Os Últimos Filmes

Um amigo meu tinha muitos filmes estocados sobrando. Peguei um monte emprestado e os saí assistindo. Ainda faltam alguns. Comentarei os que vi, brevemente:

Persépolis – A princípio, não dá coragem. Um desenho preto-e-branco sobre uma menina vivendo sob a ditadura do Irã nos anos 70. Eu sabia que, para muitos, se tratava de um “mini-clássico moderno”. Não é pra tanto, mas é surpreendentemente uma obra linda. A força do visual é incrível. A narrativa, cativante. Acima de tudo, a criatividade impressiona demais, numa obra que tinha tudo pra ser sisuda e burocrática. Consegue funcionar muito bem como comédia suave, inclusive. Além disso, é historicamente correta – de fato, baseada em obra auto-biográfica. Mas gostei principalmente do conteúdo: uma menina idealista em meio ao extremismo religioso só podia me fascinar. A cena de “alta subversão” do mercado negro é genial, e um exemplo de como é óbvio que a cultura ocidental não precisa impor nada – quem está de fora também acha óbvio que liberdade e diversão é melhor do que dogmatismo e razinzice devotada. (“Eurocentrismo”? Aff, não enche.) Nota 8.

Apocalypto – De grudar na poltrona! Apesar de não ser historicamente correto “à risca”, fazendo uma espécie de medley implausível dos aspectos mais empolgantes da cultura maia, a primeira metade do filme é deliciosamente realista. Veja: eu quase sempre odeio filmes de época, porque de algum modo as “pessoas de culturas passadas” são retratadas como alienígenas afetados, cheios de uma pompa estranha; aqui, ao contrário, os personagens são plenamente humanos. Acreditei em cada reação e situação. E é tudo fortíssimo e angustiante, até a segunda metade do filme. Aí vira Rambo, total. Mas isso não é ruim, porque o filme realmente decola, fica incrivelmente emocionante. O único problema é que, quanto mais empolgante, mais implausível. Isso pode irritar. Mas antes isso do que tédio. Quer se divertir sem riscos? Esse é tiro certo. Nota 7,5.

Encontros e Desencontros – Há tempos escuto falar desse tocante filme onde Bill Murray e uma linda jovem vivem um “quase-romance” extremamente cativante. Mas algo me dizia que eu não ia gostar muito. E de fato: o filme é bobinho. Uma espécie de “Antes do Amanhecer sem assunto”. A moça do filme é filósofa e, no entanto, não vemos qualquer profundidade nos (poucos) diálogos – vemos, isso sim, ela ouvindo auto-ajuda de quinta. Qualquer afeto bonito e espontâneo que pudesse haver entre os dois (afinal, a razão de ser do filme é essa), pra mim, entrou em extremas dificuldades já quando os dois se conhecem: ele comenta de cara que está recebendo 2 milhões pra fazer um propaganda! Simplesmente o cara não é o “simples homem profundo” nem ela tem alguma “sensibilidade especial” de notar quem ele é. Não comprei a ideia. No fim, o último encontro é irritantemente absurdo – já tendo se despedido no hotel, ela sobe e ele pega o táxi; mas lá na frente, do nada, encontra ela andando numa calçada! Apesar disso, algum humor eficaz, algumas cenas bonitinhas, experiência agradável. Nota 6.

O Escafandro e a Borboleta – Esse é o tipo de filme adorado por pseudointelectuais: tecnicamente pedante, chatíssimo, atuado com seriedade mórbida, editado para ser totalmente “artístico” e nada “palatável”. Uma dose, isso sim. Conta a história real de um editor de revista, na França, que sofreu um derrame e passou o resto da vida só podendo piscar um olho. Espere encarar várias cenas em que alguém recita o alfabeto e o sujeito pisca sempre que chega a letra que ele quer… Zzzzz… Ele escreve um livro inteiro assim, aliás. Eu entendo quem gosta: num belo dia de muita paciência e no estado de espírito certo, o filme pode funcionar lindamente. Mas a verdade simples é que o filme poderia ser muito mais agradável, interessante, marcante, se não fosse tão pretensioso em seus excessos técnicos, em seu se arrastar em “arcos artísticos”. E, claro, se tivesse mais conteúdo real, em vez de tanto blá, blá, blá óbvio e empolado na voz interior do protagonista. Mas uma vez passado o sufoco de ver o filme, então o já tê-lo visto se torna uma coisa boa. Não deixa de ser marcante ter estado, por algumas horas, na situação de horror de um homem preso em seus próprios pensamentos. Mas prepare-se para muito tédio. Nota 5.

