Indecifrável Política

Sempre interessado pelas grandes questões do Universo e da existência, o que envolve filosofia e ciência acima de tudo, nunca dediquei muito tempo à política. Até aqui, estou mais pra apolítico mesmo. No entanto, adoro debates – como donas de casa gostam de novelas. E embora eu nem mesmo vote, época de eleição sempre me gera interesse. De fato, estou com o link pronto para ver ao vivo o último debate presidencial, na Globo, que começa logo mais (e vai ser um atrativo à parte ver a mediação do sobrenaturalmente elegante William Bonner).

Fato: como homem de ideias, eu acabo me envolvendo com os argumentos e contra-argumentos dos candidatos (e de seus defensores, em fóruns da net) e querendo saber quem tem razão. E o que me parece é que tecer uma opinião racional e honesta é completamente impossível – o que me faz ficar absolutamente chocado com de onde vem tanta convicção de todas as partes discordantes!

Só para exemplificar, vou falar aqui de duas coisinhas, entre as tantas que me chamaram a atenção.

A primeira é a velha controvérsia: a privatização é ótima ou é terrível?

Ao privatizarmos indústrias estatais, estamos perdendo dinheiro e colocando o controle do país nas mãos de lobos capitalistas? Esse é o discurso, grosso modo, de esquerda… de Lula & cia; ou estamos incentivando a concorrência produtiva, desonerando o Estado, melhorando os serviços (a iniciativa privada trabalha de verdade, pois visa o lucro) e permitindo ao Governo se concentrar nas questões que importam? Eis o discurso de direita… PSDB e cia.

Bem, eu não sei a resposta. E isso é de se esperar, claro. Mas o chocante é que os mais preparados economistas parecem também não fazer ideia da resposta… afinal, discordam totalmente entre si!

De todo modo, eis um argumento devastador que li por aí, de um certo Ricardo, discordando do suposto fato de que a privatização devasta a economia do país:

É necessário levar em consideração que a empresa privatizada continua dando receita ao país através dos impostos. Em alguns casos, esses impostos tornam-se muito superiores ao lucro total obtido quando a empresa ainda era estatal, como é o caso da Vale. Em 97, ano que a Vale foi privatizada, seu lucro anual foi de US$ 677 milhões. Em 2008, lucrou US$ 21,75 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 6 bilhões foram pagos de impostos ao governo. Isso é quase 10 vezes mais do que o Brasil ganhava naquela época!

Eu adoraria ver um esquerdista bem informado discordando disto. Um problema é que pode nem ser verdade – e, de fato, é incrível que toda facção política tenha seu próprio conjunto de estatísticas e números pra apresentar! Mas, sendo o acima verdadeiro, é realmente algo que me choca… pois é típico da esquerda afirmar (como se fosse óbvio) que o país perde rios de dinheiro com a privatização.

A segunda coisa é: o país melhorou no governo Lula?

A essa altura, até José Serra parece concordar com isso, embora reivindique que tudo não passou de consequência do governo FHC, este sim excelente, e cuja política econômica Lula prometeu mudar inteira, em campanha, mas que seguiu à risca após eleito – e essa é outra questão onde eu adoraria saber a verdade.

Mas, seja como for, Dilma e Lula repetiram à exaustão, nos últimos anos, a vigorosa queda nos níveis de pobreza do país. E mesmo em debate ninguém questiona os dados.

No entanto, fuçando por aí, dou de cara com isto:

http://www.indexmundi.com/g/g.aspx?v=69&c=br&l=en

É simplesmente uma fonte aparentemente isenta, e que exibe pesquisa sobre vários países, indicando que a porcentagem de pessoas abaixo da linha da pobreza, no Brasil, dobrou entre 2000 e 2009! Saiu de 16% para quase 32%!

De modo que fica completamente impossível saber onde está a verdade.

E algo me diz que eu, em minha curiosidade vaga, já me informei e me interessei bem mais pelos candidatos e pelas questões políticas do que 95% do eleitorado. O que implica que a eleição será decidida de forma pior do que aleatória, isto é, com base meramente em sedução de propaganda (que está na mão dos poderosos… lá em Belém, de onde sou, vi a governadora ser acusada, em debate, de investir 60 milhões em saúde e 70 milhões em propaganda!).

E, aliás, não vamos longe… o Tiririca, com aquela campanha que chega a ser um insulto à mediocridade, está liderando as intenções de votos em geral! Diabos, pessoas morreram por suas crenças políticas, certas ou erradas em defesa do bem estar de todos, e a patuleia assina esse atestado de imbecilidade infinita! É difícil não passar pela cabeça, por um segundo, que o povão bem merece sofrer, putz…

E, pra encerrar minha rara manifestação política, não posso deixar de dizer que é um barato ver o Plínio nos debates, tocando um foda-se pra popularidade, e argumentando de verdade, com vigor e razão… Resultado? Nem 1% dos votos… Ou seja, não dá nem pra reclamar da evidente hipocrisia e demagogia dos demais candidatos, pois é o que funciona (embora Dilma esteja até arriscando perder a eleição, a meu ver, de tão óbvia que é sua forçação pra ser politicamente correta).

