Filosofia DeLorean!

Você conhece as interessantes discussões filosóficas envolvendo a trilogia De Volta Para o Futuro? Por exemplo a (entre os fãs) disputadíssima tese de que, durante o segundo filme, há um momento em que 4 DeLoreans coexistem no ano de 1955 – e toda uma ala de fãs argumenta que, na verdade, só chegamos a ter 3 DeLoreans.

Ou então, também no segundo filme, aquilo que talvez seja uma contradição fatal na trilogia: o fato de o velho vilão Biff Tannen, em 2015, retornar a 1955 para entregar ao jovem Biff Tannen um almanaque com os corretos resultados esportivos até o ano 2000, que o permitirá enriquecer através de apostas, alterando assim o passado – e então chegamos a um 1985 alternativo e sombrio em que a cidade de Hill Valley está aos pedaços, exceto pelo império de Tannen, “o homem mais sortudo da Terra”. O problema é que, aparentemente, segundo as regras da própria trilogia, isto deveria implicar o deseparecimento dos heróis Doc Brown e Marty McFly (então presos em 2015), dado que tiveram seus passados igualmente alterados: Doc Brown não inventou a máquina do tempo, e sim foi internado num manicômio; e Marty estava na Europa. É pior: se a máquina do tempo não foi inventada, o velho Biff Tannen não poderia tê-la usado para encontrar sua versão jovem. Paradoxo! Pelas palavras do próprio doutor Emmett Brown ao longo da trilogia, isto acarretaria o colapso do universo.

A principal comunidade do orkut declara, num tom de orgulho nacionalista, o fato de a saga ser totalmente imune a furos de enredo. E obviamente as defesas dos fãs (que vou chamar de) “perfeitistas” da trilogia, contra a contradição apontada acima, envolvem desde a postulação de universos paralelos (bem como a crucial diferença deste conceito para o de “realidade alternativa”, mencionado no filme) até especulações interessantíssimas sobre qual a verdadeira natureza do Tempo em De Volta Para o Futuro – só que essas visões têm seus próprios problemas e tudo é igualmente bem objetado, é claro, pelos fãs “defeitistas”, hehe. Para apimentar, Robert Zemeckis e Bog Gale (responsáveis pela trilogia), deram uma entrevista sobre o “funcionamento” da saga que, nas sutilezas que deixa em aberto, parece quase calculada para fomentar a especulação! O resultado final parece uma discussão teológica nos moldes da Idade Média, cheia de argumentos fortes misturados com apelações bizarras, com direito a uma Bíblia (a entrevista) sujeita a interpretações diversas.

Toda essa intriga, claro, é um prato cheio na interface entre filosofia do tempo (de dar mil vertigens por si só) e filosofia da ficção (o que vale na hora de saber a verdade sobre uma obra de ficção? Acréscimos do autor contam, ou só a obra em si é o “material empírico” de investigação?). E uma análise aprofundada, aqui, não precisaria ser só um sequestro da filosofia pelo entretenimento (se bem que isso bastaria, hehe). Quem sabe quais boas e mesmo cruciais ideias a análise lógica do tempo fictício da trilogia – seja ele inconsistente ou não – pode fornecer? Eu, pelo menos, sou bem entusiasta desse tipo de abordagem. Na verdade, considerando o quanto é potencialmente limitadora a tradição filosófica, isto é, o enquadramento mais ou menos consensual (e talvez aprisionador) em que cada geração debate as ideias, é provavelmente preciosa qualquer elaboração intelectual esmerada que tenha partido de não-filósofos – sejam o que forem, eles são livres de preconceitos. E o tempo de De Volta Para o Futuro, especialmente, foi cuidadosamente pensado pelos seus criadores. Creio ser uma matéria-prima excelente.

Quanto aos 4 DeLoreans, quem tem a trilogia fresca na memória pode me acompanhar… Estamos em 1955. É o final do segundo filme, quando o DeLorean voador do Doc Brown é acidentalmente atingido por um raio e vai parar no Velho-Oeste, em 1885, deixando Marty preso em 1955 sem máquina do tempo. Neste ponto, vemos Marty receber uma carta redigida há 70 anos pelo mesmo Doc Brown que acabara de desaparecer no céu. O que a carta informa? Que o DeLorean (o mesmo que acabara de ser atingido pelo raio e foi pra 1885) ficou essas sete décadas escondido em uma mina. É com ele que Marty poderá, enfim, retornar para sua verdadeira época, 1985. Mas para consertar esse carro, abandonado há 70 anos, Marty precisará da ajuda do Doc Brown jovem (digo, menos velho, rs) de 1955. E onde ele está? Despachando o outro DeLorean que, no final do primeiro filme, vemos retornar para 1985 pela primeira vez. Por fim, no contexto da história, é o mesmo dia em que o velho Biff Tannen entregou o almanaque para o jovem Biff Tannen – então também este DeLorean está por aí (antes de retornar a 2015 e ser recuperado pelos heróis, daí ir pra 1985 e ver Hill Valley dominada por Biff e, por fim, retornar a 1955 para consertar a merda e, acidentalmente, ir parar em 1885 e ficar enterrado por 70 anos até 1955 outra vez… fuck yea.)

