Archive for the ‘Realidade’ Category

Consolo: House é como Rambo

janeiro 8, 2011

Não deixa de ser frustrante, e fonte de inveja, ver a enorme capacidade intelectual de nosso amigo amoral e ateu Gregory House. Suas tiradas geniais são ininterruptas. Jamais se constrange. Está sempre um passo à frente dos outros. Mesmo quando recebe um argumento ou provocação a altura, vira a mesa em segundos – na pior das hipóteses, perde com incrível estilo. Um ícone ambulante da razão encarnada, no seu melhor!

Fato: qualquer pensador adoraria ser como House, em intensidade, profundidade e velocidade. Na prática, nos sentimos muito aquém do potencial de uma situação – afinal, lá está House nos mostrando tudo o que é possível fazer!

Ah, os heróis da TV! Já me servia de consolo que mesmo House, no contexto da série, vivia constantemente dopado intelectualmente. Vicodin. Dava vontade de pensar: “assim até eu!”. Ainda tomo isso um dia, hehehe. Mas o buraco é (obvia e felizmente, para nós invejosos) mais embaixo…

Sabe aquela cena em que Rambo se joga de um helicóptero, sai resvalando em vários galhos das árvores, cai no chão e sai correndo, em fuga espetacular? Dá vontade de malhar 7 horas por dia vendo aquilo! O engraçado, descobri há uns meses ouvindo um nerdcast (recomendo todos eles), é que Sylvester Stallone fazia questão de dispensar dublês nas tomadas! O resultado hilário é que, pulando de míseros três metros de altura em cima de um colchão (!), ao gravar uma pequena parte do longo salto do helicóptero (feita em vários cortes, é claro), ele quebrou duas ou três costelas!

Esse é o exemplo mais forte de discrepância entre ficção e realidade que conheço. Mas House é outro! Simplesmente há quatro médicos que dedicam longo tempo de suas vidas a ajudar os roteiristas do seriado – de modo que o Dr. House pensa com quatro cérebros médicos (fora os dos argumentistas!) e em velocidade hiper-acelerada!

Feitas as contas, acho que já posso dormir tranquilo. 🙂

(Vai um vicodin?)

Indecifrável Política

setembro 30, 2010

Sempre interessado pelas grandes questões do Universo e da existência, o que envolve filosofia e ciência acima de tudo, nunca dediquei muito tempo à política. Até aqui, estou mais pra apolítico mesmo. No entanto, adoro debates – como donas de casa gostam de novelas. E embora eu nem mesmo vote, época de eleição sempre me gera interesse. De fato, estou com o link pronto para ver ao vivo o último debate presidencial, na Globo, que começa logo mais (e vai ser um atrativo à parte ver a mediação do sobrenaturalmente elegante William Bonner).

Fato: como homem de ideias, eu acabo me envolvendo com os argumentos e contra-argumentos dos candidatos (e de seus defensores, em fóruns da net) e querendo saber quem tem razão. E o que me parece é que tecer uma opinião racional e honesta é completamente impossível – o que me faz ficar absolutamente chocado com de onde vem tanta convicção de todas as partes discordantes!

Só para exemplificar, vou falar aqui de duas coisinhas, entre as tantas que me chamaram a atenção.

A primeira é a velha controvérsia: a privatização é ótima ou é terrível?

Ao privatizarmos indústrias estatais, estamos perdendo dinheiro e colocando o controle do país nas mãos de lobos capitalistas? Esse é o discurso, grosso modo, de esquerda… de Lula & cia; ou estamos incentivando a concorrência produtiva, desonerando o Estado, melhorando os serviços (a iniciativa privada trabalha de verdade, pois visa o lucro) e permitindo ao Governo se concentrar nas questões que importam? Eis o discurso de direita… PSDB e cia.

Bem, eu não sei a resposta. E isso é de se esperar, claro. Mas o chocante é que os mais preparados economistas parecem também não fazer ideia da resposta… afinal, discordam totalmente entre si!

De todo modo, eis um argumento devastador que li por aí, de um certo Ricardo, discordando do suposto fato de que a privatização devasta a economia do país:

É necessário levar em consideração que a empresa privatizada continua dando receita ao país através dos impostos. Em alguns casos, esses impostos tornam-se muito superiores ao lucro total obtido quando a empresa ainda era estatal, como é o caso da Vale. Em 97, ano que a Vale foi privatizada, seu lucro anual foi de US$ 677 milhões. Em 2008, lucrou US$ 21,75 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 6 bilhões foram pagos de impostos ao governo. Isso é quase 10 vezes mais do que o Brasil ganhava naquela época!

Eu adoraria ver um esquerdista bem informado discordando disto. Um problema é que pode nem ser verdade – e, de fato, é incrível que toda facção política tenha seu próprio conjunto de estatísticas e números pra apresentar! Mas, sendo o acima verdadeiro, é realmente algo que me choca… pois é típico da esquerda afirmar (como se fosse óbvio) que o país perde rios de dinheiro com a privatização.

A segunda coisa é: o país melhorou no governo Lula?

