Saber ou não saber? House vs J. J. Abrams

Se a magia se vai quando a verdade é descoberta, nunca houve magia.

Esta é a brilhante resposta com que o Dr. Gregory House nos brinda, em House S04E08 – You don’t want to know, ao discordar de um mágico que acabara de dizer: “As pessoas vão ao meu show porque querem um pouco de magia. Elas querem experimentar algo que não podem explicar”.

(A propósito: dizem que a série House é “formulaica”, que todos os episódios são iguais. Oras, isso é pra quem pode. House pode se dar o luxo de repetir a fórmula da embalagem, porque o programa se baseia no conteúdo – que talvez seja o melhor da TV moderna.)

Então aí está o Dr. House, em outra tirada ácida, pondo abaixo o pobre romantismo dos que preferem manter a cortina de ignorância – e que só conseguem ver beleza nisso. E pensar que Dawkins escreveu um livro inteiro, Desvendando o Arco-Íris, só pra criticar essa postura. Afinal, o arco-íris fica muito mais belo depois de explicado. Cientificamente explicado. E depois… há sim algo de mórbido em se preferir acreditar no pote-de-ouro ao preço de nunca poder ir lá verificar (pois no fundo se sabe que a investigação ‘quebrará o encanto’). É fraqueza auto-inflingida.

Diz o mágico: “a diversão está em não saber”. Diz House: “a diversão está em saber”.

E não é que, por mera coincidência, no mesmo dia que assisti ao citado episódio, também vi a palestra de J. J. Abrams – o criador de Lost – para o TEDTalk?

E justo agora, que só falta um episódio pra Lost acabar e quase todos os seus mistérios ainda estão sem solução, que decepção não foi ver J. J. Abrams falando de sua “caixa mágica” e dizendo:

O mistério é o catalisador da imaginação (…) há horas em que o mistério é mais importante que o conhecimento.

“…e comecei a pensar em Lost…” – very bad, J. J. Abrams!

E antes de continuar descendo lenha nisto, só queria salientar que foi incrivelmente oportuno ver as duas coisas no mesmo dia. É quase como se House e J. J. Abrams estivessem discutindo diante de mim!

Mas voltando à parte ruim… Acompanhei Lost por seis anos. De fato, os mistérios cativaram, hipnotizaram, se tornaram parte da vida ordinária. Sim, um feito clássico. Mas que só foi possível exatamente pela expectativa de que os mistérios seriam resolvidos. E brilhantemente resolvidos, diga-se. Toda investigação de House só é gratificante se, no final, ele descobrir qual é a doença. E melhor se a descoberta for capaz de curar. E eu estava ultraconfiante, até semana passada, de ser ‘curado’ destes seis anos de dúvidas loucas. Mas Lost chega a seu penúltimo episódio de forma tão aberta que está impossível acreditar que, amanhã (o apocalíptico 23 de maio para os fãs de Lost!), o Series Finale fará o esperado ‘milagre da explicação’. Falei sobre isso aqui. E agora que vi este TED de J. J. Abrams, desesperei de vez.

House representa a audácia racionalista de encarar a verdade. J. J. Abrams e sua “caixa mágica” representam o que eu só consigo chamar de apatia intelectual covarde.

A diversão? Está em saber! 😉

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3 Respostas to “Saber ou não saber? House vs J. J. Abrams”

  1. V. Leal Says:

    House hoje é pra mim “a” melhor série americana, pois temos os diálogos mais inteligentes e o humor idem. O episódio de abertura da sexta temporada sai da “embalagem” e é espetacular e atores realmente ótimos. O conteúdo e a riqueza dos conflitos dos personagens realmente é o que importa, esta sim é uma série de “pessoas e seus dramas”, o que tentaram gritar no final de lost, qd. na verdade o que nos prendia era somente as perguntas que foram porcamente respondidas ou simplesmente não respondidas.

  2. Ka Says:

    Ah, que máximo! É isto mesmo! To virando tua fã!

    Pena que não tínhamos a mão de House no roteiro da última temporada de Lost.
    E então, já virou persona non grata entre os fãs de Lost? Acho que eu (mesmo com a visão soft – que vai cada dia ficando mais hard – do fim, acabei virando, hahahaha).
    Bj

  3. Paralelo (Lauro Edison) Says:

    V.Leal,

    o último episódio de House que vi foi o citado no post. Bom receber boas notícias do futuro da série. Soube de críticas negativas por aí.

    KA,

    adorei ver teu comentário aqui! Teu fã já sou, rs.

    Quanto a ser persona non grata, acho que estou mais pra non persona entre os fãs, rs. Sei da repercussão do meu texto. E, por exemplo, só fingindo que meus argumentos não existem para vermos um Dudecast como aquele, cheio de “respostas” a perguntas facílimas, escolhidas a dedo.

    Mas eu desconfio que isto que está acontecendo contigo, de ficar com a visão “mais hard” depois do “barato” do Series Finale, vai acabar ocorrendo com todos – que nem rolou com Matrix Revolutions. É óbvio demais que este final foi péssimo. Não há auto-engano ou fator emocional que dê conta.

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