Em resumo, os quatro DeLoreans coexistindo neste dia de 1955 seriam esses:

1) Aquele que vemos no primeiro filme, que vai para 1955 quando Marty foge dos Líbios e retorna para 1985 através do raio da Torre do Relógio.

2) O utilizado pelo velho Biff Tannen, saído de 2015, para fazer com que o jovem Tannen enriqueça.

3) O que retorna a 1955 exatamente para evitar a ação do velho Biff Tannen, acima – e que acidentalmente vai para 1885, após ser atingido por um raio.

4) O que, chegado acidentalmente a 1885, ficou 70 anos enterrado numa caverna até ser desenterrado por Marty.

Antes de dizer o que há possivelmente de errado com a tese, comento que a questão da identidade do DeLorean, supostamente o mesmo e quatro carros diferentes (Santíssima Quadrindade, hehe) em 1955, é um ponto interessante por si só.

O problema é o seguinte: num certo sentido, o DeLorean 4 só surge “após” o DeLorean 3 ser atingido pelo raio e desaparecer.

Reflita sobre isso. Perceba que intrigante!

Enquanto o DeLorean 3 paira no céu, antes de ser atingido pelo raio e ir parar em 1885, não há nenhum DeLorean 4 enterrado há 70 anos numa caverna de Hill Valley. Este passa a “ter estado enterrado nos últimos 70 anos” apenas depois que o DeLorean 3 desaparece. Daí que só chegam a coexistir três DeLoreans, de fato. Quer dizer, pelo menos a princípio. O caso é que, uma vez tendo ocorrido de o DeLorean 3 ser atingido pelo raio, isto outra vez muda o passado e, consequentemente, muda o presente (1955). Então a história “oficial” e “atemporal” do Universo passa a ser que, naquele dia de 1955, havia sim um DeLorean enterrado na caverna há 70 anos, precisamente porque sua contraparte (3) estava prestes a ser atingida por um raio!

Isto, claro, nos joga para uma noção de “meta-tempo”, um tempo de ordem superior a partir do qual podemos analisar aquele dia de 1955: “antes” só 3 DeLoreans coexistiam e “depois” – por causa do terceiro DeLorean alterar o passado e, logo, o próprio presente em que estava – 4 DeLoreans passaram a coexistir.

O mais próximo de um consenso a que os fãs chegam é assumir a seguinte tese (bastante plausível, aliás): de fato 4 DeLoreans coexistiram do ponto de vista “panorâmico” e “concluído” de toda a trilogia De Volta Para o Futuro, no entanto essa linha “final” do tempo não é exibida nos filmes – o que vemos, em lugar dela, é a linha de tempo anterior ao DeLorean 3 ir a 1885 alterar o passado. O que vemos no segundo filme, portanto, é a versão em que apenas 3 DeLoreans coexistiram. E essa versão é alterada assim que vemos, no final do segundo filme, o DeLorean 3 desaparecer no céu – veja que louco: passa a ser verdade que, segundos antes, 4 DeLoreans coexistiam; mas isto ainda não era verdade na versão de “poucos segundos antes” em que estávamos.

Isso, claro, não satisfaz a todos. Quem disse que o passado já não estava “alterado” mesmo na linha de tempo que o filme mostra? Por que já não havia um DeLoren 4 enterrado, se o DeLorean 3 de fato estava prestes a retornar a 1885? Aí, claro, há toda outra linha de argumentação sobre a lógica interna da trilogia – se fosse assim, por exemplo, teríamos um segundo Marty no baile desde o primeiro filme! Mas aí há quem ouse dizer que, sim, já havia – apenas a câmera nunca o mostrava (ou até o mostrava “subliminarmente” segundo certos paranoicos!). Era mesmo essa a intenção dos criadores? E isso faz diferença? Será que deveríamos analisar os ângulos do baile, entre o primeiro e o segundo filme, para talvez provar que o segundo Marty deveria aparecer em certo local vazio do primeiro filme? E isso contaria ou seria descartado como mero “erro de continuidade das filmagens”? Obviamente, a controvérsia é estritamente infinita, hehe…

Podemos, contudo, tentar formar alguma imagem coerente e plausível. Talvez seja possível. E, se não for, o exercício filosófico é magnífico por si.