A essa altura, até José Serra parece concordar com isso, embora reivindique que tudo não passou de consequência do governo FHC, este sim excelente, e cuja política econômica Lula prometeu mudar inteira, em campanha, mas que seguiu à risca após eleito – e essa é outra questão onde eu adoraria saber a verdade.

Mas, seja como for, Dilma e Lula repetiram à exaustão, nos últimos anos, a vigorosa queda nos níveis de pobreza do país. E mesmo em debate ninguém questiona os dados.

No entanto, fuçando por aí, dou de cara com isto:

http://www.indexmundi.com/g/g.aspx?v=69&c=br&l=en

É simplesmente uma fonte aparentemente isenta, e que exibe pesquisa sobre vários países, indicando que a porcentagem de pessoas abaixo da linha da pobreza, no Brasil, dobrou entre 2000 e 2009! Saiu de 16% para quase 32%!

De modo que fica completamente impossível saber onde está a verdade.

E algo me diz que eu, em minha curiosidade vaga, já me informei e me interessei bem mais pelos candidatos e pelas questões políticas do que 95% do eleitorado. O que implica que a eleição será decidida de forma pior do que aleatória, isto é, com base meramente em sedução de propaganda (que está na mão dos poderosos… lá em Belém, de onde sou, vi a governadora ser acusada, em debate, de investir 60 milhões em saúde e 70 milhões em propaganda!).

E, aliás, não vamos longe… o Tiririca, com aquela campanha que chega a ser um insulto à mediocridade, está liderando as intenções de votos em geral! Diabos, pessoas morreram por suas crenças políticas, certas ou erradas em defesa do bem estar de todos, e a patuleia assina esse atestado de imbecilidade infinita! É difícil não passar pela cabeça, por um segundo, que o povão bem merece sofrer, putz…

E, pra encerrar minha rara manifestação política, não posso deixar de dizer que é um barato ver o Plínio nos debates, tocando um foda-se pra popularidade, e argumentando de verdade, com vigor e razão… Resultado? Nem 1% dos votos… Ou seja, não dá nem pra reclamar da evidente hipocrisia e demagogia dos demais candidatos, pois é o que funciona (embora Dilma esteja até arriscando perder a eleição, a meu ver, de tão óbvia que é sua forçação pra ser politicamente correta).

Mas ainda sobre o Plínio, suas propostas são bem bizarras. Eu adoraria vê-lo por isso em prática – minha curiosidade é (muito) maior que meus escrúpulos, rs. Aliás, que escrúpulos? Às vezes acho que adoraria ver um meteoro cair no Japão (não em Sorocaba, por favor), só pra ver o mundo mudar… é, vem de infância… eu achava os acidentes de carro emocionantes! Mas divago, rs… Adoraria saber o que aconteceria, de verdade, se Plínio desse o calote na dívida externa e elevasse o salário pra 2 mil!

Segundo o físico David Deutsch, isto vai ocorrer… em alguns universos paralelos… Quem sabe um dia a ciência possa nos mostrar as outras versões… Mas ok, isso sou eu voltando à minha vocação intelectual, que não é a política.

Não ainda, pelo menos. Mas bem que é cativante também. 🙂

É necessário levar em consideração que a empresa privatizada continua dando receita ao país através dos impostos. Em alguns casos, esses impostos tornam-se muito superiores ao lucro total obtido quando a empresa ainda era estatal, como é o caso da Vale. Em 97, ano que a Vale foi privatizada, seu lucro anual foi de US$ 677 milhões. Em 2008, lucrou US$ 21,75 bilhões, dos quais aproximadamente US$ 6 bilhões foram pagos de impostos ao governo. Isso é quase 10 vezes mais do que o Brasil ganhava naquela época!

Estamos em uma Realidade Virtual!

agosto 29, 2009

Estava, agora mesmo, passando pela centésima quarta página do famosamente assombroso A Essência da Realidade, do físico teórico e-claramente-mais-que-isto David Deutsch. De fato, este era um livro que eu queria ler há mais de dez anos. O original em inglês, The Fabric of Reality, assustou até Richard Dawkins! Finalmente achei a versão nacional em um sebo – rara, me custou 90 paus!

Pois bem!

Deutsch, de forma não proposital (pois na verdade o objetivo dele, igualmente louco, mas diferente, é nos convencer da existência de um universo paralelo para cada possibilidade física), praticamente me convenceu de que estamos numa realidade virtual, ou de que há uma razão fortíssima pra desconfiarmos disto.

Ele falava, mais ou menos, sobre a situação epistemológica de um ser que estivesse aprisionado numa simulação de xadrez – que fosse, digamos, o Rei. O que ele poderia saber? Em tese, só poderia conhecer as “leis da física” do xadrez, isto é, as regras do xadrez. Mas Deutsch nos diz que esse Rei também poderia saber que as regras do xadrez, sozinhas, não explicam sua própria inteligência e percepção do xadrez. Logo, o Rei poderia deduzir que aquele “mundo xadrez” necessariamente faz parte de um mundo mais amplo, um mundo cujas regras possam explicar as capacidades do próprio Rei.

Deutsch pára aí.