Mas ainda sobre o Plínio, suas propostas são bem bizarras. Eu adoraria vê-lo por isso em prática – minha curiosidade é (muito) maior que meus escrúpulos, rs. Aliás, que escrúpulos? Às vezes acho que adoraria ver um meteoro cair no Japão (não em Sorocaba, por favor), só pra ver o mundo mudar… é, vem de infância… eu achava os acidentes de carro emocionantes! Mas divago, rs… Adoraria saber o que aconteceria, de verdade, se Plínio desse o calote na dívida externa e elevasse o salário pra 2 mil!

Segundo o físico David Deutsch, isto vai ocorrer… em alguns universos paralelos… Quem sabe um dia a ciência possa nos mostrar as outras versões… Mas ok, isso sou eu voltando à minha vocação intelectual, que não é a política.

Não ainda, pelo menos. Mas bem que é cativante também. 🙂

É necessário levar em consideração que a empresa privatizada continua dando receita ao país através dos impostos. Em alguns casos, esses impostos tornam-se muito superiores ao lucro total obtido quando a empresa ainda era estatal, como é o caso da Vale. Em 97, ano que a Vale foi privatizada, seu lucro anual foi de US$ 677 milhões. Em 2008, lucrou US$ 21,75 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 6 bilhões foram pagos de impostos ao governo. Isso é quase 10 vezes mais do que o Brasil ganhava naquela época!
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3 Respostas to “Indecifrável Política”

  1. Luís Says:

    Ora, meu caro, a verdade é a de cada um, como sempre, construída a partir da percepção que teve e tem do mundo. Foi-se o tempo em que um pretenso senso-comum automaticamente fazia a verdade a partir da manchete do JN ou da revista VEJA.

    Empresa privada devasta o país?! Somente a partir de uma afirmação tão genérica, não sei… o que eu sei é que empresa privada, especialmente a grande (com raras exceções para confirmar a regra), é feita e existe para dar lucro ao patrão, e é o patrão que tem que ser obedecido… simples assim, sem filosofias desnecessárias.
    Paradoxalmente, é o grande capital que não vive mais sem o Estado. E por isto que é tão importante eleger governos populares para minimamente regular a sociedade, para dar um sentido mais republicano ao país, que é o que eu considero que aconteceu nos últimos anos: crédito não só para grandes empresas, reaparelhamento da máquina-pública federal (muita gente só tem o poder público para recorrer), a PF agindo como nunca e contra qualquer um, uma população saindo da miséria, etc.

  2. Andersøn Says:

    Indecifrável Política?

    Talvez seja, à primeira vista, mas se comparada aos estudos científicos contemporâneos ela é bem mais simples. Se optar por uma abordagem diferente, penso que poderá ter uma percepção mais objetiva e menos ‘oficial’ do assunto.

    Procurar compreender pelo meio institucionalizado (isto é, como a media, as escolas, os fanboys e os próprios políticos profissionais) coloca o observador em uma situação parecida àqueles em que séculos passados procuravam entender o mundo ouvindo a versão da igreja, terá em mãos argumentos de autoridade – e seus conflitos – mas pouquíssimo conhecimento.

    Faço algumas sugestões para tornar decifrável a política:

    – Os políticos não possuem o poder, eles representam grupos que querem se manter poder (e não se trata do povo), por isso a media em geral dá mais êfase nas desonestidades dos políticos do que nas das empresas, bancos, sistema educacional etc. Como no imaginário social eles (políticos) são descartáveis (mas o sistema que estão inseridos deve ser aceito como imutável) se fazem alguma “corrupção” são substituídos, e outro fica no lugar. Isto mantém em funcionamento o que é mais importante para o poder. O que não aconteceria com os bancos, empresas etc. se a sociedade tivesse uma percepção mais clara do que elas fazem.

    – Movimentos e grupos de resistência sempre ficam à margem da história, sendo citados apenas quando conveniente. Normalmente, as pessoas só passam a saber a real participação de grupos que lutaram no passado quando estão na faculdade – e em estudos bem específicos -, porque as pesquisas exigem mais conteúdo do que as que todos estudantes acessam normalmente nos ensinos fundamental e médio.

    – Democracia representativa é apenas uma forma de controle social, é só imaginar alguma religião onde os clérigos são escolhidos pelos fiéis, mas a teologia não pode sequer ser imaginada substituível (quando se trata da sociedade, o termo usado é Utopia).

    – Esqueça a dicotomia direita / esquerda, e a pseudo-neutralidade chamada ‘centro’.

    Até o seu próximo post!

    See ya

  3. Paralelo (Lauro Edison) Says:

    Anderson e Luís,

    comentários interessantes. Como dei a entender no post, sou alheio demais para aprofundar essas questões aqui. Razão pela qual, aliás, passei esse tempo todo sem me animar a comentar suas respostas. Mas as li, hehe. Mais de uma vez.

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