*****

Haveria, é claro, muito mais a dizer de interessante sobre as complexidades da trilogia, em interface com a filosofia do tempo e da ficção. Por exemplo, a ideia estranha (e que parece implicar um meta-tempo) de que as mudanças no passado alteram o presente e o futuro não de forma “instantânea”, mas gradual, como numa onda de propagação – isto tanto está implícito com as fotos onde as pessoas vão desaparecendo gradualmente, quando explícito na mencionada entrevista. Outro ponto é se a mudança do passado gera universos paralelos, ou simplesmente muda o bloco único de espaço-tempo: a preferência é do segundo caso, por outros tantos motivos. Talvez eu me convença, em algum momento, de que vale a pena fazer um modesto “tratado” sobre tudo isso. Pelo menos eu e os demais fãs da trilogia nos divertiríamos. 🙂

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10 Respostas to “Filosofia DeLorean!”

  1. Janos Biro Says:

    Dê uma olhada nesse card game baseado em De volta para o futuro: http://www.youtube.com/watch?v=6q22dG2b9Zg

  2. João Lourenço Says:

    Não lembro mais exatamente o que esse texto falava, vou até reler agora, mas lembro que era bem interessante: http://www.csus.edu/indiv/m/merlinos/Paradoxes%20of%20Time%20Travel.pdf
    Se não me engano, basicamente ele argumenta contra a visão – subjacente a muitas teorias de viagem no tempo – de q o tempo pode ser bidimensional, e q nosso tempo é apenas uma linha nesse plano 2-d e um viajante no tempo pode usar mais dimensões no plano. Por exemplo, se eu agora viajo para 2020, n é como se eu estivesse de fato trafegando numa linha paralela do tempo e indo parar em 2020. è que eu desapareço instantaneamente (ou quase) agora em 2012 e uma copia quase idêntica a mim reaparece em 2020, n existe de fato uma ‘viajem’ é mais um copy paste na linha temporal, q é unica.

  3. Janos Biro Says:

    Questões sobre o tempo são alvo de infindáveis divagações desde a idade média. É divertido no começo, mas depois cansa.

  4. João Lourenço Says:

    Diversão não pode ser critério de seleção de relevância de área de estudo, se não a filosofia tava lascada. Sempre só é divertido no começo, depois que chega nas “function from functions from functions from indices to things to functions from indices to truth-values to functions from functions from indices to things to functions from indices to truth-values.” fode tudo.

  5. Janos Biro Says:

    Sim, claro. Diversão não pode ser o critério. Acontece que essa discussão, especificamente, não parece ter outra utilidade a não ser a de entreter.

  6. João Lourenço Says:

    Discordo que discutir a natureza do tempo é irrelevante, é uma questão fundamental.

  7. Janos Biro Says:

    Sim, é fundamental. Basta começarmos a fazê-lo. Mas até agora não vi nenhuma discussão sobre a natureza do tempo por aqui, hehe.

  8. João Lourenço Says:

    http://www.csus.edu/indiv/m/merlinos/Paradoxes%20of%20Time%20Travel.pdf

  9. Guto Says:

    Outra coisa interessante, não sei se todos notaram . no 3º filme após o Marty parar no velho oeste o delorean tem seu tanque perfurado pela flecha dos indios e vaza todo o combustível , ai ele fala ao dr brow que é só conserta e abastecer mas o Dr lembra que ainda não foi inventado a gasolina e eles usam o whisky como teste. Mas pera ai ..não era só usar o combustível do delorean que tinha sido atingido pelo raio e quer seria escondido na caverna? ..ai eles não precisariam fazer toda aquela gambiarra com o trem .. pois no caso teriam 2 deloream coexistindo. abs

  10. Julio Cazaroto Says:

    Muito legal. A teoria dos 4 Deloreans é minha, gostei muito da abordagem. Não tinha visto ainda esse texto. 21 de outubro de 2015 chegando, bate a saudade e acabei procurando textos sobre a teoria.
    Parabéns ao autor, não consegui achar o seu nome, não tenho muito habilidade com o WordPress.
    Atração.

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