Mas então eu pensei: “eeeeeiii!!! E as leis da física do nosso mundo, explicam nossas capacidades?!”

Como estou persuadido de que as leis da física, pelo menos do modo como são hoje entendidas, não podem explicar sobremaneira a mente e a consciência (mesmo Dennett, o maior defensor da ideia contrária, admitiria que não fazemos ideia dos detalhes), pensei que estamos na situação do Rei! Nosso “mundo físico” deve ser uma simulação, e o mundo real deve ser tal que suas leis e regras expliquem confortavelmente a existência de nossa mente e consciência – que, por ora, estão dentro desta realidade virtual.

E, pensando mais, isto nos dá até uma diferenciação satisfatória e clara entre “mundo real” e “mundo virtual” – sendo o mundo real aquele que explicar, em sua base, a relação sujeito-realidade.

Como diz Deutsch, descobrir algo desta natureza não seria nenhum escândalo: se trataria apenas de descobrir que estivemos estudando, até agora, uma parte menor da realidade do que pensávamos – o que se deu em praticamente todos os avanços da compreensão científica.

* Parece louco? Bom, vim postar no impulso! 🙂

3EI 2 – Menos Filosóficos…

março 14, 2009

TEMAS MENOS FILOSÓFICOS

Apesar de tudo, falamos de vários temas nem tão filosóficos. Por exemplo, Diego, que passou um tempo nos EUA, fez uma apresentação sobre como conseguir fazer pós-graduação, sendo brasileiro, numa grande faculdade como o MIT ou Oxford. Conclusão: esforce-se o dobro do que é possível para ter 1% de chance de chegar perto da oportunidade de, ocorrendo algum erro no sistema, você dar sorte. Pois a cada 5 vagas há 50 pessoas melhores do que você, das quais 10 ainda contam com recomendações ilustres de estrelas como Putnam ou Dennett. Ou seja: não dá.

Outra: perguntei se música ainda é arte. Penso que não, como deixei claro aqui. Todos acharam a afirmação radical, mas concordaram que a música, agora que cai da net em torrentes grátis, já não é mais a mesma: antes era possível se unir às pessoas com base em gostos musicais. Hoje é algo pessoal, e dificilmente se acha alguém que compartilhe seus gostos – tornou-se um fator separatista. Há músicas em excesso pra cada nuance do gosto humano. E, como com as religiões, músicas perdem sua força quando vemos que as nossas não são especiais. Quem acha música clássica realmente melhor do que pagode? Só CD, o mais purista da turma, se atreveu a dizer sim. Os outros já sabem que seus gostos são arbitrários – o que torna a música pálida.

Ah! Éramos seis homens ali. Claro que debatemos algo sobre sexo – foi o único fio carnavalesco que tivemos nesse Carnaval (além da moça de biquíni que passou por ali, paralisando completamente um debate). Era a questão de se a atração sexual, por parte dos homens, conta exclusivamente com a beleza feminina, ou inclui – e o quanto inclui? – a personalidade da mulher no pacote. Diego: personalidade praticamente não conta. Eu: chega a contar mais do que a beleza. Os demais: são dois fatores centrais.

Como a subjetividade varia em algo tão cru da natureza humana!

E os médicos? Dá pra não temê-los? A razão de eu introduzir este tópico foi o pânico que CD – que estuda medicina – me causou via Messenger nos últimos meses. O ensino de homeopatia (!) é obrigatório no Brasil. Pior: há muitos analfabetos científicos no curso de medicina, capazes de afirmar que “nascem mais homens na Lua Cheia”! O debate não me deixou mais confiante. JôLou vai sempre em três médicos, e os três sempre discordam sobre o diagnóstico. CD deixou claro que, se quisesse, conseguiria se formar em medicina sem aprender porra nenhuma. Enfim. Medos!

Também coloquei em pauta outra coisa que venho notando, aliás relacionado com o problema acima: faculdades são horríveis! O que vi, nos últimos meses, de obras e atitudes intelectuais de quinta categoria produzidas por graduados e até PhDs não me deixou ter vontade de fazer faculdade – sinto que vai me atrapalhar, isso sim! Detalhe: estou falando exclusivamente do ponto de vista do conhecimento, sem incluir objetivos de carreira aqui. E fiquei surpreso quando pelo menos metade da turma ali concordou comigo! Eles fazem faculdade e concordam que estou muito bem sem ela. Continuo a analisar esta delicada questão…

Numa boa surpresa, Victor fez uma apresentação defendendo o valor do RPG. Foi ótima! Ainda lembro da época em que jogava Vampiro – A Máscara, interpretando um âncora de telejornal extremamente burguês e arrogante. Mas Victor defendeu de um modo inusitado: jogar é ótimo, claro. Mas só ler os livros de RPG é uma ótima idéia. Parece uma recomendação exótica, mas a defesa dele bem colou: há coleções de fatos interessantes nesses games, reunidas da melhor forma. Eu que já li, sem jogar, Mago – A Ascensão, só posso assinar em baixo. Digo, pra quem tiver tempo, rs.

