mínimo de autoridade pra tratar da consciência nestes termos – apesar de que um tratamento subjetivo de qualquer questão é, pelo menos para Vic, CD e Di, sinônimo de um tratamento irracional. Claro: em geral, sim, mas não no caso da própria subjetividade!

Dito isso, vamos lá. Minha consciência não é apenas uma janela passiva para os conteúdos que nela se apresentam. É isso também, mas não só. Ela possui poderes causais baseados em razões e deliberação – mesmo que suas razões e deliberação sejam nulas em certos casos. Minha consciência não é dona nem criadora de seus objetivos basilares, isto é, de seus desejos e instintos básicos. Estes vêm de fora e lhe são impostos. Mas um “desejo” é o tipo de coisa que, por sua própria estrutura, não pode ser “imposto” – a imposição é um conceito que só faz sentido em relação a algum desejo, se este for um desejo de resistência, que sofra a imposição.

Sim, estou atolado na lama mentalista. Mas é proposital.

Não sou eliminativista, lembram?

Minha consciência é algo que processa os meios para atingir os objetivos – o que inclui criar, deliberadamente, toda espécie de sub-objetivos necessários. Só minha consciência pode processar tais razões, porque só ela, como um todo, é a entidade que é possuidora dos objetivos e desejos. A conclusão preliminar é que minha consciência é um sistema de análise de meios – meios possíveis para atingir objetivos. O que ela possui de intrínseco é o poder de influenciar o resto do sistema com base em razões. O resto – cores, desejos, pensamentos súbitos – é apenas conteúdo vindo de fora.

Isto não precisa ser incompatível com o determinismo, pelo menos a princípio. A consciência pode influenciar o resto do sistema, e ser influenciada por ele, do mesmo modo como uma proteção de tela influencia o consumo do processador. Interação de partes heterogêneas, nada mais. Contra isso, levantaram-me o experimento segundo o qual o processamento cerebral ocorre dez segundos antes da escolha consciente. Não vou repetir o argumento exótico que usei lá. Vou apenas dizer que um teste simplista destes – botões e letras numa tela – não é conclusivo, apenas sugestivo (v. a seguir).

Outra vez, vão me perguntar como o cérebro físico é capaz de ser “alçado” a tais maravilhas como “deliberação”, “racionalidade”, “objetivos reais”. Outra vez, direi que eu não sei como, mas pelo menos ainda me resta esperança de haver um “como”. Já o fisicalismo xiita se contenta em fingir que “elimina” o que, sem dúvida, está lá: cores, razões, dor, desejos. É uma posição seguramente perdida.

Seja como for, o essencial aqui é que minha definição de “consciência” mina a posição relativista segundo a qual não podemos saber se nossas observações estão de fato fora de nós, ou se são meras construções nossas. O que vem de nós, sabemos. E, por exclusão, sabemos também o que não vem de nós.

*****

Extra: o experimento da escolha.

Vejam o que é o sensacionalismo. O cientista John Dylan-Davies, condutor do dito experimento num centro de neurociência de Berlim, é bastante mais comedido do que nos faria pensar o alarde em torno do assunto:

“Nos casos (!) em que as pessoas podem tomar decisões em seu próprio ritmo e tempo, o cérebro parece (!) decidir antes da consciência […]. Não se sabe em que grau isso se mantém para todos os tipos de escolha e de ação. Ainda temos muito mais pesquisas para fazer.”

Espero que tenham perdido 70% do entusiasmo.

E espero que percam os outros 30% a seguir.

É que o experimento é bastante capcioso. Você fica diante de um monitor onde passa uma seqüência aleatória de letras. E há dois botões na mesa sob o monitor, um para cada mão. Você escolhe, mentalmente, uma letra. Digamos, “Q”. Assim que um “Q” aparecer no monitor – a seqüência de letras se move a cada meio segundo – você deve apertar um dos botões. Qualquer um: esquerdo ou direito, tanto faz.

O que o experimento mostra é que, de dez a cinco segundos antes de “Q” estar na tela, o cérebro já havia escolhido se o botão direito ou esquerdo seria apertado. Por que isto deveria ser sensacional? Era de se esperar, não? A consciência da pessoa está detida na aparição de uma letra, e não na escolha de qual dos botões – esquerdo ou direito – será apertado. Essa tarefa é positivamente secundária, irrelevante e, sendo assim, não tem porque ocupar a atenção consciente. Pode ser automatizada.

Se houvesse um só botão, ou se houvesse diferença relevante, para o objetivo, entre apertar algum dos dois botões – a depender da letra, por exemplo – então como a escolha poderia vir do cérebro, dez segundos antes? Claramente não seria possível, já que o cérebro não poderia adivinhar, com qualquer antecedência, qual a informação relevante com base na qual decidir (dada a letra, que botão apertar).

Ao contrário, o novo teste provaria que a consciência, quando necessário, é perfeitamente capaz de decidir. Afinal, só ela pode avaliar a informação com base em razões. Aliás, não admira que o experimento se trate justamente de uma escolha neutra para a razão: “decidir” entre um botão direito e… um esquerdo.

Pode apostar que uma versão mais sofisticada deste teste seria capaz de prever alguns movimentos de volante de motoristas experientes, mas não conseguiria fazer nada para prever o que um motorista novato e nervoso irá fazer. Aí as decisões são conscientes e tomadas na hora, sem automatismos.

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3 Respostas to “3EI 9 – Relativismo”

  1. Diego Caleiro Says:

    O experimento prova portanto que existem decisões que nós achamos que são nossas e declaramos como nossas e dizemos que estamos consciente delas. Mas estamos errados e não estamos de fato conscientes delas.
    Não prova que Todas as decisões são assim.
    Mas prova que estas existem.

    “A conclusão preliminar é que minha consciência é um sistema de análise de meios – meios possíveis para atingir objetivos. O que ela possui de intrínseco é o poder de influenciar o resto do sistema com base em razões. O resto – cores, desejos, pensamentos súbitos – é apenas conteúdo vindo de fora.”

    Esta visão é a visão inaugurada por Hilary Putnam em sessenta e poucos chamada de funcionalismo, e defendida por muita gente, o problema do funcionalismo é que apesar de sua concepção de consciência ser compatível com o mundo físico, não existe, da perspectiva funcionalista coisas como Cores, desejos e etc….. senão enquanto estados computacionais/funcionais do cérebro. Não existe o que se chama de qualidade intrínseca do vermelho, a dor intrínseca da dor etc etc etc…..

    é uma posição bonita, responsável e defensável.
    Mas é preciso saber que estamos negando essas propriedades intrínsecas para aceitá-las.

  2. Paralelo Says:

    Acho que o experimento mostra menos ainda do que isto, Diego.

    No caso de “escolher” aleatoriamente entre dois botões idênticos, quando se está realmente preocupado com a aparição de um letra na tela, duvido que alguém fosse insistir muito tempo, com os devidos esclarecimentos filosóficos, que a escolha do botão foi SUA, SUA, SUA, de forma positivamente consciente e deliberada…

    *****

    Ah, não existe a qualidade intrínseca do vermelho? Que tédio incolor! Então minha visão não é a de Putnam coisa nenhuma! rsrsrsrs…

    Até porque, quando falei “com base em razões”, eram razões MESMO – e não paródias funcionais do que, depois, nos ILUDIRIA com a aparência de “razões”. Simplesmente estamos num plano não-físico ao tratar de razões e, se isso não me torna dualista, é pq este plano emerge direta e necessariamente do plano físico. Mas EMERGE! Não é metáfora…

  3. iaia Says:

    kra quanta baboseira

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