Speed Racer – Esse é pra ver depois do filme acima (infelizmente, não o fiz), pois é meramente um filme leve, animado, empolgante, divertido. E despretensioso. Funciona, e isso basta. A única coisa que me incomodou um pouco foi o excesso no visual psicodélico. De resto, um filme sobre corridas (todas muito boas e empolgantes) e sobre idealismo individual versus ganância das grandes corporações, com um desfecho bobinho e bonitinho, bem a cara hipócrita da Disney – quem te viu, quem te vê, irmãos Wachowski! Nota 7.

Toy Story 3 – Revi. Magnífico, profundo, eletrizante, criativo, engraçado, tocante. Perfeito. O melhor da Pixar até hoje. Nota 10.

Oldboy – Não foi dessa vez que algo oriental me agradou. Um sujeito é preso num quarto por 15 anos, sem motivo aparente. Ao finalmente sair, busca vingança. De repente, se vê no centro de uma espécie de jogo, criado pela pessoa que o prendeu aquele tempo todo. Talvez o filme melhorasse bastante se as últimas três frases viessem escritas na primeira cena, pois é uma tortura (que dura uma chatíssima hora e meia) entender o que está acontecendo. Pois toda a edição do filme é irritantemente confusa, de tal modo que não ficamos curiosos, e sim mareados com tanto (aparente) nonsense e pistas vagas. No final, tudo faz sentido e é um alívio. E a reviravolta é realmente chocante, de cair o queixo. Mas eu já estava excessivamente cansado pela enrolação torturante que precedeu o desfecho. Não compensou. Nota 5,5.

Zodíaco – Esse é o nome do assassino serial que move a trama do filme. História real. Caso até hoje em aberto, diga-se. O que eu não sabia era que David Fincher (Seven, Clube da Luta, O Quarto do Pânico, Alien 3) era capaz de fazer um filme chato! Ele meramente conta, em detalhe, a longa história de investigação que rondou esse assassino. Mas é sem tensão ou empolgação. Uma mera história, sem graça. Com O Escafandro e a Borboleta e Oldboy, este é o terceiro filme que Pablo Villaça, o melhor crítico de cinema no meu conceito, adorou e deu nota máxima, enquanto eu achei um gerador de bocejos. Nota 6.

As Férias de Mr. Bean – Começa até bem. Mr. Bean funciona fácil, não? Infelizmente, é muito cedo que o “estilo Mr. Bean” de comédia abandona o filme, trocado por uma tentativa de humor pastelão. Terrível. O final, então, é constrangedor. Só ponto para a piada geral do cinema, que brinca justamente com filmes pedantes e chatos (acabei de falar de três deles). Nota 3.

Simpsons – O Filme – Bem bom, mas pouco melhor que os bons episódios. Esperava mais. O tema do ambientalismo foi muito bem tratado – eu não achava ser possível fazer humor eficaz com algo tão tedioso. Eles souberam ser tão politicamente incorretos quanto possível, em tiradas magníficas. Fato é que morri de rir algumas vezes. Só o arco final, que é mais ação, decepciona um pouco. Nota 7,5.

A Grande Família – Bla. Repetem a mesma história três vezes! Só quando Agostinho aparecia, dava um alívio. Mas foram cenas fracas. Como humor, quase constrangedor. Sempre gostei de Os Normais e não tive paciência para A Grande Família. Se era um mau preconceito, esse filme só o piorou. Nota 3,5.

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Uma resposta to “Os Últimos Filmes”

  1. frte Says:

    Oldboy é legal por chocar os ocidentais cristãos. E você precisa assistir a mary and max

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