Por fim, um tema que me foi muito caro: a ética dos debates. Foi minha chance de, sutilmente, reclamar da tendência pra-lá-de-inútil de ficar afirmando, durante um debate, o quanto o oponente está errado, ou como ele raciocina de um modo falho, ou que seu conhecimento é incompleto e sua literatura insuficiente para o ponto. Nas entrelinhas, está dito o seguinte: “que eu tenho razão, esta parte já é óbvia; agora só nos falta superar as tuas limitações e te convencer”. Dirijo esta pequena queixa a Diego, Victor e CD. Eles não escaparam da necessidade instintiva de intimidar o interlocutor com mais do que apenas argumentos. Outra falha: fazer cara feia enquanto alguém diz algo de que você discorda. Mais uma vez, é meramente instintivo. Mas atrapalha e é bom se livrar disso.

Em debates, só argumentos devem pesar. Nada mais.

P. S.: CD parece discordar francamente disto. Pelo Messenger, ele realmente achou relevante sair da discussão principal, sobre a natureza da lógica, para a questão subjacente sobre como ele sabia mais sobre lógica do que eu – logo, eu só podia estar errado. Mesmo que fosse verdade, porém, não vejo como essa abordagem seja válida. E não ajudou CD afirmar que eu interpretava mal os dois livros que li – afinal, eu os li duas vezes cada. Ele jamais os leu. Não era eu uma “autoridade”, neste caso?

Essa foi a parte menos filosófica do tri-ei. O que vem a seguir é dinamite pura!

3EI 7 – Entropia

março 14, 2009

O CAOS NAS LEIS DA FÍSICA

Como a razão e a matemática, também a entropia foi tratada como apenas uma criação humana. Entropia significa caos, desordem. E enquanto as leis da física dizem que há uma tendência universal de tal desordem aumentar ao longo do tempo, Diego – sobretudo – se dispôs a mostrar que tal tendência é apenas mais um viés humano.

O tema surgiu na interessante apresentação de Pierre. Na parte aqui relevante, ele expôs a estranha relação entre a entropia e a seta do tempo – isto é, o fato de que o tempo “corre” do passado em direção ao futuro, e não o contrário. Os físicos, ao que parece, definem “passado” como o estado de baixa entropia e “futuro” como o estado de alta entropia. Por outras palavras: há o mínimo de caos no Big Bang (o passado) e, com o passar do tempo, a desorganização da matéria vai aumentando (sendo, portanto, o futuro). Mas por quê?

O que torna isto intrigante é outro fato: tudo indica que as leis da física são “reversíveis no tempo”, o que significa que um universo em rewind, isto é, “passando ao contrário”, não é algo fisicamente impossível: assim como as leis da física permitem que um ovo caia no chão e quebre, produzindo no chão um impacto específico, elas também permitem que um chão trema de tal maneira que leve as partes de um ovo quebrado a serem empurradas pra cima em ângulos tais que montem o ovo inteiro!

Se isto é possível, por que não ocorre nunca?

A resposta óbvia é que é possível, porém muito improvável.

O problema é que, se as leis são reversíveis no tempo, isto significa que cada ovo que você vê se espatifando no chão entre as 10:00:01 e as 10:00:04 é, também, um omelete vindo do futuro (10:00:04) que, em direção ao passado, foi empurrado pelo chão e se montou no ar, até atingir a mesa (10:00:01). E isto não é algo menos improvável, só porque começou a ocorrer no futuro e terminou no passado.

Temos um mistério.

De um modo que eu não entendi bem (falha minha), Pierre se inclinava para a conclusão de que o mistério pode ser resolvido negando-se que as leis da física sejam reversíveis. Pode ser que, afinal, um omelete “desquebrando” e virando ovo não seja algo fisicamente possível. Mas esta seria, de todo modo, uma conclusão herética. Caso mantenhamos o mistério, em benefício da ortodoxia da comunidade física, em que pé ficamos?

Para cada configuração organizada (um ovo, água num vidro) que com o tempo se desorganiza (um ovo espatifado, água que sai do vidro evaporando no ar), existe outra configuração-espelho onde exatamente o oposto ocorre (um ovo espatifado que se monta, vapor que entra no vidro se tornando líquido). Então não parece ter sentido algum dizer que as configurações ordenadas são menos prováveis que as caóticas.

É aí que Diego entra, com sua raça alienígena dos Zin, para dizer que o caótico e o ordenado são definições humanas arbitrárias: chamamos de “ordenado” o estado no qual a água fica quando dentro de um recipiente, e chamamos de “caótico” o estado no qual a água fica após evaporar-se de um recipiente. Mas os Zin possuem uma cognição distinta da nossa: eles detectam quando as partículas estão dispostas de tal modo que, a seguir, irão convergir para um recipiente e entrar no estado líquido. E só matam sua sede se inspirarem as partículas nessa condição – antes que se tornem “caóticos amontoados líquidos”. Pra eles, a definição de caótico e ordenado é inversa.

Mas aí foi o próprio Di quem percebeu: para além das configurações ordenadas e seus espelhos, existem zilhões de outras configurações possíveis, que não acrescem e nem decrescem em entropia (se decrescessem, precisariam ser o espelho de alguma configuração que acresce), sendo, assim, configurações “estáveis” – e, claro, caóticas a pleno título, de um modo que nem os Zin poderiam “reinterpretar”. E, sendo as mais numerosas, são também as configurações mais prováveis. Ou, ao menos, deveriam ser. De fato, Brian Greene argumenta que era de se esperar que o Universo fosse estático, sem aumento ou queda de entropia. O fato de não ser assim, e de haver um grau baixíssimo de entropia na ponta do Big Bang, é outro mistério.

Também penso que o ponto sobre os Zin oculta o fato de que uma configuração “caótica” que seja o espelho de uma ordenada não é, afinal, uma organização caótica! Ela seria caótica se estivesse em sua “direção normal”, apontada para o aumento de entropia (entropia, agora, no sentido já não arbitrário das configurações estáveis visto acima), e não em sua “direção espelho” que, logo mais, se organizará em um padrão ordenado – já sendo, portanto, uma certa forma de ordenação. E seria precisamente por detectarem tal padrão que os Zin saberiam o que beber.

*****

Essas discussões filosóficas sobre física são, até agora, o único ponto do saber onde me alio a CD na sensação de que falta lastro intelectual para se fazer mais do que comentários meramente pueris. Aqui a sensação de não sabermos bem sobre o que estamos falando é realmente irrecusável. O que não admira: estamos nos limites da ciência e da filosofia. Até quando leio Brian Greene, ou Penrose, ou Feynman, sinto que lhes falta muita clareza filosófica. E a sensação é ainda pior quando ouço qualquer filósofo se arriscando a comentar física. Deve existir – porém não conheço – quem seja bom o suficiente nas duas matérias para fazer alguma esclarecedora ponte entre, por exemplo, ontologia e dados da física quântica.

Mas é ou não é verdade que os físicos, em geral, desdenhariam de tal projeto? – como se qualquer comentário filosófico sobre as teorias físicas lhes impingisse algum exótico acréscimo inútil, em vez de um avanço em sua compreensão.

I Encontro Intelectual (IEI)

março 16, 2008

I Encontro Intelectual (IEI)
comentários by Paralelo, cafeinado, um mês depois, on 15.03.08

Nos links logo abaixo, apresento meus comentários sobre cada um dos temas principais surgidos no evento.

1. Poligamia x Monogamia
(Diego & Paralelo contra Carlos Daniel, Pierre & Vitor)

2. Amoralidade x Moral e Ética
(Paralelo contra Todos!)

3. Influência da Cultura x Psicologia Evolutiva
(Pierre contra Todos!) [Intermezzo nerd: as formigas]

4. Trabalho x Anti-trabalho (CD, Pierre & Vitor contra Diego (?) & Paralelo)
+ Status x Anti-Status (Todos! contra Paralelo)

5. Determinismo x Livre-arbítrio
(CD, Diego & Vitor contra Paralelo & Pierre)

6. Dualismo de Propriedades x Monismo Físico (Sobre Consciência)
(Diego contra Todos!)

7. Imortais Transumanistas x Mortais Conformados
(Diego, Paralelo & Vitor contra Pierre & CD)

8. Busca de Mulheres Inteligentes é Assunto Metafísico x Elas existem!
(Diego & CD contra Paralelo, Pierre e Vitor)

9. Família e Filhos x Amigos e Amantes
(CD & Pierre contra Diego & Paralelo)

10. Lógica objetiva x Lógica convencionada
(Paralelo contra CD – os demais indecisos) [Extra do DVD: A Lua]

11. Ateísmo Militante x Ateísmo Passivo
(Paralelo & Vitor (?) contra CD, Pierre e Diego)

12. Indutivismo Instrumental x Indutivismo Objetivo
(Todos! contra Paralelo)

Cada link é um post no blog, e pode ser comentado, e depois respondido, independentemente.

Cada post, portanto, é potencialmente um fórum.

Não hesite em comentar.

Boa leitura e bons insights!

Na verdade, o nome do evento é I Encontro Internacional Intraestadual Intelectual dos amigos do Carlos Daniel + o Victor na casa do Diego! – e, neste preciso momento em que colo isso aqui, peço perdão por ter escrito “Vitor” por todo o resto do trabalho.

Vale à pena reproduzir as disposições gerais do IEI, by Diego:

Dos objetivos:

O encontro objetiva Primariamente discutir a respeito de posicionamentos sobre o mundo (formas de viver e se posicionar) vindos de diversas fontes dotadas de racionalidade, mais do que adentrar-se nas questões próprias da natureza última do universo, por conta da escassez de tempo (e não, evidentemente, de cacife intelectual).

2ªmente, Masturbação intelectual, regada a risos e análise lógica, piadas de nerd etc…

3ªmente Adentrar-se nas questões próprias da natureza última do universo

4ªmente Persuasão política, moral, cultural e econômica dos participantes uns sobre os outros, em vistas de tornar claro seu posicionamento sobre a vida, e talvez passá-lo adiante.

5ªmente Conhecer e apreciar um pouco da arquitetura urbana e culinária da cidade de são paulo

6ªmente promover uma grande orgia homossexual. Como todos esperamos que nunca cheguemos nesse objetivo, nos cabe mantermo-nos pelo máximo de tempo possível nos demais, assim garantindo o bom andamento do projeto.

O IEI durou três belos dias de fevereiro. Os presentes foram cinco, por ordem alfabética: Carlos Daniel (CD), estuda medicina no Rio (e veio até Sampa pro evento!); Diego, o anfitrião, estuda filosofia na USP; Paralelo (ou Lauro, ou este que vos escreve), que… err… enfim (o Pierre, no blog dele, me apresentou como “ativista intelectual” – então tá!); Pierre, estuda engenharia de materiais não recordo em que facu de Sampa; e Vitor, calouro de filosofia na USP.

Debatemos de tudo, intensamente e com grande qualidade – além de rebatermos uma peteca no meio da sala. Foi maravilhoso!

A propósito, recentemente o Carlos Daniel (que, nos links abaixo será chamado de CD) sugeriu um nome para o próximo evento: Segundo Encontro Interestadual Intelectual dos Amigos do Carlos Daniel, que Agora Já São Amigos Entre Si, e o Victor, que Agora É Amigo do Carlos Daniel e de Todo Mundo Também. Sugestões de revisão devem surgir…

Agora, mãos à obra!

IEI 3 (Psicologia Evolutiva)

março 16, 2008

Influência da Cultura x Psicologia Evolutiva
(Pierre contra Todos!)

Assim como eu sou o único da turma que não sabe inglês (e como me aporrinham por isso, mas com muita razão), o Pierre era o único da turma que não conhecia a psicologia evolutiva (psievo) e, portanto, tem intuições bem fortes sofre a influência da cultura no comportamento humano. Quando o tema surgiu, veio o comentário: “Pobre Pierre…”.

E foi barbada. Em conversas anteriores do Messenger, o Pierre já tinha sido dissuadido em muitas partes do seu ponto de vista. Que a seleção natural não é uma verdade tautológica e vazia (“a sobrevivência dos sobreviventes”); que emoções são fruto da organização do cérebro, e que este foi moldado pela seleção natural – tanto quanto o fígado e os pulmões; que os ciúmes seguem um padrão evidentemente relacionado à assegurar a descendência; e etc.

O tema surgiu várias vezes, e foi sempre um tranqüilo processo de tirar as dúvidas do Pierre. Ele achou tudo enormemente positivo e, agora, vai começar a ler as obras cruciais.

Intermezzo nerd: as formigas

Foi interessante quando, no Parque do Ibirapuera, vimos uma formiga carregando uma folha e, sobre a folha, outra formiga pegando carona! Exclamei: “que parasita oportunista!” e estava brincando, é claro. O CD filmou com celular – sim, há provas! A conjectura do Diego foi de que a formiga caroneira estava sobre a folha quando a segunda formiga começou a transportá-la, e o movimento brusco da folha fez com que a formiga caroneira se paralisasse, como se para não ser percebida por um possível predador; a outra formiga, alheia, carregou a folha normalmente – talvez estranhando o peso extra, se é que formigas podem ser conscientes!

IEI 4 (Anti-trabalho)

março 16, 2008

Trabalho x Anti-trabalho (CD, Pierre & Vitor contra Diego (?) & Paralelo)
Status x Anti-Status (Todos! contra Paralelo)

Atenção: o “status” a que me refiro é, especificamente, o status financeiro e material, que é o reconhecido pela maioria das pessoas no capitalismo atual.

O Diego é indeciso porque é tiete descarado de Bertrand Russell, e Russell argumentava em favor do valor do ócio e da falta de sentido do trabalho tal como existe no sistema capitalista. Mas, como o CD, o Pierre e o Vitor, ele parece concordar que o status é uma coisa suficientemente boa e preciosa para justificar o esforço de trabalhar oito horas por dia, em troca de dinheiro – e do poder social que advém dele.

A coisa é confusa.

Em outros momentos, o Diego admite que ter status é algo que, por um lado, acaba te fazendo ter o mesmo prazer de outrora, porém com mais esforço (você se acostuma a luxos e, então, fica prisioneiro deles) e, por outro, te coloca na situação estressante de evitar perder o mesmo status – o que significa medo, preocupação com segurança e, acrescento eu, uma postura conservadora decorrente. Ele está pronto a admitir que há algo de muito positivo na minha postura de ignorar o status: tenho uma liberdade valiosa por isso.

Mas uma coisa que o Diego não admite é: status te deixa paranóico com o fato de alguns de seus vizinhos e amigos terem mais status do que você. Na verdade, nenhum dos participantes do encontro têm essa paranóia – isso ficou claro pra mim, e me fez mudar de idéia. Segundo o Diego, a razão é que em uma metrópole como São Paulo a chance de haver alguém “acima de você na hierarquia” é tão líquida e certa que a tentação de estar “no topo” simplesmente some. Isto pode estar certo, mas também desconfio que a razão, na verdade, é que os participantes são especialmente inteligentes e capazes de enxergar outros valores.

De qualquer modo, pensei o seguinte: talvez só quem seja “paranóico com a concorrência” são as pessoas que “vêm de baixo” e, portanto, se deslumbram e se perdem com o poder adquirido. Quem nasceu em berço de ouro, provavelmente, tem no status algo realmente positivo e valoroso.

E trabalhar? Agora é com o CD o assunto!

Uma coisa é nascer com status, outro é ralar para adquiri-lo. Vale à pena? Há que se considerar que, infelizmente, não existe na sociedade a opção oficial de “abrir mão do status e não trabalhar”: ou você trabalha, ou não come. Todos parecem estar de acordo com a idéia (e, surpreendentemente, com a possibilidade!) de uma sociedade que sustente ociosos – e quem quiser status que trabalhe.

Mas essa sociedade ainda não existe. Eu consigo viver sem trabalhar, ainda e quiçá sempre, graças a uma combinação improvável de fatos – lutei por isso, contudo. Será que, mesmo tendo conseguido isto, eu deveria trabalhar para obter status? Será que estou perdendo algo muito valioso, escolhendo este ostracismo? O CD parece tender a me dizer que sim.

Ele valoriza muita coisa que custa caro, e parece tirar enorme – até essencial – prazer de tais coisas. Há um porém: ele diz amar o trabalho que faz, e assume prontamente que não valeria à pena se submeter a um trabalho não-prazeroso. Dito isso, a questão parece se encerrar pra mim: qual a minha chance, e a da maioria da população, de conseguir um trabalho prazeroso? Quase nula. O CD é uma exceção de sorte.

E eu, pra piorar, tenho uma aversão idiossincrática ao trabalho – além da conta – que piora tudo. Oito horas por dia compromissadas com qualquer atividade! Sinto isto como escravidão insuportável e desesperadora, mas é claro que preciso admitir que para a maioria das pessoas está muito longe disso.

Tenho uma dúvida genuína: será que o CD se beneficiaria de largar suas tarefas e ser livre com menos status? Mesmo supondo que ele conseguisse se livrar da dependência adquirida pelos luxos, e voltasse a ter a mesma dose de prazer com coisas simples, ainda ele é muito convincente ao exprimir o quanto o status lhe faz bem e é proveitoso. E ele pode estar muito certo.

A questão é que, se eu consigo vislumbrar uma vida plena sem status, é graças à todo o resto das coisas estranhas que eu valorizo com força: relações sinceras num grau absurdo, sexo e paixão e amor abertos e afetuosos de todas as partes envolvidas (ou, no lugar disso, amores platônicos e unilaterais da melhor qualidade e compreensão da parte “não romanticamente envolvida”), idealismo apaixonado por causas intelectuais, etc, etc, etc. Sem tudo isto, duvido que abrir mão do status seja viável – e não sei medir o quanto destes valores são idiossincrasias minhas, embora eu esteja francamente aberto à possibilidade de que nenhum deles o seja! Ou de que a maioria seja…

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Outra: o Diego frisa que ainda existe uma “moral do trabalho”, e a sociedade odeia um tipo como eu, que consegue ser feliz sem se esforçar num emprego pra isto – é como se eu não merecesse. A mesma raiva, o Diego supõe, causa a aversão às drogas: você gera um enorme prazer mental de forma mecânica, ingerindo um estimulante, sem fazer nada pra merecer o prazer.

Conclusão entusiástica do Diego: “o Lauro e as drogas são a mesma coisa!”.

Haha… ¬¬

Mas eu considero este argumento muito “sociologista”.

Minha alternativa é esta: o que se valoriza na sociedade é status financeiro, e este só é conseguido através do trabalho; logo, quem não trabalha é obviamente vergonhoso (vergonha é o sentimento de perder status). Por isso a hostilidade contra os ociosos – é como se eles fossem babacas: “se você não trabalha, você é um perdedor, um fraco que escolheu a derrota”. É assim que sentem!

Arrisco mais: os ociosos incomodam também por fazer com que os trabalhadores sintam que, no fundo, todo o seu esforço pode ser vão. Que há quem consiga ser feliz e ter sucesso pessoal sem perder tanto tempo. É uma inveja e um medo de estar se esforçando à-toa (e a resultante hostilidade contra quem causa este sentimento), mas não uma condenação moral. Trabalhar é difícil e penoso para a maioria, e acreditar que há enorme sentido neste sofrimento é, sem dúvida, a melhor forma de suportá-lo. A existência de ociosos felizes mina esta crença.

Mas meu argumento foi assimilado como algo que pode coexistir com o ponto do Diego. Bem, talvez. Uma versão light da “moral do trabalho” sem dúvida é verdade.

IEI 7 (Imortalidade)

março 16, 2008

Imortais Transumanistas x Mortais Conformados
(Diego, Paralelo & Vitor contra Pierre & CD)

A morte é certa?

Diego, Vitor e eu pensamos que há esperança tecnológica para escapar dela. E se for preciso alterar o código genético pra isso, se for preciso transferir a consciência para um HD, se for preciso se tornar um ciborgue – em suma, se for preciso ir “além da condição humana” (aí o transumanismo), então que seja! Morrer, nem pensar.

Muitas pessoas, sobretudo as religiosas, vêem nisso um absurdo anti-ético: “fomos feitos para morrer e ponto final”. O CD e o Pierre não têm quaisquer críticas morais desse teor a fazer. Eles apenas não são tão otimistas a ponto de achar que vale à pena se dedicar em nome da possibilidade de a tecnologia superar a morte: se é que ela conseguirá isto, quase certamente (ou mesmo certamente!) não será em nossas vidas, por mais que consigamos viver 150 anos com o estilo de vida mais saudável jamais concebido. Então, não vale o esforço.

Na verdade, o Pierre e o CD não têm sequer esse ceticismo firme. Eles têm mente aberta para considerar ao menos plausível a superação da morte. Bem, eles só foram enquadrados como “mortais conformados” para animar a festa!

Interessante foi a visão futurista do Diego: se em 50 anos tivermos acesso a uma tecnologia anti-morte, isto justifica que passemos 200 anos escondidos num abrigo, a salvo de fanáticos religiosos ansiosos por nos matar em nome de Deus e da “ordem natural” – supondo que os fanáticos morressem e fossem substituídos por gerações mais esclarecidas, este tédio de 200 anos nos garantiria os próximos 200 mil!

Sendo tão otimista, é surpresa que o Diego nos considere – os humanos imortais, se acontecermos – incapazes de atravessar a morte térmica do Universo, a ocorrer dentro alguns bilhões de anos. “É impossível”, diz ele, “daí não passamos!”. Todos os outros participantes, em especial o CD, preferem racionar assim: “Teremos centenas de bilhões de anos para resolver o problema? Até lá damos algum jeito!”.

IEI 9 (Família)

março 16, 2008

Família e Filhos x Amigos e Amantes
(CD & Pierre contra Diego & Paralelo)

Não lembro o posicionamento do Vitor aí, e a “súmula oficial” não o diz.

Sou da opinião de que os genes nos programaram para reproduzir (a parte óbvia) e que isto não coincide com a felicidade. O prazer e a dor são botões biológicos que os genes apertam para nos levar a propagá-los, e muitas formas de prazer imediato vêm logo acompanhadas por efeitos colaterais dolorosos ou, no mínimo, inconvenientes. Mas desde que nos tornamos racionais, começamos a ser capazes de driblar as táticas genéticas, e obter somente o prazer, sem arcar com o preço que os genes costumam cobrar para obtê-lo.

Um exemplo cristalino: sexo e filhos. Tem coisa fisicamente melhor que sexo? Mas tem coisa pior do que um filho na hora errada? Por centenas de milhares de anos, só podíamos ter aquele prazer pagando, necessariamente, o preço da gravidez – fosse desejada ou não. Isto infelizmente tornou as mulheres abusivamente seletivas (¬¬), pois pra elas o sexo significava nove meses difíceis e toda a infância e adolescência do rebento! Nem preciso dizer que, para o homem, sexo pode significar praticamente só o prazer…

Mas aí chegou a camisinha! Yeah!

Uma pena, nossos genes não tiveram tempo de “descobrir” isto e, claro, as mulheres continuam nascendo com uma psicologia seletiva… ¬¬

Mas estou digressionando (! É assim… Vi no dicionário!). Queria dizer que hoje, racionais que somos, já podemos ter o prazer do sexo sem pagar a gravidez, se quisermos. E é claro que isto nos deixa mais felizes do que a situação natural!

Então, estabeleci o princípio. Diego deve estar entusiasticamente de acordo.

E então? Será que formar família e ter filhos é um mau negócio, ao qual apenas somos induzidos pela nossa programação interessada em espalhar genes, e do qual faríamos bem em nos livrar? Penso que sim. Na verdade, acho até óbvio.

Filhos são parasitas, não abro.

Temos a doce ilusão de que nossos filhos serão crianças especialmente do nosso agrado, mas basta lembrar dos seus tios e tias irritantes (e sobretudo os tios e tias irritantes do seu parceiro!) para ver que não é isso: nossos filhos terão combinações aleatórias de genes, e pode dar qualquer coisa.

Obviamente, os genes não nos deixariam avaliar objetivamente nossos rebentos aleatórios e, por isso, nos drogam – sobretudo as mulheres – com um prazer absolutamente gratuito em nos esfolar em nome de um ser frágil e exigente (e ingrato!). Sim, temos esse prazer natural – mas duvido que ele justifique o esforço. A vida de privações e obrigações que os pais costumam levar não me atrai nenhum pouco.

Além do mais, considero de um mau gosto terrível gostar de alguém por razões químicas arbitrárias: se sua mãe fosse sua vizinha, você não veria nada demais na pessoa que ela é! O mesmo vale para seus filhos. Já os amigos e amantes, estes se escolhe! E se pode gostar deles por motivos reais, genuínos.

Esse é meu ponto.

O assunto foi só brevemente levantado, e o CD e o Pierre não fizeram nenhuma defesa do valor da família que eu consiga lembrar – apenas comentaram que têm vontade.